MISTURA entrevista: Mônica Tavares¹ | Trajetória artística, corpo-voz, engajamento político-cultural

Reportagem de Alex Teixeira e Ludy Lins



Feche seus olhos por um instante e imagine um espaço, na cidade de Belo Horizonte/MG, voltado para profissionais das artes cênicas (teatro, dança, ópera e circo), no qual seja possível aperfeiçoar e aprimorar práticas artísticas por meio da propositura de atividades que envolvam todo esse universo. Um centro de práticas que integre segmentos artísticos com os quais você sempre sonhou em trabalhar. Tente imaginar a estrutura desse lugar, com várias salas equipadas para a realização de exercícios corporais/vocais e de atuação; com ambientes variados para realização de oficinas; um espaço com ampla biblioteca. Um território concebido, pensado e projetado para nós, profissionais das artes cênicas. Esse espaço, que oportuniza (re)encontros e novas pontes para a valorização das artes, tem sido projetado pela multi-artista, Mônica Tavares.


Bailarina desde os seis anos de idade, atriz, cantora, professora, ministrante da oficina de jogos de improvisação cênica, graduada em psicologia, mestre em artes cênicas, preparadora corporal e diretora cênica, suas trajetórias formam um vasto repertório de possibilidades e de experiências a serem compartilhadas. É nesse movimento dinâmico a partir de sua própria história, com diálogos plurais entre diversas áreas, que Mônica Tavares nos convida a participar da construção coletiva de seu projeto-sonho: CEMIAR – Centro de Estudos, Manutenção e Integração das Artes Cênicas.


O ponto de partida desta entrevista é o texto Da dança ao teatro em uma bolsa, uma viagem, um projeto-sonho. E, com ele, vamos dialogar sobre o tempo. Esse relato, em que Mônica Tavares nos conta um pouquinho sobre sua residência artística em Nova Iorque e sobre os desdobramentos de seu projeto-sonho, faz parte do Edital 14/2020 da Lei Aldir Blanc. O link direto para a leitura está no final desta publicação.


Embarque conosco?




Show "Perto de Mim" - Centro de Referência da Música Carioca Artur da Távola / RJ- 2010 - FOTO: Claudio Medeiros;

MISTURA: A Bolsa Virtuose, oportunizada pelo Ministério da Cultura e destinada a artistas com experiência profissional comprovada, foi um grande divisor de águas na sua vida. Sua residência artística em Nova Iorque foi um marco fundamental em sua história. Com essa experiência, o seu olhar e sua relação com a prática artística se transformaram profundamente. Quem foi a Mônica Tavares até essa experiência?


MÔNICA TAVARES: Eu me sinto muito privilegiada de, logo aos seis anos de idade, estudar num colégio que tinha aulas de balé. Além disso, minhas duas irmãs faziam aula no TransForma Centro de Dança Contemporânea que, na época, se chamava Escola de Dança Moderna Mariene Martins. Foi uma grande escola, inserida em um momento artístico muito intenso na cidade. Era um espaço composto por artistas de toda ordem e que se consolidou enquanto uma instituição de extrema relevância para o estado de Minas Gerais. Uma das minhas irmãs acabou me levando para assistir a uma de suas aulas. Eu, ainda muito criança, me encantei com aquele espaço. Observando atentamente as pessoas durante a aula, eu me levantei e comecei a copiar aqueles movimentos e isso chamou atenção das pessoas. Com isso, eu ganhei a primeira bolsa da minha vida e tive a oportunidade de estudar no TransForma por quase 10 anos. Aos 17 anos, realizei um intercâmbio para os EUA, onde tive contato com outros repertórios e onde pude ministrar algumas aulas também. Dando continuidade na profissão, por alguns anos fui bailarina do grupo Baleteatro Minas, dirigido por Dulce Beltrão e Sylvia Calvo. Anos depois, integrei o Grupo 1º Ato, no qual atuei por 10 anos. Após essa experiência, eu parei e falei para mim mesma: “eu preciso fazer teatro”! Eu gostaria de ter todos os recursos que um ator tem quando se prepara para estar em cena; eu queria ser uma bailarina-atriz que cantasse bem. Nunca foi minha intenção ser uma cantora para gravar um CD, mas talvez uma cantora para gravar DVD [brinca], porque realmente tenho essa relação muito forte com o corpo-voz. Então, esse foi o antes.


MISTURA: Logo na página 02 do texto, você menciona que, em 1998, um ano antes de sua residência artística, você vivia um questionamento em relação à sua dança. Que questionamentos eram esses? Quais foram os motores internos que te impulsionaram a buscar uma experiência fora do país?


