ASPECTOS SOBRE A PRODUÇÃO CULTURAL: ECONOMIA CRIATIVA, FORMAÇÃO E FUNÇÕES

Por Paula Libéria


Para iniciar uma breve prosa sobre Produção Cultural: Formação e Funções, é pertinente nos localizarmos:

Estamos em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, sudeste do Brasil, estado que mantém investimentos no setor cultural, um dos eixos da Economia Criativa.

Mediante uma pesquisa realizada pelo observatório do P7 Criativo em 2018¹, “são mais de 63 mil empresas de economia criativa em Minas Gerais de pequeno e médio porte”, a pesquisa ainda aponta que somos “o segundo estado do Brasil que mais gera emprego na Indústria Criativa”.

Se olharmos pela perspectiva dos números, o investimento e o retorno da Economia Criativa em Minas Gerais, aparentemente, são satisfatórios para a Indústria Criativa. Mas, esta indústria não abrange somente a Arte e Cultura, como também, as Mídias, a Tecnologia, as Criações Funcionais e a Inovação. Por outro lado, a quantidade de empresas e o retorno financeiro em ranking nacional da economia criativa, não comprova a sustentabilidade econômica dos trabalhadores de ponta no setor cultural, sendo eles: artistas e profissionais dos bastidores da cena (produtores, técnicos, agentes culturais, gestores, etc).

Foto: Igor Cerqueira

Eu sou Paula Libéria, produtora, atriz, comunicadora, autônoma e trabalhadora brasileira - às vezes, altero a ordem das profissões, dependendo da demanda – ressalvo que a pretensão desse artigo de opinião é abrir um caminho de diálogo em torno da profissão artística e do cenário atual da Produção Cultural em Minas Gerais, considerando sua formação e suas funções.

Para aquelas pessoas que desejam conhecer mais dessa área, no que tange a educação e profissionalização de Produtores Culturais no estado, atualmente, temos alguns caminhos possíveis. As formações por vezes acontecem em meio a oficinas, workshops, cursos técnicos, cursos de extensão. Hoje não se encontra no estado uma graduação voltada especificamente para a Produção Cultural, encontra-se cursos de nível tecnólogo ou em formato EAD. Há, especializações, pós-graduações, mestrado, doutorado, mas a prática da formação na profissão de Produtor Cultural, se aprende nas coxias dos eventos, espetáculos, shows, cinemas, exposições, e demais bastidores da cena, dos fazeres artísticos. Lugares estes, que são em boa parte do tempo acolhedores, por necessitarem cada vez mais de profissionais especializados na área. Afinal, a pessoa artista não entra em cena, sem antes ter passado por etapas da Produção Cultural.

Por falar em formação acadêmica, deixo meu breve relato sobre. Para me profissionalizar nesta área, passei por todas as etapas alternativas do ‘corre’ ou ‘na tora’ ou no ‘suor’ descritas acima, até que encontrei na comunicação o curso de graduação que mais se aproxima deste campo de trabalho, Relações Públicas.

Neste curso, a cultura é abordada como:

  • Entretenimento por meio dos Eventos;

  • Estudos Culturais no que tange a Teoria da Comunicação;

  • Cultura Organizacional e Comunicação Interna;

  • Planejamento de Negócios na comunicação;

  • Comunicação pública.

Percebo que, quando há um leque de professores com o olhar sensível para o mercado de trabalho do RP, é visível que a área de Produção Artístico-Cultural, pode vir a se tornar um ofício, aos profissionais das Relações Públicas.

Para além da formação, o mercado de trabalho dos produtores culturais, muitas vezes se alimenta das redes de conexão entre profissionais da área, para assim fazerem girar a sustentabilidade do setor e logo a economia criativa. Este formato de alianças e parcerias, se dá devido à formação de novos profissionais que em grande parte do tempo é no meio do ‘dia-a-dia’.


Foto: Igor Cerqueira

As funções que a Produção Cultural realiza, consta nas fichas técnicas, nos uniformes de ‘posso ajudar’, na bilheteria do evento, resolvendo os b.os com a segurança, guardando os materiais pós espetáculo, fechando planilha de gastos pós evento, planejando os fornecedores e parceiros... Assim segue uma lista interminável de funções pré-estabelecidas a este profissional, que de costume é o primeiro a chegar ao local da apresentação artística e o último a sair.

De forma breve, assim como nossa prosa, descrevo abaixo algumas funções que percebi ao longo da minha experiência na área da Produção Cultural:

Produção Cultural de Grupos

Profissionais que trabalham para executar projetos de um grupo de teatro, dança, circo, música entre outras artes. Costumam participar do planejamento, execução e pós-produção de todo o processo das criações artísticas dos grupos.

Produção Cultural de Espaços

Profissionais que trabalham como agentes culturais no mercado, com foco em manter os espaços culturais abertos e gerando empregabilidade e renda na economia criativa, sendo também a porta de entrada para a recepção de novas ações artísticas no espaço produzido.

