"O QUE EU MAIS TENHO É HISTÓRIA PRA CONTAR"

Atualizado: Jun 18

Por Ariane Maria e Nayara Leite



As seguintes reflexões fazem parte dos estudos das autoras: Ariane Maria, filha de Angelina Lopes, nascida no Vale do Mucuri, nordeste mineiro e Nayara Leite, filha de Joana Fernandes, nascida em Ribeirão das Neves, região metropolitana de Belo Horizonte. Atualmente, são estudantes do curso de graduação e técnico em Teatro, ambos pela Universidade Federal de Minas Gerais.


O texto a seguir parte da busca das autoras por ancestralidade, memória e escuta aos saberes de suas famílias e é um convite para que todas(os) revisitem suas próprias histórias.

O que mais temos são histórias a serem contadas – como diz dona Angelina –, mas decidimos compartilhar com vocês, desta vez, alguns ensinamentos importantes de nossas famílias, em especial de nossas mães. Começaremos a tecer este texto transcrevendo uma história vivida por Dona Angelina, na comunidade rural de Teófilo Otoni. Sabem como acontece o processo de feitura da farinha de mandioca?

Essa de azul é Angelina e, de branco, é Ariane em seu batizado, na igreja de

São Benedito/Teófilo Otoni, no ano de 2001.


“Era eu e duas irmãs minha, uma mais velha e irmão, a gente levantava 4 horas, 4:30 da manhã pra ir pra casa de um vizinho na roça pra ralar mandioca. A gente começava raspando as mandioca, depois a gente ralava no ralo, era um ralo feito de lata de óleo, furava aques furim, né, mais grosso e ralava essa mandioca toda, era uns dois balaio de mandioca…”

De fato, aprendemos muito dentro dos ambientes formais de educação e conhecemos outras possibilidades, mas nada se compara à educação matrigestora, que, em nossas famílias, se encontra através do elo materno. A partir das nossas vivências na arte-educação, temos refletido e conversado sobre como devemos nos inspirar diretamente nessas mulheres maravilhosas de nossas famílias.

“... a gente raspava primeiramente, depois lavava, bem lavadinho, cortava aonde que tinha raiz, aonde que tinha aquele pau que dá na mandioca e começava a ralar, ralava, ralava aquilo tudo, aí já tinha os pano, né, de saco, os pano hoje que a gente fala pano de chão. A gente comprava os saco brancos, branquinho e espalhava a massa ali naquele saco e começava a torcer…”

Por muito tempo o ambiente acadêmico se fez muito distante de nossas casas e, quando entramos, percebemos que todo aquele território parte da estrutura do que chamamos de universidade, que não tem nada de universal, mas essa é uma outra história. O ponto importante a ser dialogado é que estamos tentando mudar isso em nós, a partir dos nossos corpos e da sabedoria emanada por eles, ao invés de nos afastar de nossa comunidade, mascaradas com títulos, com palavras formais, com acentuações e com um freio de burro que só olha para um ponto. Em verdade, estamos tentando nos nutrir ainda mais do que temos em casa. Bem ali, no quintal de mainha.

“...depois que ralava a mandioca toda, a gente começava a torcer na mão e quando era lá pras 11hrs, 11:30, a gente já tava com aquela massa toda torcida, aí a gente esfarelava na mão, bem fininha, né, espalhava numa peneiras, em cima de tábua, pra secar a massa, aí a gente quando a massa tava bem seca, o forno de torrar farinha já tava quente, já tava com lenha já queimando e no tacho, né, pra esquentar o tacho aí a gente jogava aquela massa no tacho e começava a torrar…”

Como artistas da palavra, percebemos que é fundamental a busca pela nossa identidade, sempre tornando potência nossas memórias, estendendo-as para os nossos trabalhos. Antes de sermos consideradas acadêmicas, somos filhas de dona Angelina e de dona Joana, além de sermos frutos, também, de todas as pessoas que compõem o nosso núcleo familiar e que cumprem com a função de nos gerir de conhecimento.

“...torrava com o rodo, rodo parecendo esses rodo de passar pano no chão, só que no lugar da parte onde coloca o pano, a gente colocava...era uma tábua, né, meu pai fazia e Seu Nascimento lá, o dono do mandiocal também fazia os rodo e já deixava pronto, a gente começava a torrar, tinha um cabo grande, né, do tamanho de um cabo de vassoura, aí era próprio pra fazer farinha esse rodo era rodo de madeira, coisa muita bem feitinha…”

Para nós que investigamos a contação de histórias, é muito importante considerar a sabedoria do ouvir: essa escuta ativa se amplia ainda mais quando entendemos que, diferentemente de alguns saberes que se encontram em livros, a oralidade se conecta com a ancestralidade que conta. Como diz o ditado popular “quem conta um conto sempre aumenta um ponto” e, se quisermos ouvir histórias matrigestoras, devemos nos recolher aos territórios em que estão as detentoras dessa oralidade.