MÔNICA TAVARES: Particularmente, eu tenho momentos na minha vida. Quando eu me vejo muito cansada, está na hora de pensar melhor. Na época, eu estava cansada. Eu tinha cerca de 30 anos de idade e já com um tempo bastante considerável de experiência profissional. Eu me incomodava um pouco com minhas próprias visões sobre a dança contemporânea na época. Eu estava meio que de bronca com a dança. Quando você sai de um esquema de “companhia” (que, por sinal, é maravilhoso, pois é uma maneira de você ser uma artista com reconhecimento profissional valorizado), as pessoas não imaginam a intensidade do trabalho que você vivenciou e o tanto de coisa que você teve que abrir mão – trabalhávamos praticamente a semana inteira, entre espetáculos e ensaios, além das constantes viagens. Eu queria experimentar outras coisas além da dança. Eu queria mais! Como eu já havia percorrido alguns países e como meu engajamento com o teatro já existia, eu falei “cara, eu vou mergulhar no teatro. Eu vou porque é isso que eu quero para mim”. Eu sou aquariana e me questiono demais [brinca]. Eu gosto de ir atrás daquilo que eu desejo. A minha mãe era professora e ela falava que é o estudante quem faz a escola. Hoje, eu penso que a escola é feita por todos nós. Nossa postura enquanto estudantes não deve ser só a de receber ou reclamar; se não está bom, o que você faz? O que você propõe? Então, o motivo de tentar a bolsa para o centro de práticas HB Studio foi esse: o desejo de mudar, a vontade de fazer diferente. Já em Nova Iorque, eu assumi uma postura mais ativa e compartilhei uma proposta com uma ministrante; essa proposta se transformou em uma performance para uma aula aberta. A partir daí, acho que pude fazer uma diferença, mesmo que singela, no andamento do HB Studio. Eu queria aprender, eu queria dar o meu melhor, porque aquela oportunidade era única. Acho que foi por isso, sabe? Eu tenho dentro de mim, não sei se da mesma forma que antes, essa vontade de fazer a diferença. A Bolsa Virtuose direcionava-se a artistas profissionais, não tinha nada a ver com o ensino acadêmico – esse que era o grande lance do negócio. Eu não era graduada na época. Então, quando vi que eu poderia me encaixar na Bolsa Virtuose, não perdi a oportunidade. Foi mais uma bolsa que entrou em minha vida para dar continuidade à minha formação. Essa é a chave, inclusive, do meu projeto-sonho: dar continuidade à formação de profissionais da cena.


MISTURA: As trocas e os aprendizados oportunizados pelo HB Studio foram fundamentais para a sua formação. Nós também notamos como é diferente a maneira pela qual o HB Studio trabalhava o aperfeiçoamento das práticas artísticas. De que forma e em que medida você articulou todo esse repertório nas instituições pelas quais você passou aqui no Brasil?


MÔNICA TAVARES: O HB Studio não é uma escola de formação propriamente dita, mas um centro de prática para artistas. Eu demorei a ter essa compreensão. Por isso, no texto e para o projeto-sonho, tive o cuidado de utilizar expressões como “ministrante”, “coordenador”, “orientador”. Eu pedi a extensão da bolsa e me aprofundei nos jogos de improvisação, o que não foi uma tarefa fácil, pelo contrário! Então, segui o conselho da ministrante dos jogos e tentei utilizar minhas dificuldades a meu favor. Ao longo do tempo, eu fui entendendo o quanto o meu corpo me ajudava a aprimorar as práticas de improvisação. Nesse sentido, avancei ainda mais nas reflexões sobre essas práticas, na medida em que compreendi ser necessário desenvolver uma base para que a pessoa comece a improvisar. A partir daí, quando retornei ao Brasil, comecei a dar minhas oficinas de jogos de improvisação, aplicando os aprendizados e os desafios que vivenciei em Nova Iorque. Então, tracei alguns direcionamentos para ministrar minhas aulas e oficinas aqui. Nas instituições pelas quais passei, dentro das diversas funções que desempenhei, desenvolvi (e ainda desenvolvo) uma metodologia de trabalho que seja agregadora, tendo o corpo enquanto facilitador da expressão cênica e da comunicação. Tenho tentado acessar e utilizar minhas caixas de ferramenta [metaforiza] nas diversas circunstâncias exigidas pela profissão e pelo dia-a-dia.



