ESTRATÉGIAS ABSURDAS DE AGRUPAMENTO

POR +1 GRUPO DE TEATRO


Visualizações, comentários, coraçõezinhos... +1 Grupo de Teatro estreia um espetáculo. Não. Calma. Não é bem assim. É que o espetáculo, que estava em processo, não conteve a ansiedade e foi parar nas redes sociais. Não o espetáculo em si, parte dele, alguma coisa ali diz do espetáculo como um todo. Agrupamento virtual, meio caótico.

Quem escreve este texto é a quarta pessoa da relação, o sujeito “Nós” desse grupo. Vamos tentar organizar:


“Interditado” intitula o nosso novo projeto. Nesse trabalho, relacionamos convenções do teatro do absurdo, que é uma das inspirações para o processo criativo, com nosso contexto atual. Interditado, impedido, pausado e outros tantos significados que nos deslocam para o presente instante. Uma grande maioria está em suas casas, isolados, com convivências restritas e sem a possibilidade de praticar o agrupamento que é tão necessário no cosmo teatral. O valor do encontro tem se tornado cada dia mais latente, ao mesmo tempo em que o desejo de aproximação com o outro se torna tão importante como a respiração que nos faz vivos.


O processo, ainda enquanto encontro presencial - do corpo no espaço -, foi freado pela pandemia e pela necessidade de nos isolarmos, o que rendeu novas formas de nos comunicar, como vídeos, imagens, textos etc. Assim, foram surgindo materiais como leitura dramática, junção de arquivos do processo criativo e uma espécie de curta metragem do processo em isolamento. Não intuímos a criação desse material a priori, mas surgiu como consequência da distância física e compartilhamos em rede social, o que achamos de grande valia. Atuando como artistas da cena, aprendemos que a pausa é muito importante. Parar se fez necessário. A pausa diz tanto quanto a ação e diz também do retorno ao movimento. O retorno foi mais rápido do que pensávamos. Essas ferramentas virtuais já eram utilizadas como estratégias de agrupamento para nós. O que fizemos foi expandi-las e fazer delas "nossa prática".


Martin Esslin (2018) considera o Teatro do Absurdo parte incessante da luta dos artistas, do tempo em que vivem, contra o automatismo e ao “agradável”, como uma forma de restabelecer uma consciência da situação humana com a realidade de sua condição.

Em tempos caóticos, imersos na ruína da condição de artistas engasgados em espaços de confinamento, encontramos no absurdo nossa forma de nos enxergar nesse mundo em declínio. Percebemos uma oportunidade de nos restabelecermos, de olhar as ruínas dentro e fora de nós. Seguimos de uma maneira que não prevíamos. Nos encorajamos a expressar nossos dizeres em uma forma de arte que não seja a determinada como “certa” ou “bela”. O grotesco, o sentido do vazio, as imagens simbólicas, para além da narrativa linear, nos colocaram em movimento.


Em confronto com a realidade, em embate com nossa condição de artistas, vimos o absurdo como ponto central, como filosofia e inspiração ao trabalho, mas sem saber aonde iríamos chegar, principalmente nos dias atuais, em que estamos cheios de incertezas. Tal como o mito de Sísifo, em que o herói enfrenta os deuses e encara o absurdo condenado a trabalhar incessantemente, sem saber a finalidade ou se vai chegar no topo da montanha carregando uma pedra.


Os deuses condenaram Sísifo a rolar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança. – (CAMUS, 2018, p.137)


Ilustrações feita por GunHelmet (Samir) - Foto referente ao vídeo III do processo em quarentena, postado no Instagram do grupo (@maisumgrupodeteatro)


Nessa oportunidade de nos restabelecermos, de olhar as ruínas dentro e fora de nós, seguimos, de maneira que não prevíamos. O teatro é realmente cheio de mistérios.

Em continuidade ao processo de “Interditado”, percebemos a dramaturgia do texto para além da linguagem literária; mas como uma possibilidade de experimentar e jogar com as ações e desfrutar do que o silêncio pode oferecer no processo - o que dialoga com ideias do Teatro do Absurdo. Assim, os trabalhos que têm sido compartilhados em nossas redes (vídeos, ilustrações, textos) também fazem parte do processo do espetáculo como um todo.


Nosso público é composto por estudantes, por colegas do teatro, por colegas de outras áreas, professores, artistas, família, vizinhos. Mas há que se considerar, também, os editais e os projetos emergenciais, as páginas e blogs. São essas pessoas que estamos em contato e que fazem parte desse todo. São elas que recebem nosso material e que, de alguma forma, se relacionam com ele. Elas são parte do que chamamos de processo de criação. É parte da estratégia de nos tornarmos um grupo. É, também, agrupamento.


Por meio dos nossos encontros virtuais, demos sequência no processo que chamávamos de físico. Porém, entendemos que o processo se fisicalizou de acordo com a natureza do momento.


Essa visão nos permitiu ver a situação de isolamento de uma forma otimista e nos fez refletir sobre as possibilidades e as novas formas de se fazer teatro.

Não cabe a nós dizer o que é absurdo, ou não, mas compreendemos que o absurdo é uma potência natural que existe na vida. Portanto, existe em nós mesmos. O absurdo acessível e absurdo sensível. Estamos condenados a viver com o absurdo. Paramos por um momento para pensar nisso e daí nasceram estratégias, ideias, metodologias e sentidos, que ganharam novos contornos e formatos dentro do nosso processo enquanto grupo. O contexto político/social no Brasil é absurdo.


As estratégias de agrupamentos estão diretamente ligadas à vontade de comunicação. Uma troca entre o cosmo individual e o cosmo coletivo, estabelecendo diálogo entre os dois universos. Um vídeo de uma leitura dramática, ou de uma peça teatral com 100, 500, 1000 acessos virtuais, equivalem a uma plateia cheia? Pode um vídeo, com essa quantidade de visualizações, ser considerado uma aglomeração em potencial? Ocupar é preciso e não é nenhuma novidade.


Não temos a intenção de destacar aspectos positivos ou negativos que se faz dos aparatos tecnológicos para a fruição estética ou a prática teatral. O teatro vem se reinventando criativamente desde a sua criação e sua principal força é a junção.

Não sabemos onde vamos chegar com nosso processo, “interditado” pelos declínios do tempo que vivemos, mas prosseguimos trabalhando, carregando nossas pedras montanha acima.

REFERÊNCIAS

  • BERNSTEIN, Ana. Performance, tecnologia e presença: TheBuildersAssociation. Revista Sala Preta, São Paulo, v. 17, n. 1, p. 400-419, 2017.

  • CAMUS, Albert. O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo. Rio de Janeiro, Record, 2010.

  • ESSELIN, Martin. O Teatro do Absurdo. Tradução: Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2018.


+ 1 GRUPO DE TEATRO, da cidade de Belo Horizonte/MG, se dedica a pesquisa dramatúrgica autoral e aos âmbitos artísticos do Teatro do Absurdo. Atualmente é composto pelos artistas Gustavo Sousa, ator e professor de teatro, Priscila Martins, atriz, professora de teatro e educadora de Museus e Victor Hugo Barros ator. Atualmente o grupo se dedica ao processo de montagem do espetáculo intitulado “INTERDITADO”, que possui dramaturgia autoral.


Durante o processo de isolamento social, o grupo investiga possibilidades cênicas a partir do uso da câmera e demais recursos audiovisuais como produção de mídias virtuais e suas possibilidades. Ele nasce do encontro dos artistas, pela formação em teatro na UFMG, onde se conheceram e decidiram juntar suas identificações artísticas.


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