A CENA E O ALVO DA ARTILHARIA

POR GRUPO ARTILHARIA CÊNICA


Era agosto de 2018 quando iniciamos os ensaios de “O Resgate do Soldado Rayan”. Ali, o espetáculo não tinha esse nome e nem era um espetáculo ainda. O projeto era o Trabalho de Conclusão de Curso de Gefter Rayan, um ex-militar que decidiu contar em cena a sua passagem pelo Exército Brasileiro. A primeira vez que essa história foi contada artisticamente aconteceu em 2015, na montagem obrigatória do quarto período da graduação em Teatro da EBA/UFMG, e depois numa disciplina optativa em 2017, quando o desejo de tornar pública essa reminiscência militar encontrou o Teatro Documentário. A partir dessa segunda experimentação a respeito de sua vivência no Exército, Gefter se debruçou na pesquisa acerca do Teatro Documentário e o mote inicial para a criação de um espetáculo já estava pronto.

Após as primeiras imersões nos conceitos de Teatro Documentário, os atores Felipe Oliveira, Guilherme Diniz, Marcos More e Osmar Fraga foram convidados a fazerem parte da empreitada e darem vida ao espetáculo que, além de contar a história de Gefter Rayan, se dedicaria também a tratar da situação geral de homens gays no Exército Brasileiro. Logo no início do processo, Alisson Oliveira passou a integrar o projeto, substituindo Guilherme, e Igor Fonseca entrou no lugar de Osmar. Sob a tutela de Antonio Hildebrando, que assessorou a dramaturgia, ainda não havia ninguém na direção, até Brenda Alaís se juntar à trupe.

Trechos de ensaio de O Resgate do Soldado Rayan em Setembro de 2018


Assim, se deu o começo de algo que nenhum de nós sabíamos aonde iríamos parar. Um arsenal de ideias, primeiras propostas, mil e uma coisas que ficaram pelo caminho e, aos poucos, nosso quartel ia ganhando forma. Tudo isso com a preparação vocal de Michele Bernardino, as sugestões de Daniel Ducato para a cenografia e as visitas constantes de Raniele Barbosa, que seria a responsável pela composição de canções originais para o espetáculo. Entretanto, poucas semanas antes da estreia, Raniele já era parte do elenco, executando ao vivo parte da trilha sonora, porém numa participação ainda um pouco tímida.

Foi mais ou menos assim que, no dia 7 de dezembro de 2018, no Auditório Álvaro Apocalypse da Escola de Belas Artes da UFMG, estreou “O Resgate do Soldado Rayan”. Nesse ponto, nascia também um grupo de teatro, mas ninguém se deu conta disso.

No ano seguinte, com o desejo de darmos continuidade ao trabalho realizado em dezembro passado, o coletivo se despediu de Alisson e de Felipe. Agora, com Bruno Maracia (que havia assessorado, pontualmente, o trabalho corporal durante o processo de criação) no elenco e com Raniele Barbosa, que ganhou novos quotes no espetáculo. Ambos os atores ajudaram a criar novas cenas e, no dia 27 de março de 2019, no mesmo Auditório Álvaro Apocalypse, uma versão 2.0 de “O Resgate do Soldado Rayan” se apresentava, agora como Grupo Artilharia Cênica, composto por Brenda Alaís, Bruno Maracia, Gefter Rayan, Igor Fonseca, Marcos More e Raniele Barbosa.


Primeira apresentação como Grupo Artilharia Cênica (Frame da gravação)


Logo em maio do mesmo ano, foi quando fizemos nossa primeira aparição fora do ambiente acadêmico da UFMG. O debut no circuito profissional aconteceu no Teatro João Ceschiatti, do Palácio das Artes, para, em agosto, marcarmos presença também no Teatro Francisco Nunes. A partir daí, nós, os membro-fundadores, decidimos que era hora de começar a gerir e articular mais ativamente nossos interesses, no intento de levar nosso trabalho para as mais diversas e distantes audiências e abrir caminhos para futuros projetos. Essa missão se deu através de uma força-tarefa, onde subgrupos encontravam-se isoladamente para atender às demandas de produção, como escrita de projetos, inscrição em editais, estruturação e alinhamentos dos discursos e desejos internos, a fim de que cada passo fosse dado com muita segurança e consciência.


