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O TEATRO NEGRO COMO MODO DE SUBVERTER OS PROCESSOS DE SILENCIAMENTO E DE INVISIBILIZAƇƃO

  • 14 de jul. de 2020
  • 9 min de leitura

POR ANAIR PATRƍCIA - ORIENTAƇƃO DE SORAYA MARTINS


Processo criativo do espetƔculo E se todas se chamassem Carmem? Da Breve Cia.


Nossos corpos sĆ£o canais de resistĆŖncia polĆ­tico-cultural. Segundo Leda Maria Martins, ā€œo corpo Ć© o portal e Ć­ndice da sabedoriaā€ que traz em si grafados textos, memórias, costumes. Nossos corpos tĆŖm memórias gravadas, somos corpos que guardam marcas do movimento diaspórico. E Ć© a partir de nossas manifestaƧƵes culturais, religiosas e artĆ­sticas, como o teatro, danƧas, canto, literatura e vĆ”rias outras manifestaƧƵes, que mantemos vivas nossas memórias e resistimos ao silenciamento, ressignificando e reinventado nossas dores e angĆŗstias. Tentaram e tentam nos silenciar, mas produzimos, seja pelos instrumentos da literatura, pelos festejos, pela arte ou pelas manifestaƧƵes culturais, lugares de discurso que subvertem o sistema que quer nos invisibilizar. Nós pulsamos e queremos e vamos FALAR.


No campo das Artes CĆŖnicas, o teatro pode ser um dos lugares de inserção e de valorização de nossas memórias, um espaƧo de resistĆŖncia, de denĆŗncia e de negação do silenciamento. O Teatro Experimental do Negro – TEN – Ć© uma das principais referĆŖncias brasileiras de Dramaturgia Negra e de Teatro Negro. O grupo tinha, como cerne do trabalho, o enfrentamento ao racismo, a partir de aƧƵes afirmativas que colocavam o sujeito negro como protagonista de sua própria história.


Pela via do teatro, o TEN trouxe para a cena as questões relacionadas ao universo negro e colocou o sujeito negro figurando como protagonista e pensador de sua história. O grupo investigou uma nova estética e dramaturgia no teatro, subvertendo o que comumente era apresentado nos palcos.

O legado do TEN serve de referência e de inspiração para outros artistas, grupos e coletivos negros que utilizam o espaço do teatro para valorizar a cultura e a história afro-brasileira, para dar vazão às vozes ancestrais e contemporâneas, trazendo o ser negro, suas complexidades e histórias cotidianas, e também as advindas dos contextos diaspóricos e escravistas, para a cena. Esses coletivos, sobretudo, investigam, experimentam e reinventam estéticas artísticas.


Dentre os grupos que estĆ£o produzindo Teatro Negro na contemporaneidade, cito a Breve Cia de Teatro de Belo Horizonte, composta por Adriano Borges, Anair PatrĆ­cia, Amora Tito e Renata Paz. Em seu primeiro trabalho, ā€œE se todas se chamassem Carmemā€, o grupo constrói um discurso poĆ©tico a partir do universo feminino negro, apresentando vivĆŖncias, memórias e contradiƧƵes de trĆŖs mulheres chamadas Carmem.

QuestƵes sociais e polĆ­ticas atravessam as falas e os corpos dessas Carmens, marcadas pelo racismo, pela solidĆ£o, pelo vazio e pela busca constante. Uma busca encontrar o corpo do filho, a outra busca coragem para se livrar do ā€œhomem que a aprisionaā€ e a terceira busca modos de manter-se viva na rua. TrĆŖs mulheres que resistem e querem FALAR de si e de outras Carmens, a partir de memórias grafadas em seus corpos e narrativas.