Produção Cultural de Artistas Independentes

Profissionais que costumam encontrar no mercado uma parceria de trabalho continuado para a produção de artistas independentes, mais comum na área da música e artes plásticas. Estes profissionais costumam ser planejadores de carreira, e focam no fomento, continuidade e distribuição da arte do artista produzido.

Produção Cultural de Projetos Culturais

Profissionais que participam de formações de equipes distintas ou produzem de forma autônoma projetos culturais, sendo essas produções pontuais que configuram sua continuidade enquanto há execução do projeto. Estes profissionais costumam planejar e executar estrategicamente o projeto cultural produzido e acompanhar como apoio a pós-produção e prestação de contas do objeto.

Produção Cultural de Eventos

Profissionais que produzem eventos artístico-culturais de continuidade ou pontuais. Os eventos culturais produzidos por este profissional, podem abarcar a cultura como ponto de partida e foco do evento, e também a arte enquanto entretenimento. Geralmente os produtores culturais de eventos são analistas, curadores, gestores e produtores em casas de shows e espaços culturais públicos e privados.

Autoprodução Cultural

Profissionais que produzem a sua própria arte. Normalmente esta função é cumprida por artistas que encontram uma forma pessoal de produzir os seus fazeres artísticos culturais. São pessoas versáteis profissionalmente e conseguem se desdobrar com as demandas de planejamento, execução, distribuição e pós-produção de cada material artístico que possui.


Foto: Marina Barros

Estas são algumas das funções que a Produção Cultural abrange enquanto mercado de trabalho, mas dentro de cada delas, existem demandas específicas do setor, onde a formação de equipes é essencial para um trabalho artístico final de qualidade. As especificações de uma Mostra ou Festival artístico por exemplo, exige produção técnica, produção administrativa, produção executiva, coordenação de produção e a depender do tamanho do objeto artístico produzido, a equipe e funções tendem a aumentar.


Vale destacar, que o acesso ao trabalho efetivo da Produção Cultural acaba se constituído por meio de um mercado autônomo, empreendedor, até mesmo por “quem indica” (Q.I.). Sendo que na maioria das vezes, as equipes das produções artísticas, a famosa ficha técnica, são formadas por freelancer’s (profissionais que prestam serviço sob demanda).

Nesse caso muito se vê a necessidade do profissional Produtor Cultural conhecer minimamente as especificidades do seu objeto, mas não, necessariamente praticar todas as áreas de produção. Em pequenos e médios negócios de Arte e Cultura, é comum vermos um produtor cultural – iluminador, produtor cultural – gestor, produtor cultural – contábil, produtor cultural – artista, produtor cultural – social media, mas, as funções podendo ser bem distribuídas, provavelmente gera um melhor resultado, a depender da equipe de trabalho.

Para finalizar, chamo a atenção ao início da nossa prosa, somos um estado reconhecido nacionalmente por investir na economia criativa, mas, temos um campo de formação na área da Produção Cultural limitado e ao mesmo tempo prático, por se tratar de uma área com aprendizados múltiplos. As funções são inúmeras quando o assunto é a produção de um objeto artístico, logo, o investimento em cultura também precisa alçar longe. Para que assim, a cultura seja um pilar visível e de êxito na Indústria Criativa em Minas Gerais, e alcance nossos 853 municípios de forma equilibrada.


PS: Não poderia finalizar meu primeiro artigo de opinião sobre Produção Cultural, sem antes agradecer as pessoas que em algum momento me ensinaram, e retroalimentam as redes de conexão na Produção Cultural de Minas Gerais: Aline Cântia, Adélia Carvalho, Ana Jardim, Antônio Terra, Bárbara Amaral, Chico Pelúcio, Elias Santos, Fabrício Martins, Fernando Chagas, Florisvaldo Júnior, Débora Silva, Guilherme Colina, Ítalo Araújo, Jeff Góes, José Júnior, Júnia Carvalhar, Hewrison Ken, Léo Quintão, Ludy Lins, Lucas Pereira (em memória), Luiz Lana, Marina Barros, Maurício, Nádia Pereira, Neise Neves, Roberta, Roger Deff, Silvia Michelle, Sinara Teles, Suzana Markus, Tatiane Reis, Ulisses Passos e amigos da vida, profissão e arte.


 

Esse texto é uma ação resultante do projeto no edital 14/2020 da Lei Aldir Blanc em Minas Gerais- EDITAL DE SELEÇÃO DE BOLSISTAS PARA AS ÁREAS ARTÍSTICAS,TÉCNICAS E DE PRODUÇÃO CULTURAL


 

Paula Libéria, atriz pelo Palácio das Artes – Fundação Clóvis Salgado, produtora, gestora cultural, comunicadora e podcaster. Atualmente, cursa Comunicação Social - Relações

Públicas pela UNA. Trabalha na área da comunicação e artes de forma autônoma há 6 anos. Paula atua no Galpão Cine Horto e Vertente Corpo-Es’passo. Coordenou oficinas no grupo como CRIA e ArquitetAção. Dirigiu trabalhos com o grupo “Me deixe Sair” e “Alice no País das MaraVilas”. Hoje é apresentadora no podcast Histórias com Café.


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