O TEATRO NEGRO COMO MODO DE SUBVERTER OS PROCESSOS DE SILENCIAMENTO E DE INVISIBILIZAÇÃO

POR ANAIR PATRÍCIA - ORIENTAÇÃO DE SORAYA MARTINS


Processo criativo do espetáculo E se todas se chamassem Carmem? Da Breve Cia.


Nossos corpos são canais de resistência político-cultural. Segundo Leda Maria Martins, “o corpo é o portal e índice da sabedoria” que traz em si grafados textos, memórias, costumes. Nossos corpos têm memórias gravadas, somos corpos que guardam marcas do movimento diaspórico. E é a partir de nossas manifestações culturais, religiosas e artísticas, como o teatro, danças, canto, literatura e várias outras manifestações, que mantemos vivas nossas memórias e resistimos ao silenciamento, ressignificando e reinventado nossas dores e angústias. Tentaram e tentam nos silenciar, mas produzimos, seja pelos instrumentos da literatura, pelos festejos, pela arte ou pelas manifestações culturais, lugares de discurso que subvertem o sistema que quer nos invisibilizar. Nós pulsamos e queremos e vamos FALAR.


No campo das Artes Cênicas, o teatro pode ser um dos lugares de inserção e de valorização de nossas memórias, um espaço de resistência, de denúncia e de negação do silenciamento. O Teatro Experimental do Negro – TEN – é uma das principais referências brasileiras de Dramaturgia Negra e de Teatro Negro. O grupo tinha, como cerne do trabalho, o enfrentamento ao racismo, a partir de ações afirmativas que colocavam o sujeito negro como protagonista de sua própria história.


Pela via do teatro, o TEN trouxe para a cena as questões relacionadas ao universo negro e colocou o sujeito negro figurando como protagonista e pensador de sua história. O grupo investigou uma nova estética e dramaturgia no teatro, subvertendo o que comumente era apresentado nos palcos.

O legado do TEN serve de referência e de inspiração para outros artistas, grupos e coletivos negros que utilizam o espaço do teatro para valorizar a cultura e a história afro-brasileira, para dar vazão às vozes ancestrais e contemporâneas, trazendo o ser negro, suas complexidades e histórias cotidianas, e também as advindas dos contextos diaspóricos e escravistas, para a cena. Esses coletivos, sobretudo, investigam, experimentam e reinventam estéticas artísticas.


Dentre os grupos que estão produzindo Teatro Negro na contemporaneidade, cito a Breve Cia de Teatro de Belo Horizonte, composta por Adriano Borges, Anair Patrícia, Amora Tito e Renata Paz. Em seu primeiro trabalho, “E se todas se chamassem Carmem”, o grupo constrói um discurso poético a partir do universo feminino negro, apresentando vivências, memórias e contradições de três mulheres chamadas Carmem.

Questões sociais e políticas atravessam as falas e os corpos dessas Carmens, marcadas pelo racismo, pela solidão, pelo vazio e pela busca constante. Uma busca encontrar o corpo do filho, a outra busca coragem para se livrar do “homem que a aprisiona” e a terceira busca modos de manter-se viva na rua. Três mulheres que resistem e querem FALAR de si e de outras Carmens, a partir de memórias grafadas em seus corpos e narrativas.


A “Carmem” integra parte da população que normalmente é invisibilizada socialmente e, por consequência, silenciada. Ela comumente é um número percentual, vista como um corpo sem voz, sem memória e sem identidade em estatísticas de violência. A “Carmem”, no entanto, tem identidade, tem discurso, tem trajetória e muitas histórias. Ela inclusive poderia ser uma das “Mães de Maio”, que enterrou, em 2006, na cidade de São Paulo, seu filho, filhos que somam mais de 564 jovens, na sua imensa maioria negros e periféricos, mortos pela polícia. Ela poderia integrar esse movimento de mulheres que se reuniram para reivindicar justiça, do “Luto à Luta”. Essas mulheres transformaram suas dores em movimento político e social, saindo do silenciamento que asfixia para o grito que incomoda e abala as estruturas hegemônicas.



Fotografias: Pablo Bernardo


Quem é Carmem?


Ela é mulher, negra, brasileira, periférica e narra sua história a partir de sua própria perspectiva enquanto indivíduo. Ela tem angústias, sonhos, dores, faltas, alegrias, vazios, sua cor e a insistência de manter-se viva.


