MEMÓRIA FOTOGRÁFICA

Por Edsel Duarte


O espetáculo teatral é o resultado de um trabalho feito por várias mãos: toda a contribuição da equipe técnica e do elenco são (ou deveriam ser) levados em consideração para a execução de um belo trabalho ao final do processo. Várias etapas são processadas ao longo deste período, passando por diversos profissionais específicos em sua área - direção de cena, musical, corporal, iluminação, elenco, cenografia, figurino, caracterização, fotografia, assessoria de imprensa, produção técnica, executiva, geral. Além disso, todo o trabalho é convertido para um único momento: a hora da cena. Mas, o que acontece com todo esse material quando se termina uma temporada? O que fazer com essa grande carga de objetos gerados do/no trabalho?


Ao longo do tempo, essas perguntas vêm sendo cada vez mais frequentes no meu cotidiano de criação. De certo, acredito na ressignificação do objeto para outros trabalhos. Cada objeto em si, criado e executado para uma determinada função na apresentação, carrega consigo um pouco da memória afetiva da cena e do espaço e, ao ser reaproveitado em outro momento por outro trabalho, ele acaba sendo transmutado, muitas vezes adquirindo outro sentido, outra forma, outro peso em cena. Essa situação é comumente utilizada por grupos de teatro que não usufruem de recursos abundantes para executarem suas produções. Mas… o que acontece quando, ao longo do tempo, essa peça, aqui exemplificada como ‘figurino’, se perde? Perde-se também esta memória?


O figurino teatral é a pele do ator. É através do filtro do figurino que o espectador constitui características dadas pelo intérprete na cena, como idade, classe social, relação com determinados núcleos da cena, profissão, tempo, etc.

O figurino serve como um interlocutor de tempo. Através das imagens e dos croquis, consegue-se reconstruir um registro que, outrora, se encontrava em caráter fotográfico, para uma realidade tangível.


O Teatro Universitário, hoje, conta com mais de 1200 peças de vestuário catalogadas e disponíveis para empréstimo. Esse compêndio de peças acaba servindo como um grande “guarda-roupas” coletivo de memórias das montagens da escola. Com o passar dos anos, algumas destas peças de figurino deixaram de ser incorporadas ao acervo, seja por perda, por furto, pela fluidez das transformações ou pelo simples fato de a confecção não resistir ao tempo, deixando de existir enquanto acervo tangível da escola, sendo encontradas apenas nas fotos e croquis do acervo documental.


A necessidade de registro do mecanismo de criação de um artista é de suma importância para dizer a respeito de uma época. Por meio dessa memória, seja ela textual ou visual, consegue-se acessar dados específicos e garantir que tal peça proposta em pesquisa, não se perca com as intempéries do dia a dia.



Croqui Haydée digitalizado - Foto: Acervo Documental Teatro Universitário

O artista em questão é, então, a ex- Diretora da instituição, Haydée Bittencourt, que foi atriz, professora e a primeira mulher a estar à frente do Teatro Universitário da UFMG, produzindo diversas peças ao longo dos 25 anos de direção, deixando um acervo de fotografias, croquis e peças do vestuário, que constituem grande parte da memória da escola. A relevância deste trabalho caracteriza-se em recuperar, através dessa memória do acervo, uma parte da história perdida dessa grande artista.


O edital 01/2020 da EBA (Escola de Belas Artes - UFMG) me proporcionou reconstituir, por meio de croquis e fotos, uma peça do vestuário em pequena escala. Escolhi o espetáculo “El rei Seleuco” (1972), direção e figurinos de Haydée Bittencourt.



Foto do figurino em meia escala tendo base o croqui da Haydée - Foto: Acervo pessoal
Foto do figurino em meia escala tendo base o croqui da Haydée - Foto: Acervo pessoal
Espetáculo " El Rei Seleuco" - Foto Mauro Sérvulo / Acervo Documental Teatro Universitário


Edsel Duarte é ator formato pelo Teatro universitário da UFMG ( 2015 ) e Figurinista formado pelo Curso de formação artística e tecnológica CEFART (2017). Atualmente, cursa Design de Moda na Escola de Belas Artes da UFMG e atua na Cia. Teatral Solares desde o ano de sua fundação (2006) .


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