A ā€œCarmemā€ integra parte da população que normalmente Ć© invisibilizada socialmente e, por consequĆŖncia, silenciada. Ela comumente Ć© um nĆŗmero percentual, vista como um corpo sem voz, sem memória e sem identidade em estatĆ­sticas de violĆŖncia. A ā€œCarmemā€, no entanto, tem identidade, tem discurso, tem trajetória e muitas histórias. Ela inclusive poderia ser uma das ā€œMĆ£es de Maioā€, que enterrou, em 2006, na cidade de SĆ£o Paulo, seu filho, filhos que somam mais de 564 jovens, na sua imensa maioria negros e perifĆ©ricos, mortos pela polĆ­cia. Ela poderia integrar esse movimento de mulheres que se reuniram para reivindicar justiƧa, do ā€œLuto Ć  Lutaā€. Essas mulheres transformaram suas dores em movimento polĆ­tico e social, saindo do silenciamento que asfixia para o grito que incomoda e abala as estruturas hegemĆ“nicas.



Fotografias: Pablo Bernardo


Quem Ć© Carmem?


Ela é mulher, negra, brasileira, periférica e narra sua história a partir de sua própria perspectiva enquanto indivíduo. Ela tem angústias, sonhos, dores, faltas, alegrias, vazios, sua cor e a insistência de manter-se viva.


Como nasceu a história de ā€œCarmemā€?


O processo de investigação da peça teve por objetivo a criação de um texto dramatúrgico que ecoasse vozes-vivências de mulheres distintas, a partir da investigação do universo feminino negro, levando em consideração questões como: gênero, cor, discriminação, violências físicas e psicológicas, representatividade, condição social e relações familiares e com outros grupos sociais, com objetivo de tornar linguagem e ação vozes que foram e são submetidas ao silenciamento. A metodologia de criação da composição cênica foi estruturada a partir da investigação de materiais de referências, da criação de textos, da improvisação, de experimentação e criação de cenas, além de trabalharmos com jogos teatrais e estímulos corporais e vocais propostos pelo diretor.


Todo o processo foi conduzido por meio de perguntas direcionadas às personagens e às atrizes: Como você chegou até aqui? Qual seu lado vil? Qual seu sonho? Onde você mora e qual sua condição social? O que é o amor para você? O que é o sexo para você? Você tem família, qual sua relação com ela? Se pudesse contar sobre sua história em poucas linhas, o que diria? Como você se sente dentro desse corpo? O que seu corpo diz? Para a atriz/ator, o que você acha da sua personagem? A partir das respostas, o diretor foi criando perguntas específicas para cada atriz-personagem. As respostas criaram textos dramatúrgicos e imagens que foram registrados em cadernos de bordo, fotografias e audiovisual.


Ao longo do processo, cada atriz foi adentrando em um universo de ā€œCarmemā€. Renata Paz investigou o universo da MĆ£e, mĆ£e negra, perifĆ©rica que tem que criar o filho sozinha e viver uma busca constante pelo corpo do filho morto. Essa ā€œCarmemā€, denuncia o extermĆ­nio da população jovem negra: ā€œCarmem: MĆ£e enterra filho de 14 anos, mentira! Ɖ mentira pra vender jornal. Tem mais, Maria Eduarda, 13 anos, vista pela Ćŗltima vez na quadra da escola Jhonathan, 16 anos, visto pela Ćŗltima vez na padaria perto de casa. Como que pode uma coisa dessas, meu Deus?ā€ Nesse trecho, Carmem questiona os casos de Maria Eduarda Alves da Conceição, uma jovem de 13 anos atingida por ā€œbalas perdidasā€ dentro de uma escola na zona norte do Rio de Janeiro em Abril de 2017, e o caso Jhonata Dalber Mattos Alves, 16 anos, morto pela polĆ­cia, tambĆ©m na zona norte do Rio de Janeiro, quando voltava para casa com um saquinho de pipocas, que foi ā€œconfundidoā€ pela polĆ­cia, que acreditava ser um saco com drogas.


As pesquisas divulgadas pela UNICEF, em 2009, denunciam que os jovens negros têm risco quase três vezes maior de serem executados em comparação com os não negros.

