FERNANDO LIMOEIRO E O TEATRO DO POSSÍVEL FIM

Por Bárbara Flor


- Vai sonhando, vai Mateus! Vá comer feijão de boneco com farinha de zabumba!

Rosinha – Genesis do mamulengo -Fernando Limoeiro



Reverencio a fala da personagem Rosinha para revelar, sem arrodeios, a substância mobilizadora do trabalho do Mestre Fernando Limoeiro - o Sonho. O trecho escolhido reflete a poética do teatro proposto pelo estimado mestre na medida em que expõe a preocupação pragmática pela sobrevivência da carne contrapondo a teimosia em viver da brincadeira, sobrevivência da alma. A verve da sua dramaturgia se realiza através das cores da cultura popular, não só por essa ser a expressão máxima da criatividade do povo brasileiro, mas, sobretudo, porque há tempos a realidade surpreende com a sua dureza.


Contarei dois episódios marcantes da minha passagem pela Trupe a Torto e a Direito, grupo de teatro dirigido por Fernando Limoeiro há mais de 20 anos, a fim de compartilhar um pouco sobre o teatro de mobilização social desenvolvido por ele. Fruto da parceria entre o Teatro Universitário da UFMG e o programa Polos de Cidadania da Faculdade de Direito da UFMG, a Trupe colabora com as ações educativas do Programa Polos, transmitindo, por meio do teatro, a visão debatida e defendida pelo projeto. Sob a condução do Mestre Fernando Limoeiro, o grupo faz história e leva arte a lugares onde poucos grupos conseguem chegar, como o caso que será narrado a seguir.


Em turnê pela região do Serro e Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais, nos apresentamos em um povoado chamado 'Ilha', que integrava o conjunto de comunidades afetadas pela mineração. Como de costume, fizemos o cortejo e mobilizamos quase toda a gente do lugar para a escola onde apresentaríamos a peça Cala boca Rodney. O esquete em questão discutia o reflexo da violência doméstica contra a mulher em outros ambientes, que, no exemplo da peça, reverberava na escola dos filhos do casal disfuncional.


Esse trabalho era muito interessante por misturar cordel, mamulengo e teatro do oprimido. No teatro do oprimido, como sabemos, é proposta a participação do público em cena a fim de testar soluções que combatam a opressão evidente na trama. Assim, ao final da história, realizávamos o fórum (momento em que a peça é aberta para a participação do público) e convidávamos a plateia a pensar nas possibilidades de ruptura com o ciclo de violência vivido pela personagem. Evidente que muitas sugestões foram dadas durante a vida do esquete, sendo mais comum a denúncia.


Foto: Acervo Trupe a Torto e a Direito

Naquele dia, uma mulher sugeriu denunciar e quando convidada a representar a cena sentiu enorme dificuldade em encarar a plateia, mas como eu era a atriz responsável em fazer a mediação do espetáculo e, portanto, já sabia que era natural as pessoas ficarem nervosas, tentei incentivá-la a enfrentar o medo do público, porém fracassei. Seguimos respeitando sua dificuldade e, no momento em que a mulher deveria colocar seu plano em prática, surpreendendo a expectativa de todos, ela mudou a sugestão inicial de denunciar o agressor e sugeriu perdoá-lo. Ficamos confusos quanto a essa mudança repentina, até o momento em que ela, não conseguindo romper com a violência em cena, voltou para o seu lugar na plateia e sentou ao lado do marido. Nesse dia, retornamos mudos, atravessados pelo silêncio da mulher.


Como atriz, tenho grande frustração de não ter percebido que a dificuldade da mulher em encarar a plateia não era somente a timidez natural de quem pela primeira vez entra em cena, mas, sobretudo, o medo de confrontar seu algoz. E é nesse terreno lixiviado pelas contradições humanas que a obra de Fernando Limoeiro resiste.


Sua dramaturgia busca, com delicadeza de versos e cores, suturar as mazelas históricas e, por meio de uma estética que valoriza as nossas raízes, prezar por uma arte soberana e nacional.

Desse modo, o mestre Fernando Limoeiro é um sonhador radical que não abre mão da escolha que fez de ser um homem de teatro, que não se contentando com o mundo como ele é se interessa pelo mundo como pode vir a ser.


Gostaria de compartilhar outro caso, mais breve, e que, no entanto, poderia ser um tratado sobre o singelo. Todos os anos, no dia 19 de agosto, a Trupe participa do Dia Nacional de Luta da População em situação de rua. No ano de 2016, fomos apresentar a peça A Queixa - Teatro de boneco de mamulengo, que fala sobre a violência contra a mulher e a lei Maria da Penha (a propósito, a respeito dessa peça, sugiro a leitura da tese de mestrado do ator Gabriel Couto Pereira, ex integrante da Trupe que fez uma dissertação corajosa intitulada Dramaturgia do Agora: mamulengo e mobilização social no teatro de Fernando Limoeiro).


Como afirmado, a peça era toda de teatro de bonecos, onde os mamulengos apresentavam uma radionovela, recurso muito utilizado por Fernando Limoeiro, contando a história da moça que era violentada pelo marido e que de tanto ser manipulada a relevar a violência acabou sendo assassinada por ele. O objetivo desse trabalho era alertar aos espectadores sobre os gatilhos de um relacionamento abusivo e evidenciar o dispositivo legal de proteção às mulheres: a lei Maria da Penha. Impossível não se comover com o final trágico da personagem e foi por isso que, naquele dia, ao terminarmos a apresentação, um jovem em situação de rua se aproximou da boneca que eu ainda segurava e em um gesto de cumplicidade e respeito beijou sua mãozinha de madeira. Percebi que ele estava muito emocionado e pude ver naqueles olhos marejados o transbordar de uma profunda empatia. Aquele rapaz ofereceu à bonequinha de material reciclado o que ele tinha de mais valioso, a esperança. É sobre isso o teatro de Fernando Limoeiro, sobre o encontro com outros oprimidos que também optam pela delicadeza e ousam expressar afeto em um mundo que incentiva a competição entre os seus e como consequência se dirige à autodestruição.



Foto: Acervo Trupe a Torto e a Direito

Para nomear este texto, busquei inspiração em uma marca da dramaturgia de Fernando Limoeiro de deixar o texto em aberto utilizando duas palavras Possível fim porque sim, uma história que se conta hoje é provável que não esteja do mesmo jeito amanhã. Quantas vezes foi preciso atualizar em nossas peças os dados estatísticos de violência contra mulher que ano a ano aumentava? Quantas vezes ao finalizar uma apresentação sobre violência sexual infantil em uma escola uma criança denunciava o seu abusador?


O teatro de Fernando Limoeiro é o teatro da teimosia que quer que o justo prevaleça e escolheu lutar por isso, ora fazendo rir com um nariz vermelho, ora embalando a esperança em um acalanto acolhedor.

O Fato é que nos chamarão de loucos, que chamem! Contanto que essa loucura contagie todos e incendeie as almas, teremos cumprido nossa missão, pois foi isso que o professor me ensinou. E, assim, o Mestre, incansável sonhador, um Quixote “Pernamineiro”, segue sua vida com amor, tesão e devoção ao teatro, pois sabe, melhor do que ninguém, que o teatro salva, e como salva.


Possível fim.


Bárbara Flor é atriz formada pelo Teatro Universitário da UFMG em 2013.

De 2013 a 2018 integrou a Trupe a Torto e a Direito do Programa Polos de cidadania da Faculdade de Direito da UFMG contribuindo para as pesquisas em teatro de mamulengo e mobilização social. Atualmente desenvolve o projeto de aula de teatro No Quintal - em Santa Luzia.



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