COMO DESCENTRALIZAR O OLHAR?

POR PRISCILA NATANY


Foi com essa pergunta que eu comecei a esboçar a estrutura de pensamento que guia a experiência que eu vou compartilhar aqui. Ela me surgiu, a priori, pelo convite de falar a respeito de um trabalho que é desenvolvido fora de uma capital.


Inicialmente, comecei a pensar nos prós e contras que estão embutidos nisso: o privilégio de contar com espaços para criar, qualidade de vida, pouco tempo no trânsito; em contraponto: a pouca visibilidade e o preconceito da própria classe.


Eis que coloco uma música para me inspirar e ouço, num disco de Maria Bethânia, a seguinte frase “Não se pode errar no óbvio”. Pensei: É verdade, eu não preciso falar o óbvio. Está evidente, sobretudo neste período de confinamento, a quantidade enorme de artistas que esse país tem, em todos os cantos e em diversas cidades. É óbvio que é um erro continuar registrando a história do teatro brasileiro com os olhos voltados para Rio de Janeiro, São Paulo e demais capitais. É óbvio que listas como “As 10 melhores peças de 2020” são restritas e limitadas.


A quantidade de trabalhos que chegam até nós, agora, pelas redes, só nos faz perceber que o Brasil é muito vasto, tem muito chão e muita gente. Inclusive, é um momento de oportunidade para conhecer produções que não temos acesso tão facilmente. Tenho descoberto algumas páginas de coletivos do Norte e tentado me inteirar sobre esses movimentos.


Mas como eu decidi abordar a questão de outra forma, vou falar dos meus processos criativos, deslocando a questão do âmbito do território para o âmbito da relação. Então, como descentralizar o olhar para além da relação palco e plateia, pensando numa estética desdobrada. O que seria isso? Uma percepção de que o espetáculo não é apenas aquilo que vemos no palco. Ele começa antes, desde quando o público toma conhecimento da obra.

A estética desdobrada


Essa noção tem guiado minhas práticas dentro das companhias das quais faço parte e está ligada aos desdobramentos da estética da cena em outras mídias e suportes. Para exemplificar, eu vou falar um pouco do espetáculo “morada”, da AFO!TA Teatro, estreado em 2017. Como nós nos apresentamos em diversos espaços, a experiência de comunicar com o público foi explorada de muitas formas e nos trouxe alguns aprendizados.


Fotos: [1] Eduardo Gomes; [2] e [3] Ramon Brant; [4] Marlon de Paula


Quando nos juntamos para iniciar a montagem, já tínhamos em mente a vontade de fazer uma obra intimista, cujo tema fosse as relações familiares, permeada pelo conceito de convívio[1]. No que diz respeito à cena, fomos encontrando (na dramaturgia) caminhos para que o público mergulhasse nesse universo com a gente, de forma que, ao final, ele se sentisse confortável para sair da sua cadeira e ir tomar um café conosco.


Entretanto, a intenção era transmitir essa atmosfera para além do palco, ou seja, pensando outras formas de comunicar com o público, a partir da linguagem que vínhamos desenvolvendo, mas por vias que não somente a que se instauraria no momento em que estivéssemos respirando a encenação juntos.


Nesse sentido, o que fizemos foi capturar alguns aspectos da peça para transpô-los em outros materiais. Então, por exemplo, o desgaste da família (enquanto instituição) foi simbolizado no nosso primeiro cartaz, que tinha como fundo uma textura de parede velha e descascada, trazendo essa ideia da deterioração com o tempo. Em outras temporadas, a arte do cartaz foi se modificando de acordo com o lugar e com os públicos que gostaríamos de alcançar - sempre articulando uma visualidade integrada à proposta cênica.


Houve lugares em que fizemos uma arte para a internet e outra para divulgação na rua, tentando aproximar ao máximo o estilo da “conversa” com o receptor-alvo. Aconteceu também de fazermos um design para cartaz e outro para panfleto, pois possivelmente quem veria o cartaz, exposto num espaço cultural, seria um grupo de já habituados, ao passo que os panfletos seriam entregues para pessoas que provavelmente não conheceriam o grupo.