MISTURA: A diversidade do seu ofício artístico é enorme, até porque você se movimenta exatamente na fluidez e na liberdade proporcionada pelas artes. Ao mesmo tempo, existe uma lógica de mercado no sentido de colocar as coisas e as pessoas em caixas. É como se tivéssemos que ser sujeitos estáticos para que pudéssemos nos encaixar em uma função específica; caso contrário, não seríamos considerados bons profissionais. Como você analisa esses aspectos e quais foram os desafios em se deparar com essa realidade que insiste em separar tudo?


MÔNICA TAVARES: Primeira coisa, já faz um tempo que eu aboli esse ‘tem que’ da minha vida. Eu não ‘tenho que’ nada! É difícil isso. Mas, eu ‘tenho que’ outras coisas. Nós vivemos em uma sociedade com regras e, com relação a isso, eu sou muito respeitosa. Sem regras, nem o jogo de improvisação funciona. Sobre essa dinâmica das caixinhas, eu tenho tentado romper com isso há muito tempo, porque, fazer um monte de coisa, a gente pode fazer. Agora, o ato de estudar e de se aprofundar mais em determinado tema exige escolha. Por exemplo, agora nós estamos em um momento que temos que aprender a editar vídeos, a gerenciar redes sociais... chega uma hora que você não dá conta de fazer tudo. Depois que você passa dos 50, você percebe que o “fazer tudo” passa muito mais por uma questão de escolha do que por vontade. Nós não temos que viver em caixas, mas ao mesmo tempo temos que fazer escolhas, pois, caso contrário, a gente fica borboleteando [fazendo alusão ao movimento da borboleta, que não se fixa em um lugar]. Vou fazer um comparativo com o que vivemos hoje: essa era das informações. São muitas notícias, não tem como acompanhar tudo. Não adianta tentar saber todas as informações, porque você vai acabar não sabendo nada. Eu sei, por exemplo, pegar o meu celular, colocá-lo em um tripé e fazer uma filmagem a partir disso; mas, eu não posso dizer que eu sou uma profissional disso. Na minha vida, eu me formei nas artes por uma prática intensa e constante, agregada aos estudos da graduação e pós-graduação. Nós podemos, sim, desempenhar muitas funções e vários ofícios. Portanto, é fundamental escolher e aprofundar. É uma dança, gente! Não sei explicar exatamente qual é o segredo. Eu escolhi a dança, que é minha base e o princípio de tudo. Dentro dessa mistura, eu pude integrar o teatro e o canto. Nós podemos.



Show "O que tá tendo pra hoje" BH - 2008 - FOTO: Zé Du;

MISTURA: No seu texto, você menciona uma frase que nos impulsiona: “mas, o sonhar é livre e possível”. E é sobre o seu projeto-sonho que gostaríamos de falar agora – o CEMIAR ou CEMIARMUS, esse espaço que nós do MISTURA estamos ansiosos para vivenciar assim que ele for executado (e será!).


MÔNICA TAVARES: Quem é que vai tirar seu sonho? Ele é seu! O CEMIAR é um sonho que, por muito tempo, ficou ali no cantinho da gaveta, talvez esperando o momento certo para ser compartilhado; é um pouco do que eu vi e vivi em Nova Iorque. Na época em que estive lá, aconteciam diversas audições na cidade. A cidade se transformou bastante ao longo dos anos, é claro, mas há uma grande efervescência cultural. Então, o meu pensamento foi: por que não trazer essa experiência, essa prática para o Brasil? Foi quando comecei a estruturar o projeto para a nossa realidade, refletindo sobre a riqueza cultural presente aqui. Imagine um artista que você admira muito. Agora, imagine um lugar equipado, no qual esse artista possa apresentar um plano de práticas. A partir disso, faríamos uma seleção, uma curadoria para, depois, você aperfeiçoar o seu ofício com esse artista (e com tantos outros)! Como tudo isso vai funcionar? Essa pergunta só pode ser 100% respondida quando o projeto estiver em execução. O espaço existindo e em funcionamento pode abarcar uma diversidade de temas e de práticas, onde o profissional pode mergulhar e aprimorar seu trabalho. É uma gama de possibilidades. Essa é a ideia geral, mas eu fiz questão de formalizar e estruturar o projeto bem bonitinho no texto. Estou jogando para o universo. Se eu ainda não realizei, quem sabe alguém realiza? Esse sonho pode inspirar outras pessoas. Pensa nesse espaço funcionando... imagine a efervescência. É um congresso. É um encontro! Tudo tem consequência na medida em que se movimenta. “Tudo está em tudo reciprocamente” [referindo-se ao seu texto, citando Morin] Com essa pandemia, a gente percebeu que tudo está em tudo. São conexões. São possibilidades. Nós somos seres humanos e estamos aqui para aprender, principalmente com as trocas. Acredito que o CEMIAR possa ser um espaço que estimule essa troca e nossa sensibilidade artística.