“...e a gente começava a torrar a farinha, com os dois braços, né, jogava massa pra lá, jogava massa pra cá, aí pra torrar a farinha e de vez em quando a gente tinha que ir pegando essa massa pra ver se já tava seca no ponto da farinha, aí quando a gente via que tava bem quase torrada, tinha que tirar um cado da lenha do fogo, porque já tava em brasas, pra massa não queimar…”

A figura de uma mulher que conta, conta sua história, e a história dos seus é importante para pensarmos como determinadas experiências atravessam seus corpos. Por que são aquelas que contam? E, se contam, em qual momento, como dona Angelina diz, passa a ser um relato de algo vivido por esse corpo que conta? Esse outro corpo, presente, que escuta e que carrega a responsabilidade de passar adiante.

“...e quando tava assim quase no finalzinho, aí, ia um lá de nós e tirava a brasa toda e tirava a farinha, né, com pratos, tinha o prato com pano, tinha os pratos, né, pra gente tirar a farinha, colocava em gamelas, em bacias, e ia mexendo com a massa, com a farinha pra ir esfriando, né, pra ir cabando de chegar no ponto, se a gente vesse que a farinha não tava bem torradinha, bem sequinha tornava a voltar a farinha pro tacho de novo, pra tornar a torrar, mas era um processo que a gente começava esse horário que eu falei, né, aí, é...no ínicio, e quando era lá pras 5hrs, 6hrs, a gente tava terminando...aí a gente já tinha mais mandioca rancada, a gente raspava elas, lavava, deixava já preparada pra o dia seguinte no mesmo horário, madrugadinha começava o mesmo processo, ralar, tocer a massa, e em seguida começava a torrar pra fazer a farinha...chegando um certo tempo ele via que a gente tava muito cansado, né, de ralar tanta mandioca, a gente ralava o dedo e saía sangue e era aquela coisa, mas ninguém esmuricia…”

Paulina Chiziane, referindo-se à oralidade em contraponto aos avanços tecnológicos, diz que “a tradição oral é o lugar do afeto, sobretudo é África, onde os laços de família se estreitam e as gerações transmitem valores” (CHIZIANE,2018). O ato de contar também se dá em um momento de afeto, de cuidado e de zelo com a palavra que toma corpo. Contar um causo, por si só, é um convite à partilha, seja de dor, de alegria, de medo. É um momento de encontro, onde relações se aproximam.

Contar causos ou histórias não se dá somente por meio de um convite formal para uma reunião, nem próximo a uma grande roda. O contar para as mulheres negras se dá também dentro do fazer cotidiano, como: durante o ninar de uma criança, o desembaraçar dos cabelos, a feitura dos penteados que devem durar toda a semana com pequenos retoques, o ensino dos afazeres domésticos de casa, as memórias relembradas durante a reunião de família, na criação das(os) filhas(os), dentro dos espaços de religiosidade e dos inúmeros outros locais onde a palavra se faz instrumento de comunicação e de ensino.

“...aí quando chegou esse tempo que ele comprou essa máquina, lá, de ralar mandioca, a gente só raspava, em vez de ralar ia colocando as raiz de mandioca e já saia ralada, assim, mais ou menos, a gente só torcia, né, torcia na mão a mesma coisa, fazia o processo todin, o que não fazia era só mesmo é ralar a mandioca…”

Viemos de lugares distintos, vivenciamos experiências múltiplas a partir dos nossos territórios, carregamos tudo isso em nossos corpos, completamente diferentes. Como dar legitimidade somente a um modo de fazer, o que é que seja? Como não olhar para a(o) companheira(o) e ver potência naquilo que o compõe? Valorizar nossas diferentes formas de escrita no mundo é reconhecer que somos potência no lugar que estamos, que geramos e criamos vida. Que esse movimento seja vivo e capaz de nos fortalecer.


Esse vídeo faz parte do processo de escuta das histórias de nossas mães e como Dona Joana sempre fala:” Minha vida dá um filme com início, meio e fim”.

A história foi gravada durante o período da quarentena e estamos utilizando esse tempo para nos aproximar ainda mais.

Referências


  • CHIZIANE, Paulina - Oralidade e ancestralidade. Direção: Miriam Moema Pinheiro. Gravação de TVU.RN. TV Universitária - TVU/RN: TVU.RN, 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WiLijX_7dDk&t=410s. Acesso em: 2 maio 2020.


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