NEGRITUDE NOS DISCURSOS ARTÍSTICOS

Por Salomão Jésus



É fundamental iniciar este texto pontuando que minha primeira experiência na trajetória artística foi a participação no espetáculo “Insubmissas - Vai ter mulher preta protagonista Sim!”, criação coletiva dos estudantes do Valores de Minas 2018, Módulo I. Foi um ano de grandes descobertas para mim enquanto um sujeito que, até então, não se entendia negro. Que até mesmo não tinha muitos planos do que “ser quando crescer”. E, hoje, estou aqui tendo a oportunidade de contribuir com o blog “Mistura”. Inclusive, obrigado!

“Se no circo busco uma performance com autoralidade,

é uma desconstrução de quê?”

Essa pergunta foi feita nas primeiras aulas que tive - no curso técnico em Artes Circenses do Centro Interescolar de Cultura, Arte, Linguagens e Tecnologias (CICALT - MG) – e, desde então, procuro construir as respostas. Minha pesquisa de formação é sobre Identidade negra a partir da minha história. Minhas investigações partem da manipulação de objetos e equilíbrios corporais.

Quando quis pesquisar sobre Identidade negra, senti literalmente na pele o pertencimento. O interesse e apreciação pela história e cultura do meu povo se fizeram ausentes em minha vida por anos. Como sempre ressalto em minhas escritas pessoais e acadêmicas, estive em uma grande alienação colonial desde que comecei a achar que entendia das coisas. Passei a infância e a adolescência tentando ser aceito em ambientes que só reprimiam meu pensar-fazer e também o meu Ser.


Hoje, entendo e busco cada vez mais formas de processar minha negritude, construindo visibilidade e representatividade nas artes do circo, conduzindo-me na asserção de que Ser é força ancestral.

Como nos apresenta o historiador Petrônio Domingues:

“Tem um caráter ideológico, político e cultural. No terreno político, negritude serve de subsídio para a ação do movimento negro organizado. No campo ideológico, negritude pode ser entendida com processo de aquisição de uma consciência racial. Já na esfera cultural negritude é a tendência de valorização de toda manifestação cultural de matriz africana.” (DOMINGUES, 2005, p.194.)

E não tem como falar de mim sem falar dos que vieram antes, visto que, através do processo de animalização, exotização, objetificação e até mesmo de apagamento histórico, se justificou a dominação da branquitude sobre o negro. Tudo isso, alicerçado pela escravização como mão de obra e suas consequências desumanas, que fazem parte da vida o tempo inteiro, desde os primeiros negros arrancados de África a seus descendentes, seja no ambiente educacional, no trabalho, nos espetáculos televisivos ou teatrais. Como nos elucida o escritor Luiz Luna:


“Para se falar sobre a cultura afro-brasileira não se poderia deixar de mencionar o período escravo que se constitui numa mancha difícil de pagar. É impossível se falar sobre a cultura dos negros, sua passagem pelo Brasil e seus dias atuais se não for escrito sobre a escravidão e suas consequências.” (LUNA, 1968, p. 16)


Ao mesmo tempo, é preciso ir mais longe. Acredito na pesquisa a partir de um arquétipo das religiões de matriz africana, do arco e flecha. Quanto mais eu puxo, mais longe a flecha vai. Não somos descendentes de escravos, mas sim de rainhas e reis.

Peguei duas histórias reais relacionadas ao circo-teatro e a trajetória dos negros como atração, a começar pela de Sarah Baartman. Acredita-se que ela tenha nascido na Província Oriental do Cabo da África do Sul em 1789. Ela foi levada para a Europa, sob promessas falsas de um médico britânico. Recebeu o nome artístico de "A Vênus Hotentote" e foi transformada em uma atração de circo em Londres e em Paris, onde multidões observavam seu traseiro. Clientes mais abastados podiam pagar por demonstrações privadas em suas casas, em que era permitido que os convidados a tocassem. Passou anos sendo exibida em feiras europeias de "fenômenos bizarros humanos". Seu cérebro, esqueleto e órgãos sexuais continuaram sendo exibidos em um museu de Paris até 1974. Seus restos mortais só retornaram à África em 2002, após a França concordar com um pedido feito por Nelson Mandela. Hoje em dia, ela é considerada por muitos como símbolo da exploração e do racismo colonial, bem como da ridicularização das pessoas negras muitas vezes representadas como objetos.

Além disso, há a saga de Rafael Padilha, nascido em Havana, Cuba, em 1865. Foi um ex-escravizado que se tornou o primeiro artista circense negro da França. Ele vai dos simplórios picadeiros aos grandiosos teatros de Paris. Ainda que os cenários tenham mudado com o sucesso, Chocolate é sempre o bufão em posição inferiorizada, que apanha em cenas de humor para fazer rir.

