A CENA NEGRA: UM ESPAÇO A DISCORRER SOBRE A IMAGEM

Por Adriana chaves


O fazer artístico se apresenta, para mim, como um caminho onde é possível existir, aliada à ciência de criar novos espaços e narrativas, um espaço de resgate. Vejo que estas ideias foram se acentuando com o tempo, mas consigo mirar suas urgências desde a primeira vez que fiz teatro.


Como mulher negra, para nós negres, a construção da imagem é um ponto vital, que vai desde a identificação com o outro até a importância de se ver no espelho, como diz Beatriz do Nascimento “É preciso a imagem para recuperar a identidade. Tem que tornar-se visível”. E o meu trajeto, às vezes consciente, mas muitas vezes inconsciente, foi e é estimulado por essa busca. Neste caminho, tive algumas inquietações, uma delas é a de que a arte e suas linguagens, mas aqui me referindo ao teatro e à dramaturgia, não devem ser tidos como algo luxuoso e inacessível, Audre Lorde diz “a poesia não é um luxo”, pois no seu cumprimento social e vital ela é alimento, ela também é a ferramenta de resgate e de emancipação de um povo.


O Teatro Negro se compromete com a decodificação do corpo negro, isto é, com a ressignificação sobre a forma como ele é visto socialmente e com a articulação do teatro com a comunidade, um projeto político de organização social.

As manifestações tradicionais negras também se comprometem com o resgate da identidade, com culto da imagem sob bases organizacionais sociais e políticas. Essas referências a mim são muito caras, pois, ao mirar o teatro e arte como profissão, me deparei com questionamentos familiares e da sociedade que pontuaram qual é o serviço da arte. A famosa frase:

- Teatro? Teatro de que?


Porém, percebi que o questionamento não era simplesmente pela desinformação das pessoas que me rodeavam, mas, principalmente, pela forma em que o nosso país inviabiliza a cultura para pessoas pobres, não brancas e periféricas.

RECUPERAR A IMAGEM

Ao discorrer sobre o corpo negro, Beatriz Nascimento pontua que este é um corpo que se define e se redefine pela Diáspora. A autora se refere à perda da imagem que atingia os escravizados e à busca da outra imagem na Diáspora. Tal busca pode ser vista nas manifestações negras tradicionais e contemporâneas: ela dá como exemplo os bailes funks e as escolas de samba, afirmando que “a criação de espaços permanentes ou transitórios de referência” e resgate são urgências geradoras na cultura negra diaspórica.


Nas manifestações culturais e religiosas negras, são presentes a ressignificação e reatualização da identidade negra, na sua estrutura dramática e, também, ritualística. Leda Maria Martins aborda a “dupla voz” como uma técnica que vai ser usada para a sobrevivência da cultura negra e que vai articular a forma como o negro vai se inscrever nas Américas. Trata-se de um jogo dialógico que manipula os códigos linguísticos e realiza o jogo das aparências, a exemplo dos congados e reinados a autora elucida:

“Eles se fundam em uma estrutura de dupla fala e de significado mascarado, como uma encruzilhada de significantes que manifesta dramaticamente, o mesmo processo de jogo que já assinalei. Os congados são festivais sagrados a Nossa Senhora do Rosário, a Santa Efigênia e São Benedito. Os santos celebrados são católicos. Assim na superfície, a celebração é cristã; entretanto na estrutura latente das cerimônias e organização ritual, predominam padrões de expressão africanos ou afro brasileiros”. ( MARTINS; 2002).


A dupla fala está presente nas diversas manifestações negras, a exemplo do Samba Rural, no uso da máscara negra no teatro dos menestréis,no Cavalo Marinho/PE nas figuras de Mateus e Sebastião e no Nego Fugido/Acupe BA. Manifestações essas que vão representar, de forma lúdica e catártica, o sistema escravagista em sua violência e em sua complexidade de jogo de poder. Também está presente nos rituais religiosos, como no candomblé, que, por meio da catarse, dramatiza uma experiência racial coletiva e abre espaço para recuperação da identidade.

Assim, a dupla fala é característica da teatralidade negra diaspórica. Um dos elementos que nos permite reconhecê-la e relacioná-la com a experiência do negro no ocidente, dentro da diversidade geográfica e temporal das manifestações, é justamente a tecnologia do negro para a recuperação da sua imagem e reatualização da sua cultura.


O teatro negro no Brasil, a exemplo da trajetória do TEN - Teatro experimental do Negro -, se movimenta para a recuperação da identidade negra por meio do protagonismo negro em cena e da manipulação de signos dramáticos que visavam desconstruir estereótipos sobre a forma como o negro era representado em cena à endossar o preconceito racial. Foi por meio do reconhecimento do “status quo” do negro e no manuseio dos signos em sua dramaturgia que o TEN realizou na sua dramaticidade o jogo das aparências, onde há uma críticaque desnuda o lugar social e ideológico do negro e do branco. O teatro negro no Brasil, para além de uma proposta artística, foi e é um projeto político que, dentro de suas diretrizes, propunha uma união comunitária da comunidade negra e o despertar sobre sua imagem, contra a internalizarão da linguagem racista autodestrutiva que, muitas vezes, nos servia para justificar as violências sistemáticas.

