ESPETÁCULO O PESO NAS COSTAS DE MINHA MÃE

Por Coletiva Preta de Teatro


O peso nas costas de minha mãe surge por meio das inquietações que permeiam a solidão da mulher negra. Nasce do desejo de revisitar memórias olfativas, gustativas e afetivas construídas com nossas matriarcas. Durante o processo, percebemos que trazer tais memórias para cena é imprescindível, pois também dá abertura de ressignificá-las e de construir outras narrativas que não sejam marcadas pela violência do silenciamento e da negação. Ao longo do processo, vimos a importância de se falar das memórias que trazemos das nossas mães, avós, bisavós, tias, vizinhas, ialorixás, que são as mães de santo, e as parteiras. Valorizar os saberes tradicionais, como: o chá de boldo para curar ressaca ou dor de estômago, preparo do álcool com arnica para cicatrizar picadas de mosquitos, dentre outras. Percebemos a necessidade de reconhecer outras configurações de mundo para além da linguagem eurocentrada que estamos inseridas.


Como também, entender o quanto isso é importante para restituir humanidades que foram negadas por um sistema patriarcal e racista que perpetua e afeta diretamente as relações que construímos com nossas matriarcas e outras tantas mulheres que nos acompanham pela vida.


Foto: Sarah Vá Moreira


O trabalho teve sua estreia no Fórum Taculas - Performance de Mulheres Negras, que aconteceu nos dias 25 e 26 de Maio de 2019 em Belo Horizonte e em Justinópolis, com a coordenação de Danielle Anatólio, Anair Patrícia, Rauta Sabrina na organização; participou do trabalho de conclusão da Disciplina Tópicos em Teatro C - Teatro Negro, ofertada pelo Professor Doutor Marcos Alexandre, no dia 24 de junho de 2019, na Escola de Belas Artes da UFMG; na Primeira edição da “Encontros Urgentes”, no dia 01 de dezembro de 2019, realizado pela Zap 18; na Mostra de Cenas Pretas, no dia 01 de fevereiro de 2020, realizado pelo TNA - Teatro Negro e Atitude; na programação do Festival de Teatro Negro On Line UFMG, nos dias de 09 a 29 de novembro de 2020, evento promovido pelo projeto T.U Convida.



PROCESSO CRIATIVO


O presente projeto parte de inquietudes trazidas pelas atrizes, vivenciadas e desdobradas ao longo do processo criativo deste trabalho. Logo no início da construção das cenas, vimos a importância de nos posicionarmos diante a questionamentos necessários que perpassam nossas trajetórias, sejam elas individuais e/ou sobre um grupo social. Isto é, entendemos que, por fazermos parte de um grupo social negro, compartilhamos experiências em comum e percebemos como essas experiências são atravessadas nesta matriz de dominação, que impede que esses grupos existam em determinados espaços. O peso nas costas de minha mãe traz à tona a importância do pertencimento e do lugar de fala. Entendendo a relevância da construção de outras dramaturgias e de narrativas para com as mulheres negras que temos como referências em nossas vidas, percebe-se a urgência em propagar outras possibilidades de existência para com os tempos remotos que nossas matriarcas vivenciaram.


A busca da garantia de um sentido para o nosso presente perpassa a recuperação do passado dessas mulheres, construindo no presente diálogos de cura, que vão ao encontro das memórias, relatos e testemunhos de tempos passados, os quais dizem respeito ao processo de identificação social e transformação de narrativas em história.


O espetáculo reforça que é preciso estabelecer redes de solidariedade entre nós mulheres, entendendo que é por meio da Arte que nós acreditamos que podemos fazer construções de diálogos dessas humanidades que, por muito tempo, foram negadas.

O projeto também tem como objetivo a formação de público, pensando que uma das atrizes nasceu e viveu parte de sua vida ao lado de suas matriarcas na cidade do Sul de Minas, onde será realizada uma das apresentações. Desse modo, acreditamos que o consequente retorno para a comunidade local e regional pode vir a ser algo motivador para, assim, proporcionar outras discussões e formas de se pensar o teatro, como também de se propagar os fundamentos do teatro negro.




Foto: Sarah Vá Moreira

Tendo em vista que a equipe é composta majoritariamente por mulheres, estamos proporcionando à população do sul de Minas e região metropolitana de Belo Horizonte reflexões sobre os múltiplos lugares em que essas mulheres periféricas que nos inspiram podem atuar. Sendo assim, o projeto evidencia, em sua dramaturgia, a contribuição das nossas matriarcas no contexto familiar brasileiro, ou seja, acreditamos que este trabalho tem um caráter de conscientização, de estimulação do senso crítico, de valorização dos saberes tradicionais e do conhecimento oral passado pelas mais velhas.




REFERÊNCIAS


  • SILVA, Cidinha da. Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas. In: Legítima Defesa, Publicação da Cia. Os Crespos da Cooperativa Paulista de Teatro. Ano 1, Número 1, 2º semestre de 2014.


  • EVARISTO, Conceição. Becos da Memória. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2013.

A Coletiva Preta de Teatro surge da urgência em usar o palco enquanto espaço de denúncia, desabafo, partilhas e local de se falar: falar de si e de outras mulheres negras, partilhar dores, encontrar alento e referências. Em 2016, nasce a primeira criação cênica “33”, a partir de relatos de mulheres que sofreram algum tipo de assédio/abuso sexual, como também provocadas pelo trágico estupro coletivo da adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro. Em 2018, nasce a cena curta “Mãe” que logo se torna espetáculo. Em 2019, surge “O peso nas costas de minha mãe”, questionando o “lugar” da mulher negra na sociedade, contando e escrevivendo histórias de nossas yabás: mães, avós, tias, irmãs. Isto é, mulheres de nossas famílias que perpassam por várias gerações, brincando com o passado e presente, recriando poéticas que nos foram negadas na transmissão dos saberes e projetando novas possibilidades de diálogos e de cura através da ótica das mulheres negras. Teve participação em novembro de 2019 do “Ayó - Encontro Negro de Tradição Oral”, no Rio de Janeiro, este que zela pela herança de nossos mais velhos e mais velhas através do encontro de contadoras e contadores de histórias afro - diaspóricas. A Coletiva Preta de Teatro se debruça nas pesquisas do Teatro Negro, na contribuição das Contação de Histórias, pensando em estética e política, sobre as relações étnico-raciais, na descolonização dos currículos acadêmicos e nas questões que permeiam o universo da mulher negra contemporânea e ancestral.


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