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O CIRCO COMO TREINAMENTO FÍSICO DO ATOR E SUAS POSSIBILIDADES CÊNICAS-CRIATIVAS

  • 28 de set. de 2021
  • 8 min de leitura

Por VinĂ­cius Guedes


NĂŁo me lembro exatamente quantos anos eu tinha quando vi o 1Âș espetĂĄculo de Circo da minha vida. Sei apenas que fomos em famĂ­lia assistir Ă s peripĂ©cias dos palhaços, cuspidores de fogo, equilibristas em monociclos e em cordas bambas, aĂ©reas, lĂĄ no alto entre as luzes. Lembro-me de ter os olhos brilhantes e sorriso aberto Ă quela arte que se estendia na minha frente.


Meu nome é Vinícius Guedes Barbosa, ator, circense, poeta, professor, encenador, instalador, aspirante a dançarino, artesão, produtor, videomaker, construtor e todas as mil e uma funçÔes que nós artistas independentes exercitamos incansavelmente todos os dias. Comecei, como muitos artistas, na escola e na igreja. Era impressionante como em toda e qualquer oportunidade eu era o primeiro a me voluntariar para a peça de teatro, apresentação de dia das mães, natal, festa junina, trabalhos escolares, etc. Sempre fui inquieto, agitado, ansioso, com mais energia do que conseguia gastar, curioso, admirado e animado por estar no palco, em cena, em estar diante das pessoas dançando, contando uma poesia ou em uma pequena peça familiar.


Aos 15 anos, conheci o programa Valores de Minas, onde iniciei um curso de Teatro que começou a despertar em mim o desejo de seguir essa carreira das Artes, tĂŁo maravilhosa e por vezes tortuosa. Conheci, nesta mesma Ă©poca, o Circo e mais uma vez me vi maravilhado com os aparelhos aĂ©reos, com os mortais e com a inteligĂȘncia corporal proprioceptiva daqueles acrobatas, com o tĂŽnus muscular e a energia incansĂĄvel dos acrobatas aĂ©reos que despencavam em quedas elaboradas e surreais.

Foto: Emerson Maciel (@emersonmaciel)

Inicia-se aĂ­ mais um compartimento na minha maletinha de ferramentas artĂ­sticas. A uniĂŁo do Teatro e todas suas possibilidades artĂ­sticas com o Circo como algo que eu fazia mais por diversĂŁo, mas que jĂĄ condicionava meu corpo, tornando-o mais forte, mais resistente, mais ĂĄgil, mais flexĂ­vel, mais atento e mais disponĂ­vel para o jogo cĂȘnico. Naquele momento, me tornei um circense enĂ©rgico, que treinava Ă  tarde por 2 ou 3 horas no tecido acrobĂĄtico dentro da Trupe Tralha Escola de Circo e que,Ă  noite, me metamorfoseava em um ator ainda mais enĂ©rgico e agitado, que ia para o Teatro UniversitĂĄrio da UFMG (T.U). Isso porque, naquele momento, eu jĂĄ nĂŁo estava mais apenas fazendo Circo, eu tambĂ©m estava fazendo Teatro todas as noites de segunda a segunda, faça chuva ou faça sol.


Foi no T.U, sob o olhar de tantos talentosos, rĂ­gidos e bondosos mestres e mestras, que se iniciou a longa e ainda nĂŁo concluĂ­da estrada do controle da energia e da consciĂȘncia corporal para se estar em cena e/ou para se fazer um malabarismo bem feito.


Foi lĂĄ que eu aprendi a ser um ator potente, mas que nĂŁo mais derramava energia em excesso por todos os lados, aprendi a ser um circense mais responsĂĄvel com meu corpo e a cuidar melhor dos meus companheiros de cena, aprendi a nĂŁo separar o VinĂ­cius Circense do VinĂ­cius Ator e que o caminho estĂĄ justamente nesses entroncamentos e encruzilhadas de possibilidades cĂȘnicas.

O tempo passa, me formo no T.U e jå não faço mais Circo. Por alguma razão, naquele momento, resolvi abandonar completamente o Circo e me focar exclusivamente no Teatro. Fiz oficinas, conheci grupos, o Espaço Comum Luiz Estrela, fiz coisas e me tornei professor de Teatro e Circo em uma Escola Estadual perto da minha casa. A partir dali, o aluno não era mais apenas aluno, mas também professor de crianças e adolescentes. Mas, como juntar Teatro e Circo para crianças? Resposta: use todas as ferramentas da sua malinha artística. Foi incrível e maravilhoso ter a oportunidade de dar aula e de juntar duas åreas tão próximas e tão conflitantes dentro de mim. Eu precisava dar aula de Teatro, mas tinha alunos tímidos e preguiçosos e, ao mesmo tempo, precisava organizar outras crianças com muita energia, que não paravam quietas e impossibilitavam o andamento de uma aula. Ainda bem que a ferramenta do Circo se faz cheia de possibilidades e maravilhas.