A ā€œCarmemā€, representada pela atriz Renata Paz, tambĆ©m problematiza a solidĆ£o da mulher negra, que tem encontros ā€œdiscretosā€, ā€œĆ s escondidasā€. Segue uma das passagens do texto ā€œCarmem: - Achei que a gente ia sair pra tomar uma cerveja! Ele: - Pensei em uma coisa mais discreta, só nós dois.ā€ Essa mesma mulher cria o filho sozinha e Ć© a ā€œchefe de famĆ­liaā€, outra realidade de diversas mulheres negras perifĆ©ricas. A personagem tambĆ©m traz em seu discurso a denĆŗncia das violĆŖncias obstĆ©tricas que mulheres negras sofrem dentro dos hospitais ā€œ- Carmem: VocĆŖ nĆ£o sabe o que Ć© ter suas pernas abertas feito frango de padaria, enquanto te enfiam dedos, mĆ£os, ferros e ferramentas... Perdendo litros e litros de sangue enquanto seu ventre Ć© rasgado - seu corpo deformado, costurado...Mas ela Ć© forte, aguentaā€.


Fotografias: Fabricio Belmiro


A ā€œCarmemā€ investigada por mim, Anair PatrĆ­cia, trata do universo da mulher crianƧa, jovem, adulta negra que sofre violĆŖncias sexuais e abandono, uma ā€œCarmemā€ órfĆ£ de mĆ£e, de pai e de Estado, que pari todos os filhos fruto de estupro e entrega-os a quem pode criĆ”-los. Ela troca os filhos por um pĆ£o com salame e uma coca gelada ou os dĆ” de brinde a quem comprar um cigarro na sua mĆ£o: ā€œCarmem: - Ć“ moƧo, compra um cigarro na minha mĆ£o pra ajudar a criar o filho que estĆ” aqui na minha barriga. Se vocĆŖ nĆ£o comprar, vocĆŖ pode levar esse menino quando ele nascer? Ɖ que eu nĆ£o vou ter dinheiro para criarā€. Ela entrega os filhos para nĆ£o vĆŖ-los morrendo de fome na rua, ato inspirado nas mulheres escravizadas que deixavam seus filhos nas ā€œRodas dos Expostosā€ ou ā€œRoda dos enjeitadosā€ das Santas Casas de Misericórdia. Esses espaƧos ofereciam assistĆŖncia Ć s crianƧas ali deixadas. Segundo Judite Maria Barboza Trindade (1998, p.46), as escravizadas encontravam na Roda a possibilidade de livrar seus filhos da escravidĆ£o.


Fotografias: Pablo Bernardo


Essa ā€œCarmemā€ denuncia a violĆŖncia sexual e a objetificação de mulheres negras. Segundo pesquisas do Instituto de Pesquisas AvanƧadas (IPEA) , em 2011, foram notificados aproximadamente 12.087 casos de estupro no Brasil. Desse total: 88,5% das vĆ­timas eram do sexo feminino, mais da metade tinha menos de 13 anos de idade, 46% nĆ£o possuĆ­a o ensino fundamental completo (entre as vĆ­timas com escolaridade conhecida, esse Ć­ndice sobe para 67%), 51% dos indivĆ­duos eram de cor preta ou parda (IPEA, 2014). Essa ā€œCarmemā€ conta fragmentos de sua história, dentre os relatos, os abusos sexuais que sofreu na infĆ¢ncia, na adolescĆŖncia e na vida adulta. Ela tambĆ©m narra as tentativas de fugir e denunciar. No entanto, como a personagem destaca: ā€œCarmem: A gente vai na delegacia denunciar e eles acham que a gente tĆ” mentindo, que a gente gosta, que a gente nĆ£o dói, dói na carne, dói latejadoā€.


