JOGOS TEATRAIS E A GUERRA

Atualizado: Mai 17

Por Anne Luz


“Avistei os primeiros fascistas, nem avistei, mas ouvi – todos eles usavam botas com chapas de ferro, faziam barulho quando pisavam. Batiam pela nossa calçada. Eu achava que até a terra sentia dor quando eles andavam. Kátia Korotáieva, treze anos.” (Aleksiévitch, 2013, p.11)



Os jogos teatrais tem uma capacidade de criação, buscar temas e assuntos diversos em seus variados contextos. Na matéria de Jogos Teatrais II, disciplina que compõe a grade curricular do curso Teatro Licenciatura da Universidade Federal de Alagoas-UFAL, trabalhou-se um capítulo do livro de Svetlana Aleksiévitch1, As Últimas Testemunhas, relato de crianças que sobreviveram à Segunda Guerra mundial, “vou contar do cheiro… Qual é o cheiro da guerra” (2013, p.9). Depois da leitura, jogados ao imerso campo de guerra, partimos para questionamentos que induziram a ação, entre tantos, qual seria esse campo dentro do hoje? Qual o mais perto da guerra que cada um chegou ou ainda estão? Abrangendo distintas e semelhantes formas de violências, os grupos pensavam na homofobia, na violência contra a mulher, no racismo, na pobreza...


Qual o embate na sua vida? O que voltava no ato do eu e o que sinto, quais são os meus monstros vivendo em sociedade, mas como indivíduo único? Qual o estado de guerra em que se encontra: ataque ou defesa? Qual a sua estratégia e seus limites neste campo?

Inúmeras questões surgiam e muitas vinham de uma única reação final: a morte. Daí, entramos no contexto social e filosófico. Como seres pensantes, a aula nos envia a um território comum, que nos intriga e não sabemos a resposta sobre o epílogo da vida.


A sala foi dividida e amparada pelo professor que, no terreno do jogo, entregava os textos com os quais, a cada semana, os alunos alimentavam-se. O tempo de duração deveria ser respeitado, improvisando pequenas cenas sobre a guerra com introdução, desenvolvimento e o fechamento. Cada grupo foi para um viés que se entrelaçava no fim; palavras como estupro, morte, fumaça, pobreza, violência, dor, fogo, choro, ecoavam dentro da sala para a experimentação. O que era um ambiente aberto de luminosidade pelas janelas dispostas ao final da sala tornou-se um campo minado de sentimentos e verdades. Ademais fosse apenas um jogo de improvisação, não se negava o feito que nos causava essa aproximação com os temas. Grupo por grupo foi levando em suas ações físicas a atmosfera criativa que Stanislavski desenvolveu em seus atores, num trabalho de observação e de experimentação, em que “o sistema pertence a nossa própria natureza orgânica, tanto espiritual como física. As leis da arte se baseiam nas leis da natureza.” (KNEBEL, 2016, P.119).


Na amplitude da nossa memória, com pouco tempo para discussão e com o sentimento aflorado, as cenas no piso de madeira aconteceram ecoando vozes, gritos, dor e expressividade, nos arrematando na atmosfera e provocando concentração.

A cada semana aprimorando a cena, mexendo ali, ajeitando aqui, alguma marcação lá, o professor deixava ciente que a proposta era manter o sentimento inicial, aquele que levou a ser profundo e sensitivo. A forma palpável que encontramos foram as ações físicas que denotavam sons, pausas psicológicas – para Stanislávski, “lembrem-se de que a pausa psicológica é uma arma de comunicação extremamente importante!” (KNEBEL, 2016, p.205).


Em momentos de pausas, em que não era preciso o som, a atmosfera cuidava do resto e, em alguns momentos, apenas o som, porque as palavras não eram necessárias, ganhando a habilidade do monólogo interior2 pelas ações físicas que, por haver marcações, eram uma forma de memorização da cena, o que deixa claro que o monólogo interior e ações físicas não servem apenas como memorização de cena, mas também para que o ator chegue a tornar vivo o personagem, a compreendê-lo e a senti-lo. A turma trabalhou a fundo em algumas cenas, monólogos de vítimas que morreram fruto da violência, ora como contadores de histórias ora como a própria personagem ali inserida no meio, passeando na palavra artística, no caminho do passo, da música e da representação. Em alguns, protestos; em outros, desabafos; mas, em todos, a concretização sobre a esfera que somos colocados e nada como uma frase bem vinda da cantora Elis Regina na música Como Nossos Pais para traduzir: há perigo na esquina.


E para retornar ao pensamento em sala de aula sobre a experimentação, em forma de procissão que levantamos a bandeira da revolução, começando assim por batidas no chão.” (SILVA, A.C. Anotações de aluna)