Nas redes sociais, exploramos ainda mais a interlocução customizada. Como as fanpages são ferramentas de múltiplas possibilidades, uma das ações que fizemos foi uma campanha no dia dos (as) namorados (as), brincando com o título do espetáculo. Foi uma brincadeira simples, que agradou, sobretudo o público mais jovem e gerou um certo tipo de vínculo. Era assim: “Namorar é fazer morada em alguém”.


Esse pensamento se estendeu a todas as outras coisas: O layout do nosso site[2] foi arquitetado com base na construção de uma casa, com uma grande janela de entrada e divisões por blocos, remetendo a cômodos. As imagens de divulgação tiveram uma edição com recorte pautado em retratos de famílias, compondo, assim, um álbum de fotografias. A metáfora do ovo com sua associação à maternidade, representada em uma das cenas da peça, esteve presente nos teasers de divulgação, enfim… Todas as criações que partiam do espetáculo eram estudadas a fim de estabelecer uma forte conexão com a cena.


Outro ponto fundamental foi a preparação da sala de espera, onde o público aguardava a apresentação. Lá nós criamos uma verdadeira sala de visitas, com vitrola e discos que ficavam a escolha do público. Dessa forma, íamos instaurando o clima do que estava por vir. Pormenores também entraram no jogo. Explico: durante a peça, os atores-personagens falavam sobre quadros e pinturas que gostariam de ter em suas casas. Pegando esse gancho, produzimos pôsteres, com mensagens aconchegantes, que ficavam na antessala e podiam ser adquiridos pelos espectadores.


Foi interessante notar a correspondência desses espaços, pois na medida em que a gente modificava o ambiente, o ambiente modificava a dinâmica da peça. Quando o espectador chegava e aguardava numa sala que havia sido pensada e cuidadosamente preparada com as peculiaridades do espetáculo, ele ia para cena mais familiarizado com o universo e, consequentemente, mais sensível ao jogo com os atores. Quando não era possível montar essa antessala, a relação era outra.


Creio que a inseparabilidade da maneira como eu relaciono arte e comunicação deve-se a minha dupla formação (em Teatro e Jornalismo), e isso, certamente, substanciou esse modo de agir do grupo, que pode ser entendido como um modo de trabalhar o imaginário do espectador antes da apresentação em si. Tudo isso através de uma comunicação que não se limita a uma propaganda comercial, mas que pressupõe elos mais profundos.


Fotos: Ramon Brant


Esse movimento acontece muito claramente quando acompanhamos o trabalho de um grupo ou de um artista, pois cultivamos as memórias dos espetáculos passados e a expectativa de um próximo. Nesse sentido, o tempo que um espetáculo dura no espectador não é a duração do espetáculo, é todo o tempo da relação que perpassa entre.


Operar essas frações que fazem parte do todo da obra nos fez perceber que existem conexões possíveis em cada detalhe e a busca por uma estética que se desdobra é um caminho que pode fazer emergir novos sentidos na relação entre artistas e espectadores, tanto no modo de fazer como na própria experiência do acontecimento teatral.


[1] Conceito baseado no pensamento do crítico e teórico argentino Jorge Dubatti, que entende o teatro como acontecimento e não somente como linguagem.

[2] www.afoitateatro.wordpress.com

REFERÊNCIA

  • DUBATTI, Jorge. Teatro como acontecimento convival: uma entrevista com Jorge Dubatti in Urdimento, v.2, n.23, p 251-261, dezembro 2014.

Priscila Natany é atriz, fotógrafa e jornalista. Responsável pelos projetos gráficos da AFO!TA Teatro, do Teatro da Pedra e da Cia Mineira de Teatro. Professora do módulo “Teatro e novas mídias” do Curso de Preparação Para Atores do Teatro da Pedra. É mineira, vive em São João del- Rei e desenvolve trabalhos nos campos das artes cênicas e das artes visuais. Possui formação em Teatro e em Comunicação Social - Jornalismo pela UFSJ.



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