MISTURA: As bolsas de estudo foram fundamentais para a sua formação em vários momentos da sua vida, inclusive neste. Num país como o Brasil, considerando especialmente o cenário atual, como você avalia a efetividade e a importância de políticas públicas de fomento para a formação e para o aperfeiçoamento de artistas?


MÔNICA TAVARES: Quando eu abro esse projeto-sonho, consequentemente eu abro minha vida, contando minha própria história. No primeiro parágrafo do texto, eu falo da importância das pesquisas e do incentivo público com relação às bolsas direcionadas para artistas profissionais. Sem valorização da cultura, nós não avançaremos. No contexto em que vivemos, fica até difícil compartilhar este projeto, mas é necessário. Eu... tô muito triste [desabafa] e de certa forma revoltada com esse momento político. Não se pode retirar tudo aquilo que é possível e necessário para o crescimento do país. Eu escrevo por isso também. Quando eu afirmo que é necessário valorizar o segmento artístico, eu estou reforçando a importância da classe cultural para a formação da cidadania e para a construção da democracia brasileira. É muito chato, quando se constrói uma existência artística, viver numa conjuntura em que somos mal vistos. Sem incentivo à pesquisa, não existe vida. Sem cultura, o ser humano não existe. Nós precisamos existir sem dúvidas.



MISTURA: Nós precisamos existir sem dúvidas! Considerando todos os desafios impostos pela pandemia e pela atual conjuntura, de que forma Mônica Tavares existirá e resistirá daqui para frente?


MÔNICA TAVARES: Nós fomos pegos de surpresa, né? Eu tenho pensado muito e confesso que vivencio outro momento de questionamentos constantes. E agora? Espiritualmente, acredito que estamos em um período de transições significativas, que nos exigem atitude. Realmente, não sei te dizer exatamente sobre o porvir. Eu estou deixando fluir. Quero realizar parcerias e continuar trabalhando. Ao mesmo tempo, tenho pensado muito sobre como adaptar minhas oficinas de jogos de improvisação a este modelo virtual. Seria possível? Acredito que não. É difícil falar exatamente, no atual contexto, sobre o que eu quero fazer no futuro. Tenho realizado algumas pesquisas e investigações, participando de alguns cursos on-line também. Eu trabalhei quarenta anos em grupo, sou uma pessoa das trocas e das parcerias. O que eu posso afirmar é que eu quero contribuir por meio do meu trabalho com a ampliação de perspectivas. Eu sou uma artista que está aí: aberta!


Link para a leitura do texto-relato de Mônica Tavares: https://issuu.com/tavaresmonica/docs/texto_relato_m_nica_tavares.docx_issu


Espetáculo Cênico Musical "Entre" com Mônica Tavares e Rubens Kurin na Mostra Klauss Vianna / BH - 2011 - FOTO: Claudio Medeiros

¹ Este texto aborda um panorama geral da entrevista realizada pela equipe do MISTURA com a artista Mônica Tavares. Transcrevemos as perguntas e as respostas da entrevista considerando a formatação das falas para a língua escrita. O texto passou pela revisão e aprovação da entrevistada e dos demais colaboradores da equipe MISTURA.

Mônica Tavares é bailarina atriz, professora, ministrante da oficina de jogos de improvisação cênica, preparadora corporal e diretora cênica. Artista de Belo Horizonte (MG) com formação em dança, teatro e canto. Teve como primeira formação a Escola de Dança Moderna Marilene Martins/Trans-Forma Centro de Dança Contemporânea – BH, onde foi bailarina do Trans-Forma Grupo Experimental de Dança e Oficina do Trans-Forma. Foi bailarina do Baleteatro Minas, South Dakota School of Dance (Sioux Falls/SD/EUA); Grupo de Dança 1º Ato; Benvinda Cia de Dança; Meia Ponta Cia de Dança e assistente de direção, coreografias e ensaiadora da Cia de Dança Palácio das Artes. Especialização profissional em teatro no HB Studio em NYC/NY/EUA pela Bolsa Virtuose – MinC com o projeto corpo, atuação e voz. Professora de Jogos de Improvisação desde 2001. Mestra em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília - UnB. Foi professora substituta no Teatro Universitário UFMG.

Graduada em Psicologia Clínica pela PUC/MG – BH.



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