O orientador da aula, professor Washington da Anunciação, chegou com um informe intuitivo, juntando as ideias em uma só, num produto de mostra cultural. Como trabalhamos o desafio psicofísico na disciplina, isso nos oportunizou pensar em ação e executar a ação. Desenhando e costurando a obra que foi feita, decidimos começar com a proposta do grupo que trazia como mantra inicial um corpo escultural em forma de sereia - abaixados, com expressividade de susto e aflição, à espera da morte que ronda os corpos mortais. Corpos estes divididos na sala, onde havia uma sequência inicial, começando pelo primeiro da frente e enraizando para os demais, produzindo um som uníssono. Ao toque de um apito, uma pessoa levantava em espiral e, a cada novo silvar do apito, outra pessoa levantava (não como as batidas, mas de forma aleatória, com certa sequência criada por nós - um levantava de uma ponta, depois outro do meio, outro do canto esquerdo e assim sucessivamente, dando ao espectador o não presumível). Corpos em nível médio batendo os pés em tom de revolta, olhares em ataque, marchando para trás sem dar as costas, montando um bloco. As batidas do chão cessam e o corpo se desenrola para o nível alto. O toque de ukulele ambientaliza e, em passos lentos, nos colocamos em posição para o primeiro ato da guerra, relatos sobre violências que acarretaram em morte, em palavras de protesto. Um gritava “isso é uma guerra?!” e todos em coro respondiam “sim! Isso é uma guerra!”.


É a possibilidade de ampliar o repertório e deixar se levar pelas propostas dadas. No momento em que terreno é sólido, se ganha um ápice de confiança inestimável, porém a valia do processo em construção nos faz chegar a outro encadeamento, o do pensamento crítico. Para a filósofa Susanne K. Langer (1895-1985), a arte é uma prática de criar formas perceptíveis expressivas do sentimento humano, sendo para a filosofia um estado estético, no qual conseguimos analisar o produto a ser desdobrado, que são as reflexões pessoais e coletivas no que aborda a sociedade, chegando, neste ponto, ao nosso terreno, que ainda não está alicerçado. Porém, o caminho já está sendo traçado a partir de uma ideia de terreno produzida pelo poder crítico, analítico e por debates em sala de aula, tornando um campo de autoconhecimento e de autoaprendizagem, onde todos de forma coletiva têm algo a agregar, seja por conhecimentos subjetivos ou concretos. O caminho palpável para se chegar ao clima e terreno com o professor foi a improvisação, método de concepção de cenas baseadas na construção do indivíduo que joga e que está disposto a entrar com sua bagagem teatral e vivida em sociedade.


A guerra é um jogo, ora se há estratégia, ora criatividade, sempre ponderando sobre um mesmo olhar vencer o inimigo e conquistar. Olhando por um lado mais didático, essa menção refere-se ao inimigo sendo nós mesmos e à nossa preguiça e bloqueio de criar ou de se jogar no campo da improvisação e da ação, vivendo em uma sociedade onde o “tudo” é do já “pronto”, pouco movimento é necessário, em um efeito de só colocar os dedos no celular.

O movimento e suas intenções deixaram de ser amplamente uma dinâmica de acompanhamento do cotidiano e dos jogos teatrais. Não só essa disciplina, mas também outras matérias da grade de ensino das artes, nos tira desta zona de conforto e lança proposta de uma concentração psicofísica, mente e corpo, trabalhando em uma ação que desencadeia uma reação de coletivo entre alunos para o entendimento mais apurado do que é passado. Experimentar a improvisação e a criação em lugares que nos são sensíveis, um trabalho de refletir e agir para construir as ações didáticas talvez seja acessar o que é de mais puro para a construção do indivíduo consciente carregado de bagagem histórica, cultural e humana.




Fotos do espetáculo: Senhora Morte. Fruto desse trabalho em sala de aula. Retirada do instagram: @populartteatro. Fotos: primeira Kadu Oliver e segunda de Washington da Anunciação, atriz a frente sou eu, Anne Luz e atrás os atores Milena Brandão e Ermerson Juan


Referências Bibliográficas


  • KNEBEL, M. Análise-Ação. Práticas das ideias teatrais de Stanislávski - São Paulo: editora 34, 2016.

  • VASSINA, E. Stanislávski: vida, obra e sistema/ Elena Vássina, Aimar Labaki. - Rio de Janeiro: Funarte, 2015.

  • ANTONELLO, C. Artigo: Entrelaçamentos de experiências: encenações em sala de aula - Livro: Pluralidades cênicas - Alagoas: Edufal, 2017.

  • GIANINI, M. Artigo: O papel de “expectador” na formação do professor de teatro, reflexões e inquietações - Livro: Pluralidades cênicas - Alagoas: Edufal, 2017.

  • ALEKSIÉVITCH, S. As últimas testemunhas, crianças na segunda guerra mundial - São Paulo: Editora Schwarcz S.A., 2013.

  • FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa - São Paulo: Paz e Terra, 1996.

  • Rosseto, R. Jogos e improvisação teatral / Robson Rosseto.– Guarapuava: UNICENTRO, 2012.

  • Aranha, M. Martins, M. Filosofando: introdução à filosofia - São Paulo: Moderna, 1986.


Atriz formada pela Escola Técnica de Artes da Universidade Federal de Alagoas (UFAL); atualmente integra os grupos teatrais: Joana Gajuru, Coxiar Produções, Cia. Vixe Maria e Cia Metáfora com apresentações dentro e fora do estado. Professora de teatro da ONG Projeto Thallita, atualmente graduanda em Teatro/Licenciatura pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Poetisa, Escritora, Discente e pesquisadora dos grupos de pesquisa: NEPED/CNPQ/UFAL e LEPPE/CNPQ/UFAL. Membro Bolsista do Projeto de Extensão Corpo Cênico - Transcriações Poéticas Interculturais (UFAL). Recentemente contratada pela Secretaria de Cultura de Flexeiras-AL.

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