Elaborei, entĂŁo, meus planos de aula: usar o Circo para gastar a energia das crianças mais agitadas e aumentar a energia das crianças mais preguiçosas. Com alunos mais confiantes e conscientes de seus prĂłprios corpos, eu terei atores mais confiantes e conscientes de seus prĂłprios corpos. Segundo o dicionĂĄrio, a flexibilidade Ă© a capacidade de realizar uma sĂ©rie de exercĂ­cios que visam aumentar o trabalho do mĂșsculo; entĂŁo, comecei a trabalhar alongamentos dinĂąmicos e estĂĄticos, o que se fazia benĂ©fico nas outras aulas, pois um mĂșsculo flexĂ­vel e trabalhado responde melhor aos comandos cerebrais.


Sendo assim, eu tinha alunos mais ativos, mais dinĂąmicos e mais dispostos durante as aulas de Teatro, pois seus corpos jĂĄ estavam condicionados a serem mais ativos. Trabalhei malabares com claves e bolinhas, pois como a tĂ©cnica do malabares condiciona o cĂ©rebro e o corpo a obedecer uma contagem e um ritmo, eu tinha alunos que decoravam os textos mais rĂĄpido e melhor, com uma inteligĂȘncia corporal e reativa que se fazia muito Ăștil durante os jogos e exercĂ­cios cĂȘnicos trabalhados nas aulas. E, apesar de parecer algo trivial, me lembrei de como o malabares me ensinou a controlar a minha energia e talvez atĂ© “meditar” por horas enquanto executava a tĂ©cnica, algo que se refletiu em meus alunos mais bagunceiros e inquietos, que se tornavam mais concentrados e calmos na tĂ©cnica do malabares e que ainda levavam essas conquistas para minha aula de Teatro (o que era Ăłtimo) e para outras aulas da escola regular como MatemĂĄtica, PortuguĂȘs, CiĂȘncias, etc. Trabalhei abdominais e portagens coletivas, pois era algo mĂĄgico e sensacional que os alunos nunca tinham visto e que trabalhava a força desses alunos, liberava endorfina e lĂ­quido sinovial para lubrificar as articulaçÔes, os deixava alegres com a possibilidade do desafio de se fazer uma segunda altura ou uma pirĂąmide, o que se refletia nas aulas, pois durante a montagem de uma cena, por exemplo, os alunos jĂĄ tinham estruturas cĂȘnicas, possibilidades de cena, de malabares, de portagens, de formas corporais que eles usavam como “brincadeira”, mas que eram perfeitas para a cena, jĂĄ que eram formas de expressĂŁo artĂ­sticas produzidas por eles mesmos. Como dizia Fernando Limoeiro: “Repita, repita e repita”. Com essa experiĂȘncia notei que o treino consciente e a repetição produziram resultados muito fĂĄceis de se observar porque o corpo, uma vez que se acostumou com o movimento, agora o realiza de forma mais orgĂąnica e fluida.


Foto: Constantino César Fotografia (@constantinocesarfotografia)

Mais uma passagem de tempo e eu me reconecto com o Circo no Curso TĂ©cnico de Circo do CICALT, jĂĄ dou aula de Teatro e Circo em outro lugar, num Centro de Internação Socioeducativo para adolescentes infratores e, ao mesmo tempo, inicio a pesquisa de um espetĂĄculo com um grande ator e amigo, Dudu Melo, deficiente visual. Com esses novos alunos busquei o mesmo caminho de antes, entretanto, com algumas adaptaçÔes e variaçÔes, pois jĂĄ eram adolescentes e nĂŁo mais crianças e estavam privados de liberdade, o que impossibilitava mostras, apresentaçÔes e espetĂĄculos. Essa experiĂȘncia me deu a oportunidade de trabalhar o Circo por seu viĂ©s social, levando alguma novidade, arte ou possibilidade artĂ­stica para jovens numa situação tĂŁo vulnerĂĄvel. LĂĄ eu aprendi a me adaptar Ă s necessidades deles, Ă s histĂłrias de vida deles e muito mais que pensar no Circo como um lugar de exercĂ­cios fĂ­sicos, mĂșsculos, alongamentos e virtuosismo tĂ©cnico. O Circo, naquele contexto, tinha um carĂĄter muito mais terapĂȘutico e lĂșdico que um carĂĄter profissional e artĂ­stico.


