Texto Emergencial: Entre o Ócio e a Criação

Por Dê Jota


NOTÍCIA - Os jornais e noticiários fazem o coração palpitar.


Quando recebi o convite para compartilhar com você, fiquei imensamente feliz. No início, pensei imediatamente em escrever sobre o meu passado, da trajetória que construí na arte até aqui. Logo depois, pensei também em escrever sobre o futuro, para falar quais são as minhas projeções e perspectivas no período pós pandemia. Porém, nada disso me interessa nesse momento. Então, deposito meu foco no presente e na abstração dele. Do ócio, nasce este texto. Do texto, nasce apenas uma tentativa de fugir daquilo que me parece óbvio. Sendo assim, gostaria simplesmente de propor uma reflexão sobre alguns temas que têm me chamado certa atenção nos últimos tempos. Entre o conflito de não fazer nada ou fazer alguma coisa. Entre a culpa de não fazer e a necessidade de fazer. Saibam, antes de tudo, que este texto é emergencial para mim, mas também espero que possa dizer algo sobre ou para você.


Ser artista me faz querer fazer arte. Sempre. Mesmo em tempos caóticos? Ou principalmente em tempos caóticos?

E as perguntas não param por aí. Como nós podemos nos reeducar para obter um contexto mais propício à criação e à reflexão de nós mesmos? Neste período, somos instigados a redescobrir até mesmo algumas pequenezas do nosso cotidiano, antes não vistas com tanta atenção. Somos convidados a expandir nossas referências, costumes, relações, desejos e por aí vai... Não posso deixar de considerar que, agora, precisamos mais do que nunca nos agarrar às coisas e às ideias que nos fazem bem, pois as problemáticas socioeconômicas, o bombardeamento de informações e a complexidade de viver em um período histórico são, de certa forma, desgastantes. Mais dúvidas. Como fazer arte agora?


ÓCIO - É o mesmo que não fazer nada?


Me parece pertinente discutir o ócio e a criação, principalmente neste momento em que as coisas parecem estar mais paradas que antes. Temos ganhado mais tempo? Ou tem nos faltado tempo? Como nós o administramos?


Para o sociólogo italiano Domenico de Masi, o ócio é fundamental para a expansão da criatividade, pois ele está associado a um espaço de liberdade e de melhores condições de vida. Onde o sujeito é convidado a entrar em contato com sua criança interior para criar. Inventar. Seus livros abordam questões sobre a sociedade pós industrial e a sua relação com o tempo. O autor defende a ideia de que as pessoas não precisam mais trabalhar cinco dias inteiros e só se divertir nos finais de semana, pois o avanço tecnológico tem facilitado cada vez mais a nossa comunicação e nos poupado tempo. Tempo este que poderíamos destinar ao ócio. Essa com certeza não é uma realidade de muitos brasileiros que acordam cedo e vão trabalhar todos os dias para levar o sustento para a casa. Então, devemos levar em consideração a realidade de diversos grupos sociais que são privados de exercer o ócio por diversas problemáticas; tarefas de casa, tempo de deslocamento, demandas familiares, exclusão digital e por aí vai… Somos reféns de uma ideologia que prega que tempo é dinheiro. Na perspectiva de De Masi:

O ócio criativo trata sobre a capacidade do ser humano de se congregar com as atividades expressivas, em trabalhos de lazer e aprendizado, associando divertimento às ações realizadas e à capacidade criativa. É no divertimento e no bom-humor que se manifesta uma educação interativa e criativa da humanidade, integrando, assim, “a principal característica da atividade criativa é que ela praticamente não se distingue do jogo e do aprendizado” (DE MASI, 2000, p.10)

Sendo assim, o ócio é capaz de trazer à tona a dimensão da arte e da criação. O olhar criativo se trata de um olhar atento e consciente, trazendo, então, um momento de reflexão, de inspiração e de intuitividade. Questiono, agora, a existência de um espaço sensível pouco explorado devido à racionalidade do nosso cotidiano, que é consequência de uma produção em massa e de um consumo exagerado.


Algumas experiências criativas podem ser simplesmente esquecidas nesse sistema capitalista, onde se valoriza o ter e não o ser. O resultado desse sistema tem nos levado cada vez mais para uma realidade onde a subjetividade é negada ou pouco explorada.

As potencialidades criativas que estão ligadas ao lazer, ao autoconhecimento são deixadas de lado a partir do momento em que temos que cumprir as demandas do dia a dia. Através da abstração e da subjetividade, permito-me encontrar algumas palavras para dizer sobre pensamentos não dizíveis: busquemos então, um tempo livre para que nossa criatividade seja aflorada e se desmecanize de uma ótica de produção excessiva de um capitalismo que corre desenfreado. Cultivar a nossa atenção no presente é mais que necessário para que possamos criar nossas próprias ideias e entender melhor como funciona todo o nosso estado corporal, espiritual e mental.


TECNOLOGIA, EXPERIMENTOS E CRIAÇÃO


O momento não é o mais propício para os fazedores de arte que prezam o olho no olho, mas também não é o mais impossível. Já que não podemos estar perto uns dos outros, nos resta usar e abusar das múltiplas funções que a tecnologia nos proporciona. Uma incrível oportunidade que tive neste período de isolamento foi compreender um pouco mais sobre as noções de real e virtual. Pois a virtualidade não necessariamente faz com que a obra de arte ou forma de comunicação não seja real. É real. E é também virtual. No início, muitas dúvidas. Será a morte do teatro presencial? O teatro online é capaz de substituir o teatro presencial? Com o passar do tempo fui encontrando algumas respostas e consigo afirmar que não é a primeira vez que o teatro passa por uma fase conturbada em sua história.


Apesar dos desafios, ele nunca deixou de se reinventar e de resistir. Não tem como substituir nada. Cada um é cada um. Sendo assim, me vi na obrigação de ampliar meu olhar sobre as novas formas artísticas. No início, houve um certo estranhamento, claro. Antes, tentávamos aproximar a tecnologia do palco, porém agora o que é válido é justamente o contrário. É importante frisar que o teatro digital não é algo completamente novo. Desde de a década de 70, artistas já vinham pesquisando formas e caminhos de virtualizar a arte. Porém, agora somos convidados a exercer nossa arte de uma forma mediada pela web. Uma nova possibilidade um tanto quanto tentadora.

Busquemos aquilo que é emergencial para nós.


Referências

  • DE MASI, Domenico. O Ócio Criativo. Entrevista a Maria Serena Palieri. 3. ed. Trad. Léa Manzi. Rio de Janeiro: Sexante, 2000.

  • HABOWSKI, Adilson. CONTE, Elaine. O ócio criativo e a educação para o século XXI.2018



Dê Jota é ator formado pelo Teatro Universitário da UFMG (2017). Atualmente está cursando a graduação em Artes Cênicas também pela Universidade Federal de Minas Gerais. É ator convidado do Grupo Maria Cutia no espetáculo 'Auto da Compadecida' dirigido por Gabriel Villela. Desde 2017 é bolsista do projeto de extensão Teatro no Ar.


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