A atriz Amora Tito investigou o universo da mulher trans negra. Essa ā€œCarmemā€ apresenta as angĆŗstias, solidĆ£o e medos de uma mulher trans que nĆ£o aguenta mais a ā€œcasca-corpoā€ em que vive. Essa ā€œCarmemā€ que sofre violĆŖncias fĆ­sicas e psicológicas, alĆ©m do abandono da figura do Pai e do Amado. Ela FALA de relaƧƵes de poder de uma sociedade machista, racista, transfóbica e violenta que influencia diretamente nas identidades de gĆŖnero e raciais. ā€œCarmem: NĆ£o aguento mais todo mundo me olhando como se eu fosse uma aberração ou continuar sendo invisĆ­vel, nula, insignificante, oculta, incorpórea, vĆ”cuo, vazia. Eu quero ser amada, quero beijar, andar de mĆ£os dadas, poder danƧar. Eu estou aqui, eu existo!ā€.


Fotografias: Pablo Bernardo


De acordo com o dossiĆŖ ā€œA situação dos direitos humanos das mulheres negras no Brasil: ViolĆŖncias e violaƧƵesā€, realizado em 2016: 118 pessoas trans foram assassinadas no Brasil entre 1 de outubro de 2014 e 30 de setembro de 2015. Dados disponibilizados por organizaƧƵes nĆ£o governamentais informam que a maioria das mulheres transexuais assassinadas no mundo sĆ£o (sic) negras.


No entanto, existe uma invisibilidade dos dados sobre violências que atingem a população LGBTQI+ negra no Brasil. O Estado brasileiro negligencia a coleta e a divulgação de informações sobre essa população, especialmente em relação a lésbicas, travestis e transexuais negras.

Essas ā€œCarmensā€ nascem do desejo de FALAR sobre esse universo marginalizado, estigmatizado, invisibilizado e silenciado. Trazer essas histórias para o teatro Ć© um ato artĆ­stico-polĆ­tico-social, uma tentativa de transformar os silĆŖncios que essa parcela da população Ć© submetida em linguagem e ação. Todas as ā€œCarmensā€ falam desse universo de violĆŖncia, mas tambĆ©m falam de suas estratĆ©gias de sobrevivĆŖncia e de como cotidianamente vĆ£o tentando transformar suas dores em ação, em luta e em subversĆ£o ao sistema racista, machista, sexista e transfóbico em que estamos inseridos.

referĆŖncias


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  • MƃES DE MAIO. Do luto Ć  luta: MĆ£es de Maio. SĆ£o Paulo: Nós por nós, 2011.

  • MARTINS, Leda Maria. A cena em sombras. SĆ£o Paulo: Perspectiva, 1995. 217

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  • MARTINS, Leda. O feminino corpo da negrura. Revista de Estudos de Literatura. Belo Horizonte, v. 4, p. 111 -121, Out, 1996. p.64-83

  • MOREIRA, Anair PatrĆ­cia Braga; ALEXANDRE, Marcos AntĆ“nio. A trajetória de uma educadora negra em formação: princĆ­pios e prĆ”ticas com o teatro e a lei 10639/03. 2016.

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Anair Patrícia - Atriz, Professora de Teatro e Contadora de Histórias. Atriz formada pelo curso técnico de formação do ator do Teatro UniversitÔrio da UFMG (2010), licenciada em Teatro pela Escola de Belas Artes da UFMG (2017) e mestranda na linha de Ensino e Humanidades no PROMESTRE da Faculdade de Educação da UFMG (2020).



Integrante da Breve Cia Teatro atuou em diversos espetĆ”culos, dentre eles ā€œAbre Alas(2019)ā€, ā€œAmaā€ - Cia EspaƧo Preto (2018), ā€œE se todas se chamassem Carmen?ā€ - Breve Cia de Teatro (2017); ā€œO Grito do outro o grito meuā€ - EspaƧo Preto (2016); ā€œParadeiroā€ - Tirana Cia de Teatro; Direção Raquel Castro (2015) ā€œIrmĆ£os siameses ou eu e tĆŗ tĆŗ e euā€ (2012) e ā€œO Caboclo ZĆ© Vigiaā€ (2008)




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