Este ator, agora, alĂ©m de um professor melhor tambĂ©m era aluno Ă  noite e um aluno mais tranquilo, mais calmo devido a seu trabalho com um ator cego que o ensinou a ter paciĂȘncia, a respirar e a concentrar-se, a adaptar seu ritmo e a conter a energia imensa que habita este corpo. Isso me ajudou muito durante as aulas de acrobacias de solo, onde eu, ansioso e medroso, tinha de ter a energia corporal exata para executar um mortal a frente ou uma rondada mortal, nem mais nem menos, mas na medida exata, pois como meus machucados e diversos olhos roxos podem provar, quando se ultrapassa um limite seguro Ă© onde ocorrem os machucados e acidentes. A consciĂȘncia corporal adquirida com o Teatro era Ăłtima para a cena, mas o Circo exigia algo alĂ©m, mais intenso e ao mesmo tempo mais responsivo com seu prĂłprio corpo.


Foto: Lets Fotografia (@_letsfotografia)

Pude perceber a partir desse momento como minha evolução no Circo refletia diretamente no meu fazer teatral diĂĄrio. Os abdominais intensos das aulas de acrobacia me davam mĂșsculos mais fortes e mais resistentes para estar mais centrado em cena e mais vivo, os exercĂ­cios aerĂłbicos e de exaustĂŁo me davam um controle melhor da respiração e uma consciĂȘncia mais aprimorada dessa respiração, possibilitando que meu texto melhorasse e me deixando menos ansioso, jĂĄ que a partir do controle da respiração aprendi tambĂ©m a controlar melhor o nervosismo e a ansiedade, o que me tornou um ator mais calmo. Com os alongamentos e repetiçÔes de exercĂ­cios me tornei mais flexĂ­vel e mais ĂĄgil, o que, sem dĂșvida, Ă© Ăłtimo para a cena teatral, pois deixa o corpo mais pronto para o jogo cĂȘnico e para reagir aos estĂ­mulos.


O corpo do artista de Teatro, em teoria, deve ser um corpo forte, resistente, ĂĄgil, alerta, prĂĄtico, sensĂ­vel, vivo, crĂ­vel, extra cotidiano e disponĂ­vel para o jogo cĂȘnico. Acredito que todas essas categorias podem ser alcançadas com o treinamento e pela vivĂȘncia Circense.


O Circo, atravĂ©s de todas as suas possibilidades, proporciona condicionamentos fĂ­sico e mental potentes para a criação do ator, pois o corpo Ă© o mesmo: os movimentos aprendidos por esse corpo para a execução de uma estrelinha podem ser usados posteriormente em uma cena de Teatro, os mĂșsculos sĂŁo os mesmos ainda que o movimento executado nĂŁo seja uma estrelinha. A inteligĂȘncia ou consciĂȘncia corporal age sobre o mesmo corpo, tornando-o sensĂ­vel aos estĂ­mulos cĂȘnicos e propostas do jogo teatral, o que nĂŁo Ă© nada mal para nĂłs atores que buscamos sempre nos aperfeiçoar em nossa arte.

Hoje, pratico Circo no Espaço CircoLar e pratico o Teatro diariamente, faça chuva ou faça sol. O Circo nĂŁo deixa meu corpo esquecer que ele Ă© um corpo cĂȘnico, extra cotidiano e pulsante, um corpo de Teatro, de um ator; enquanto o Teatro nĂŁo me deixa esquecer que o artista nunca Ă© a favor, sempre Ă© contra, nem que seja contra a gravidade ao se dependurar num tecido e trapĂ©zio, que meu corpo cĂȘnico estĂĄ em relação com o outro e com o espaço cĂȘnico e que a potĂȘncia alcançada com o Circo pode me tornar um ator mais potente e consciente de si mesmo, transportado esse corpo tĂ©cnico, virtuoso e Circense para a cena.

Enfim
 Ă© isso, nĂŁo sei se me fiz entender, ou se o entroncamento desses dois caminhos serve apenas para me mover para frente nessa longa estrada que Ă© a Arte. Sei apenas que devemos nos cuidar, cuidar da nossa ferramenta de trabalho, cuidar de nĂłs e do nosso corpo, porque nosso corpo Ă© polĂ­tico e Ă© com esse corpo-artĂ­stico-polĂ­tico que criamos Arte e mudamos o mundo. Se cuidem, bebam ĂĄgua, se exercitem e resistam, pois em tempos como estes que vivemos no Brasil de caos cruento e tĂŁo difĂ­cil para a Cultura, precisamos dos nossos artistas fortes, saudĂĄveis e vivos para quando tudo isso passar.


Vinícius Guedes Barbosa é ator e circense, morador de Contagem. Formação: Valores de Minas, Teatro Universitårio da UFMG, Técnico em Artes Circenses pelo Centro Interescolar de Cultura Arte Linguagens e Tecnologia e Ator na Pigmentar Companhia. Um artista

independente que transita entre o Circo e o Teatro, um aquariano elétrico, de 28 anos com o sonho de mudar o mundo com sua arte.


 
 
 
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