Como nasceu a história de “Carmem”?


O processo de investigação da peça teve por objetivo a criação de um texto dramatúrgico que ecoasse vozes-vivências de mulheres distintas, a partir da investigação do universo feminino negro, levando em consideração questões como: gênero, cor, discriminação, violências físicas e psicológicas, representatividade, condição social e relações familiares e com outros grupos sociais, com objetivo de tornar linguagem e ação vozes que foram e são submetidas ao silenciamento. A metodologia de criação da composição cênica foi estruturada a partir da investigação de materiais de referências, da criação de textos, da improvisação, de experimentação e criação de cenas, além de trabalharmos com jogos teatrais e estímulos corporais e vocais propostos pelo diretor.


Todo o processo foi conduzido por meio de perguntas direcionadas às personagens e às atrizes: Como você chegou até aqui? Qual seu lado vil? Qual seu sonho? Onde você mora e qual sua condição social? O que é o amor para você? O que é o sexo para você? Você tem família, qual sua relação com ela? Se pudesse contar sobre sua história em poucas linhas, o que diria? Como você se sente dentro desse corpo? O que seu corpo diz? Para a atriz/ator, o que você acha da sua personagem? A partir das respostas, o diretor foi criando perguntas específicas para cada atriz-personagem. As respostas criaram textos dramatúrgicos e imagens que foram registrados em cadernos de bordo, fotografias e audiovisual.


Ao longo do processo, cada atriz foi adentrando em um universo de “Carmem”. Renata Paz investigou o universo da Mãe, mãe negra, periférica que tem que criar o filho sozinha e viver uma busca constante pelo corpo do filho morto. Essa “Carmem”, denuncia o extermínio da população jovem negra: “Carmem: Mãe enterra filho de 14 anos, mentira! É mentira pra vender jornal. Tem mais, Maria Eduarda, 13 anos, vista pela última vez na quadra da escola Jhonathan, 16 anos, visto pela última vez na padaria perto de casa. Como que pode uma coisa dessas, meu Deus?” Nesse trecho, Carmem questiona os casos de Maria Eduarda Alves da Conceição, uma jovem de 13 anos atingida por “balas perdidas” dentro de uma escola na zona norte do Rio de Janeiro em Abril de 2017, e o caso Jhonata Dalber Mattos Alves, 16 anos, morto pela polícia, também na zona norte do Rio de Janeiro, quando voltava para casa com um saquinho de pipocas, que foi “confundido” pela polícia, que acreditava ser um saco com drogas.


As pesquisas divulgadas pela UNICEF, em 2009, denunciam que os jovens negros têm risco quase três vezes maior de serem executados em comparação com os não negros.

A “Carmem”, representada pela atriz Renata Paz, também problematiza a solidão da mulher negra, que tem encontros “discretos”, “às escondidas”. Segue uma das passagens do texto “Carmem: - Achei que a gente ia sair pra tomar uma cerveja! Ele: - Pensei em uma coisa mais discreta, só nós dois.” Essa mesma mulher cria o filho sozinha e é a “chefe de família”, outra realidade de diversas mulheres negras periféricas. A personagem também traz em seu discurso a denúncia das violências obstétricas que mulheres negras sofrem dentro dos hospitais “- Carmem: Você não sabe o que é ter suas pernas abertas feito frango de padaria, enquanto te enfiam dedos, mãos, ferros e ferramentas... Perdendo litros e litros de sangue enquanto seu ventre é rasgado - seu corpo deformado, costurado...Mas ela é forte, aguenta”.


Fotografias: Fabricio Belmiro


A “Carmem” investigada por mim, Anair Patrícia, trata do universo da mulher criança, jovem, adulta negra que sofre violências sexuais e abandono, uma “Carmem” órfã de mãe, de pai e de Estado, que pari todos os filhos fruto de estupro e entrega-os a quem pode criá-los. Ela troca os filhos por um pão com salame e uma coca gelada ou os dá de brinde a quem comprar um cigarro na sua mão: “Carmem: - ô moço, compra um cigarro na minha mão pra ajudar a criar o filho que está aqui na minha barriga. Se você não comprar, você pode levar esse menino quando ele nascer? É que eu não vou ter dinheiro para criar”. Ela entrega os filhos para não vê-los morrendo de fome na rua, ato inspirado nas mulheres escravizadas que deixavam seus filhos nas “Rodas dos Expostos” ou “Roda dos enjeitados” das Santas Casas de Misericórdia. Esses espaços ofereciam assistência às crianças ali deixadas. Segundo Judite Maria Barboza Trindade (1998, p.46), as escravizadas encontravam na Roda a possibilidade de livrar seus filhos da escravidão.