O Resgate do Soldado Rayan no Teatro Francisco Nunes, foto: Marconi Henrique


No final de Outubro, em parceria com o Berro Coletivo de Teatro e o APUBH (Sindicato dos Professores de Universidades Federais de Belo Horizonte, Montes Claros e Ouro Branco) produzimos e integramos a mostra “Pautas LGBTQ+ em Cena” com “O Resgate do Soldado Rayan”, viabilizando apresentações gratuitas de espetáculos teatrais seguidas de rodas de conversa, para alunos do Ensino Médio e para o público espontâneo. Dessa forma, o grupo ocupou o palco do Galpão I da Funarte MG.


Mais adiante, em 8 de dezembro de 2019, na Sala Otávio Cardoso do prédio do Teatro Universitário da UFMG, o Grupo Artilharia Cênica estreou seu segundo trabalho de criação, “O Tribunal”. De volta à safra de Trabalho de Conclusão de Curso, Brenda Alaís, em seu estudo teórico-prático, traduziu, em doses homeopáticas, do alemão para o português, a peça didática “A exceção e a Regra”, de Bertolt Brecht. A cada novo trecho traduzido do texto original, iniciávamos uma investigação na sala de ensaio, através de leituras dramáticas e experimentações entre os atores, a fim de encontrarmos a forma mais harmoniosa de contar aquela história em bom português.


Na cena curta “O Tribunal”, um empresário viaja pelo deserto e fuzila seu funcionário terceirizado, no entanto o que é usual pode estar fora do lugar. No julgamento do assassino, a verdade é trazida à tona, porém as questões que permeiam as desigualdades de classe são determinantes para o veredito. Ao utilizarmos recursos do Teatro Épico, como o distanciamento e o Gestus, as percepções e criações foram consolidando o caráter da cena em construção como uma adaptação da obra de Brecht, que propõe uma leitura sobre as relações de trabalho e poder.

Cenas de "O Tribunal", fotos: Bianca Furtado


Já nas primeiras semanas de 2020, estávamos nos preparativos para nossa primeira vez fora do estado de Minas Gerais. No dia 23 de janeiro, o espetáculo “O Resgate do Soldado Rayan” se apresentou no Itaú Cultural na cidade de São Paulo (SP), quando integrou a mostra “a_ponte: Cena do teatro Universitário”. Essa conquista foi um dos frutos colhidos pelo árduo trabalho de produção e autogestão que o Grupo Artilharia Cênica foi traçando ao longo de sua breve caminhada.


O Resgate do Soldado Rayan no Itaú Cultural em São Paulo, foto: Isabella Assis


Até aqui, estiveram presentes conosco, em nossa trajetória, pessoas como Ivanil Fernandes na manutenção e adaptação do cenário de “O Resgate do Soldado Rayan”, Carlos Lima nos ajustes de figurinos, Kelly Lorraine, Ana Paula Santos, Gabriel Corrêa, Eliezer Sampaio e Ismael Soares nas inúmeras montagens, criações, operações e modificações da iluminação, Isabella Assis quem produziu o TCC de Gefter Rayan e, até hoje, atua na operação de som e Niel Flávio que produziu as primeiras temporadas do espetáculo fora da UFMG. Importante ressaltar, também, que em “O Tribunal”, Lucas Prado e Gustavo Sousa estiveram presentes como atores convidados, enriquecendo o processo e o resultado da criação e o Teatro Universitário, onde estreamos a cena e que sempre nos ampara em dias de apresentação.


O Grupo Artilharia Cênica é um alvo fácil entre o Teatro Épico e o Teatro Documentário. Uma interseção entre o Movimento e o Som. Uma miscelânea de sucata, absurdos, identidade e resistência. Processos colaborativos e a cena como uma arma potente de discutir e questionar o mundo que nos acolhe e nos cativa.



O GRUPO ARTILHARIA CÊNICA originou-se no final do ano de 2018 na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Devido à formação e à pesquisa diversificada de seus integrantes, o grupo utiliza de diversas linguagens cênicas - Dança, Teatro Físico, Música e Teatro Épico - criando um sistema de signos, resultante do entrelaçamento de manifestações verbais, gestuais, plástico-visuais e sonoras-musicais que viabilizam, por meio da manifestação teatral, discussões de cunho social e político.


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