SOBRE UMA DRAMATURGIA DE RESGATE

Ao pensar em uma construção dramatúrgica que bebe nas funduras do que é esse resgate da identidade por parte de nós negres, mergulho inevitavelmente na memória, sendo ela um salto criativo no vazio, no que é a busca do reconhecimento da linguagem. Esta que é fundadora do que somos ao mesmo tempo em que é o que manipula a forma pela qual somos codificados e inscritos na sociedade, sendo possível trazer para a dramaturgia teatro e/ou performance a presença de uma história e/ou registro antes não contada sob um novo olhar.


Nessa perspectiva, trago um pouco do processo de criação do trabalho “Sinal Vermelho” do Grupo Traços Periféricos, do qual sou integrante junto com as artistas Ana Elisa Gonçalves, Éle Fernandes e Saulo Calixto, para demonstrar como as ferramentas de duplo sentido e de reatualização da nossa identidade e cultura foram elementos presentes e fundantes.


A ideia da performance surgiu da inquietação cotidiana sobre a forma como nós éramos e somos vistos no trânsito cotidiano das ruas da cidade de Belo horizonte. Começamos a investigar os olhares atravessados das pessoas sobre nós nos sinais das avenidas, identificando os olhares violentos da segurança pública, olhares desconfiados de pessoas comuns, por vezes carinhosos na maioria das vezes por pessoas negras que se identificavam de alguma forma, e também os não olhares pelo ritmo apressado do trânsito na cidade grande. A escolha de começarmos pelo olhar veio pelo desejo de nos provocarmos durante o processo a refletir na questão do espelho e da identidade, estimulados pelo jogo dialógico no sentido de perceber como os outros te olham, isto é, como você é visto e, ao mesmo tempo, identificar olhares que não estão necessariamente nos enquadrando como o “o outro”, mas que se desvia ou se encontra por ser espelho, por compartilharem uma mesma forma de serem vistos e por uma mesma urgência de ter que se ver.


Foto: Pablo Bernardo
Foto: Pablo Bernardo
Foto: Pablo Bernardo

A partir dessa investigação, decidimos ir para as ruas vestidos da cor vermelha, que trazia urgência, ao mesmo tempo em que era o sinal vermelho - fechado do trânsito, que também é a cor de Exu, orixá das encruzilhadas, dos caminhos e das ruas e que nos fornece o saber da dualidade. Discorremos sobre a cor vermelha, seus símbolos e contradições como paixão-urgência, amor- sangue, perigo- transmutação e sobre outros elementos como: apitos - segurança pública, bala - bala perdida e balões vermelhos - respiração, que também se faziam simbólicos nas ações. Assim, a performance tratava de ocuparmos os sinais das avenidas durante o tempo que ele se mantivesse vermelho para os carros.


Trabalhamos com os nossos olhares, realizando ações de afeto, ações cotidianas e com os objetos, com o objetivo de refletir com o público transitório e fixo como o corpo negro circula e é visto nas ruas.

Foto: Pablo Bernardo

A performance se atualizou a cada apresentação, no que diz respeito à forma como decidimos jogar com as ações, com o público transeunte e com o próprio trânsito, tendo como ponto seguro o encontro de corpos negros que se encontram e se olham em um lugar marcado por vivências violentas. A cena, então, seria um lugar de nos vermos, de propormos sermos vistos, um grande jogo dialógico sobre as imagens. Uma oportunidade de resgate no tempo? Em um curto tempo de 14 ou 29 segundos, tempo do sinal vermelho para os carros.


REFERÊNCIAS

  • MARTINS, Leda maria. A cena em Sombras. Debates Teatro, São Paulo, Ed Perspectiva, 1995.

  • RAMOS, Jarbas. O Corpo-encruzilhada como Experiência Performativa no Ritual

  • Congadeiro. Revista Brasileira de Estudos da Presença, Uberlândia/MG.

  • RATTS, Alex. Eu sou Atlântica. Impresaoficial. São Paulo, 2006.

  • MARTIS, Leda maria. Performance do Tempo Espiralar. In _ Performance, exílio, fronteiras: errâncias, territorios e textura/ Graciela Ravetti, Márcia Arbex (organizadoras). Belo Horizonte: Departamento de Letras Românicas, Faculdade de Letras UFMG, 2002.

  • LORDE, Audre. A Poesia não é um Luxo.In _ Irmã Outsider/Audre Lorde; tradução Stephanie Borges. 1. ed Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.

  • PINTO, monilson dos santos. A Dialética da máscara negra: Nego fugido contra o black face. Revistas Aspas ppgac - USP, 2017.

  • HALL, Stuart. Da Diáspora Identidades e Mediações Culturais. Organizadora Liv Sovik. Editora UFMG. Belo Horizonte, 2003.


Adriana Chaves é artista natural de Sabará/Minas Gerais, é atriz formada pelo Teatro Universitário da UFMG e Bacharelanda em Humanidades pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro Brasileira/Bahia. É cantora e preparadora vocal. Desde 2016, realiza trabalhos de pesquisa e ação em teatros negros e investiga as manifestações populares na sua teatralidade, voz e corporeidade. Trabalhou com o teatro do oprimido e teatro de mamulengo no grupo Trupe a Torto e a Direito entres os anos de 2016-2018. Atualmente, integra o Grupo Traços, onde realiza trabalhos dentro da multi linguagem artística das artes negras.

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