Fotografias: Pablo Bernardo


Essa “Carmem” denuncia a violência sexual e a objetificação de mulheres negras. Segundo pesquisas do Instituto de Pesquisas Avançadas (IPEA) , em 2011, foram notificados aproximadamente 12.087 casos de estupro no Brasil. Desse total: 88,5% das vítimas eram do sexo feminino, mais da metade tinha menos de 13 anos de idade, 46% não possuía o ensino fundamental completo (entre as vítimas com escolaridade conhecida, esse índice sobe para 67%), 51% dos indivíduos eram de cor preta ou parda (IPEA, 2014). Essa “Carmem” conta fragmentos de sua história, dentre os relatos, os abusos sexuais que sofreu na infância, na adolescência e na vida adulta. Ela também narra as tentativas de fugir e denunciar. No entanto, como a personagem destaca: “Carmem: A gente vai na delegacia denunciar e eles acham que a gente tá mentindo, que a gente gosta, que a gente não dói, dói na carne, dói latejado”.


A atriz Amora Tito investigou o universo da mulher trans negra. Essa “Carmem” apresenta as angústias, solidão e medos de uma mulher trans que não aguenta mais a “casca-corpo” em que vive. Essa “Carmem” que sofre violências físicas e psicológicas, além do abandono da figura do Pai e do Amado. Ela FALA de relações de poder de uma sociedade machista, racista, transfóbica e violenta que influencia diretamente nas identidades de gênero e raciais. “Carmem: Não aguento mais todo mundo me olhando como se eu fosse uma aberração ou continuar sendo invisível, nula, insignificante, oculta, incorpórea, vácuo, vazia. Eu quero ser amada, quero beijar, andar de mãos dadas, poder dançar. Eu estou aqui, eu existo!”.


Fotografias: Pablo Bernardo


De acordo com o dossiê “A situação dos direitos humanos das mulheres negras no Brasil: Violências e violações”, realizado em 2016: 118 pessoas trans foram assassinadas no Brasil entre 1 de outubro de 2014 e 30 de setembro de 2015. Dados disponibilizados por organizações não governamentais informam que a maioria das mulheres transexuais assassinadas no mundo são (sic) negras.


No entanto, existe uma invisibilidade dos dados sobre violências que atingem a população LGBTQI+ negra no Brasil. O Estado brasileiro negligencia a coleta e a divulgação de informações sobre essa população, especialmente em relação a lésbicas, travestis e transexuais negras.

Essas “Carmens” nascem do desejo de FALAR sobre esse universo marginalizado, estigmatizado, invisibilizado e silenciado. Trazer essas histórias para o teatro é um ato artístico-político-social, uma tentativa de transformar os silêncios que essa parcela da população é submetida em linguagem e ação. Todas as “Carmens” falam desse universo de violência, mas também falam de suas estratégias de sobrevivência e de como cotidianamente vão tentando transformar suas dores em ação, em luta e em subversão ao sistema racista, machista, sexista e transfóbico em que estamos inseridos.

referências


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Anair Patrícia - Atriz, Professora de Teatro e Contadora de Histórias. Atriz formada pelo curso técnico de formação do ator do Teatro Universitário da UFMG (2010), licenciada em Teatro pela Escola de Belas Artes da UFMG (2017) e mestranda na linha de Ensino e Humanidades no PROMESTRE da Faculdade de Educação da UFMG (2020).



Integrante da Breve Cia Teatro atuou em diversos espetáculos, dentre eles “Abre Alas(2019)”, “Ama” - Cia Espaço Preto (2018), “E se todas se chamassem Carmen?” - Breve Cia de Teatro (2017); “O Grito do outro o grito meu” - Espaço Preto (2016); “Paradeiro” - Tirana Cia de Teatro; Direção Raquel Castro (2015) “Irmãos siameses ou eu e tú tú e eu” (2012) e “O Caboclo Zé Vigia” (2008)




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