As práticas racistas mudaram, mas a estrutura que mantém brancos em cima e negros em baixo permanece. São histórias com alguns anos de diferença entre elas, mas que reforçam o quanto a promessa de liberdade e de integração não ocorreu na vida de pessoas negras após o “fim” da escravização. Há, na verdade, construções daquilo que o branco falou que era o negro, com um racismo cada vez mais exasperado. Nas palavras da atriz, pesquisadora e professora Evani Tavares Lima:

“A realização artística de negrura estética torna explícito algo que não é novidade, mas que, às vezes, passa despercebido: a arte não é inocente! Sem uma postura crítica diante dos modelos absorvidos e veiculados, só se perpetua o que já está estabelecido. A arte negra orientada, nesse sentido, inscrevendo seu contradiscurso crítico e revisionista, traz disposição para desvelar a própria fala, criar e/ou reinventar discursos fundados na experiência negra.” (TAVARES, 2017). São estereótipos tão atribuídos que recentemente, ouvi dicas de como construir cenas, a partir da minha pesquisa. Segundo o indivíduo, eu deveria inserir um ator vestido de policial na cena que desenharia a silhueta do meu corpo na parede e etc. Logo após, veio com outra ideia: que eu deveria usar sangue falso e as bolas de malabares para sujar o espaço e também todo o meu corpo, entre outras que não acho necessário citar. Para concluir suas dicas, ainda me disse: "pode ser que fique clichê, mas se eu fosse negro exploraria bem mais a cenas. Usar sangue é muito bonito." Tudo isso em questão de minutos. Tão rápido que não consegui formular respostas além de: "vou pensar sobre isso."

De maneira alguma estou desvalorizando manifestações artísticas que utilizam essa narrativa e os recursos, assim como não as definiria “clichês”. Tenho ciência do quanto racismo nos persegue, nos aliena e nos mata. Por isso, trago este relato para uma perspectiva de análise, questionando o quanto naturalizam o sangue preto que é derramado nesse genocídio.


O que o branco espera das artes negras? E de cenas negras? A única narrativa possível é a violência? Por que considerar algo tão presente na vida de pessoa negras “clichê” e, mesmo assim, se encontrar na posição de indicar para mim? Seria o mesmo pensamento sobre vidas negras? O que o branco entende sobre Negritude e seus reflexos nas artes cênicas no Brasil?

Trouxe como referência essas histórias, o relato e as perguntas que não vou responder, no intuito de refletir o que foi “fazer arte” no passado. Além disso, tentei ilustrar o quanto a imagem do negro ainda está associada a estereótipos racistas. Então, busco desconstruir essas imagens que me acessam, pois tenho certeza da minha herança ancestral. Também tenho certeza da minha criatividade, inteligência e perseverança para lapidar o talento. Estou aqui na luta pela vida assim como meus antepassados. Cada vez puxando mais flechas. Negritude nos discursos artísticos é a possibilidade de transformar esse cotidiano de violência imposto pelo racismo estrutural em outras narrativas potentes.


Como nos expressa o rapper brasileiro, Diogo Álvaro Ferreira Moncorvo, mais conhecido como Baco Exu do Blues, em sua música BB King:


“1903 A primeira vez que um homem branco observou um homem negro Não como um animal agressivo ou força braçal desprovida de inteligência Desta vez, percebe-se o talento, a criatividade, a música O mundo branco nunca havia sentido algo como o blues Um negro, um violão e um canivete Nasce na luta pela vida, nasce forte, nasce pungente Pela real necessidade de existir O que é ser Bluesman? É ser o inverso do que os outros pensam É ser contracorrente Ser a própria força, a sua própria raiz É saber que nunca fomos uma reprodução automática Da imagem submissa que foi criada por eles Foda-se a imagem que vocês criaram Não sou legível, não sou entendível Sou meu próprio Deus, meu próprio santo, meu próprio poeta Me olhe como uma tela preta, de um único pintor Só eu posso fazer minha arte Só eu posso me descrever Vocês não têm esse direito Não sou obrigado a ser o que vocês esperam Somos muito mais Se você não se enquadra ao que esperam Você é um Bluesman”



Referências




Salomão Jésus Alves Costa, 21 anos, artista circense em formação no curso técnico em Artes Circenses do Centro Interescolar de Cultura, Arte, Linguagens e Tecnologias na cidade de Belo Horizonte. Desenvolve suas investigações artísticas a partir da manipulação de objetos e equilibrismos corporais em diálogo com as Artes Visuais. É integrante do Coletivo Mambus (BH/MG) onde desenvolve um trabalho de manipulação de objetos nos estilos clássico e experimental.

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