PREPIRAÇÃO CORPORAL

Por Tiago Agar


INDICAÇÃO: se for possível, leia este primeiro bloco abaixo imaginando que esteja

m-a-s-t-i-g-a-n-d-o cada palavra, como se estivesse com cada uma dentro de uma

goma de mascar enorme dentro da tua boca.


Este texto fala exatamente do agora. Instante único, vivido neste compasso que já se foi. Tá vendo?! Percebe que, quando você lê, enquanto decodifica ESTA palavra, você também, imediatamente, se esquece quando salta para > a > outra? A escrita, leitura, são processos des-ca-ra-da-men-te efêmeros, fugazes. Mesmo quando lemos ou escrevemos em pensamento ou voz alta; tudo bate, primeiro, em mim, logo a outro(a). Bom, tente se lembrar de uma vez que entoou uma frase para alguém ou mesmo a um espaço solitário e, bem no meio da oração, sentiu algo de estranho em uma palavra emitida, e, assim, no meio da soltura, foi tomado(a) por um processo estritamente mental.


“nossa, essa palavra me lembrou minha avó, que loucura”


Normalmente, quando assim, somos embalados(as) a um insight, memória; a voz fica mais baixa e, ali, num estalo de tempo, somos levados(as) por uma certa deriva, uma onda suspensa - lânguida, no entanto, feroz; rápida. Pergunto: neste momento descrito como exemplo, esta “deriva”, para você, expressa ausência, dispersão? Mais uma vez, este texto fala exatamente dele mesmo - palavra sendo palavra, junções que, no fim, dão algum nível de sentido a algo ou a alguém.

Não imaginei que este coletivo de letras seria o meu começo aqui. Às vezes, de alguma maneira, precisamos iniciar, concordam?

Olá, eu sou o Tiago. Intenso esse início, eu sei. Todas essas palavras ali manifestadas dizem muito sobre o que tenho vivido ultimamente. O que passa em mim são matérias de inconstância pura: logo tenho, logo não; vem ideia, vai embora; bebo água, sinto sede; respiro, cadê o ar?


Fazendo um recorte mais preciso, pontual, tratemos dos meus processos como artista. Intuitivamente, sinto que estamos passando por um tempo de tira-põe mundial. E o nosso corpo, que somos nós, reverbera, claro. Neste raciocínio, o espanto: nós trabalhamos com o nosso próprio corpo. Se não o temos, logo o trabalho também passa a não existir. Seja na dança, no teatro, na performance, no circo, enfim… não é possível deixar que outres façam por nós. Este ponto não é negociável, pois para as/os artistas, o ofício se desenha por uma certa sensibilidade também interna; neste específico grupo de trabalho, o “produto”, em alguma medida, deve primeiro existir em um corpo.


A questão é esta: como, portanto, preparar/compreender este espaço (corpo) que, especialmente, nos últimos meses, tem sido bombardeado por imprecisões?

Por favor, peço que se recordem do início deste arquivo. O texto define, mais uma vez, estranhamente, uma das sensações que me passam. Digo isso porque, quando iniciei essa escrita (depois de muitos dias sem começar), eu tinha um “plano” para seguir. No entanto, quando abri o meu computador e me vi na função, palavras me tomaram - precisavam se manifestar. O que quero dizer com tudo isso é: será que estamos em tempos de seguir autorregras? Qual o valor de uma preparação/organização para você neste momento? É possível, no ato criativo, mudar, completamente, inteiramente, o rumo? Eu espero que sim.



Autorretrato - Tiago Agar

Entende um pouco o que eu quero dizer? Não é possível, ao meu viver pandêmico, sobrepor os impulsos de um corpo ressentido. Nesse raciocínio, para os/as/es artistas: é preciso se abrir para as dores e derivas do próprio corpo - mais do que nunca. Isso quer dizer que flexibilizar ideias, compreender faltas e angústias são, antes de mais nada, amar verdadeiramente um corpo-manifesto-artístico que, incessantemente tenta “produzir”. A cobrança constante com os nossos corpos em se “colocar a trabalho” nesta configuração de mundo, se torna, a meu ver, um ato impreciso e violento.

Diante disso, questiono: existe hoje uma preparação corporal que nos contempla? Sinto que, de diversas formas, quando existíamos presencialmente - as/os artistas equilibravam o corpo, buscavam concentração, respiração, quentura, “presença”, tudo isso e muito mais para entrar em contato, de modo mais íntegro, com o trabalho artístico. Hoje, levando em consideração a configuração de existência, principalmente brasileira, como nos preparamos corporalmente para um trabalho de cena? Para mim, hoje, o que antecede alguns dos treinamentos “técnicos” são rituais de sobrevivência.


Terapia > choro > tomar sol > conversar > escrever > me alimentar bem > rezar > me auto massagear > aguar as plantas > rememorar algum dia de liberdade > assistir um filme > sonhar com o mar > amar uma amiga(o) > trazer o ar para dentro > deixar sair > ouvir muita música > planejar um próximo encontro > uma próxima viagem >

Ou seja, levando em consideração que preciso existir para me manifestar, tudo isso, hoje, faz parte da minha preparação corporal.


Citando a expressão “desarmar bombas”, de Déa Trancoso, percebo que minha preparação se estrutura neste sentido. Assim, para que o trabalho de Tiago exista hoje, no ano de 2020, é imprescindível que também exista oxigênio.

No início do texto, na última frase do experimento de palavras, disse algo sobre começar. E, paradoxalmente, vou finalizando este material falando sobre inícios, pontos de partida. Aqui, falo sobre a importância de se começar, sendo mesmo assim de forma avessa do que foi imaginado/planejado. E aí é que tá! Quando conseguimos iniciar, parte da imaginação excessiva, ansiedade, se finda. Experimentando e me pesquisando percebo que, em mim, isso acontece porque entro em contato com o tempo do momento. Aos poucos, já com o processo de criação iniciado, me torno a função e, portanto, invento. A questão é chegar até este ponto, não é?! E este é o processo que deve ser mais respeitado, cuidado, pois entendo que somente com compreensão, com calma e com intimidade com os nossos corpos, é que chegaremos ao início.


Foto: Tiago Agar

Por conseguinte, antes de mais nada, se recolham, se tenham. Em contexto de transmutação mundial, um dia é uma vida inteira. Entendamos, neste sentido, que a culpa não é combustível para uma criatividade vital.


Tiago Agar é ator, dançarino, brincante, produtor cultural da cidade de Belo

Horizonte/MG. Atua no Centro Cultural Bairro das Indústrias como produtor e

arte-educador e como artista-gestor integra o Coletivo Triangulum. Graduando em Teatro pela UFMG.

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