O TEATRO COMO ARTE DO AFETO / MUDAR DE LUGAR

POR ALISSON OLIVEIRA


Olá, muito obrigado por terem vindo. Muito obrigado por aceitarem o meu convite. Obrigado, em especial, aos que vieram sem me conhecer. A cada um de vocês, o meu muito obrigado.

Eu sempre achei isso comovente, isso. Isso de as pessoas pararem um tempo de suas vidas só para vir até aqui. Para ler. Olha, se eu pudesse, eu adoraria servir um café, mas não deu. Mas quem sabe na próxima.

Me chamo Alisson Geraldo Almeida de Oliveira, tenho 25 anos. Geminiano. Sou ator, poeta e atualmente me arrisco com o estudo da direção cênica. Sou formado pelo Teatro Universitário da UFMG, faço parte da Companhia Ovorini Carpintaria Cênica de Sete Lagoas-MG. Gostaria de dividir esse texto que usei como provocação para um exercício proposto pelo professor Fabricio Trindade, oportunidade em que cada aluno deveria criar partituras cênicas. Naquele exato momento, estava passando por várias crises de ansiedade, e por que não falar disso?


A CONSTRUÇÃO DO CORPO NO TEATRO

EXIGE COISAS IMPORTANTÍSSIMAS

A MUDANÇA COMPLETA DO CORPO

É A TÔNICA DO TEATRO, A MUDANÇA.

O CORPO NÃO ANDA DO MESMO JEITO

É PRECISO OUVIR NOVAS MÚSICAS PARA DAR FORMA

A MÚSICA CRIA OS PLANOS, O RITMO DOS PASSOS, A RESPIRAÇÃO, O SILÊNCIO, A MÚSICA.

ACOMPANHA A CRIAÇÃO DO CORPO: EIS A ESQUETE!

ENCOSTA O CORPO NO MURO PICHADO DE PALAVRAS

E ELAS SERÃO AS SUAS PLACAS

DIMINUINDO E EVOLUINDO A MARCHA E A RODA

A MÃO DE UM JEITO, O ROSTO DE UM JEITO,

O OLHAR, O OLHAR É IMPORTANTÍSSIMO,

E AS MÃOS BAIXAS, A GESTICULAÇÃO LIMITADA

PARA NÃO TAMPAR O CORPO, O ROSTO, A VOZ, AS PALAVRAS

DRAMA É LENTIDÃO, E QUANTO MENOS CORPO

E VOZ, MAIS VOZ SERÁ, E MENOS CORPO,

PORQUE O CORPO É A DESCULPA DO TEXTO

E O TEXTO É APENAS O CORPO?

NO FINAL, É O CINEMA MUDO.

A POESIA ESTÁ NO CORPO

ACORDE SEMPRE CEDO, CRIE O TEXTO, EXPLODE.

O ESPAÇO DO QUARTO, TEXTO LONGO, RÁPIDO,

CORPO LENTO, DEPOIS TEXTO LENTO, CORPO

RÁPIDO, É UM EXERCÍCIO QUE TODO ATOR FAZ

O OLHAR ASSUSTA, O OLHAR VÊ O MUNDO.

IMAGINADO, OS OBJETOS SÃO TODOS IMAGINADOS,

HÁ LENTIDÃO EM TUDO, MAS TUDO É CONSTRUÍDO.

PELA CONSTANTE DESCONSTRUÇÃO DO QUE É

IMAGINADO

E SÓ É POSSÍVEL ASSIM

A DESCONSTRUÇÃO

O SALDO QUE NÃO ESTÁ SOBRANDO

A EXAUSTÃO QUE CRIA O QUE NÃO SE CANSA MAIS

QUE É O PERSONAGEM

EXPLICA PRA SI MESMO

O NOME

O JEITO

O CORPO

DA PESSOA

E COLOCA COISAS SUAS

E TENTA

CONSTRUIR. RECONSTRUIR

UMA REZA EM QUE O

PERSONAGEM REZA

EM SI MESMO

PARA VOCÊ

USE UMA CADEIRA

A CADEIRA

É SEMPRE

A DEMONSTRAÇÃO

DE QUE VAI HAVER

MOVIMENTAÇÃO

MESMO QUE MÍNIMA

É NESSA GUERRA QUE O SANGUE ESFRIA E AQUECE

ATÉ A IDEIA CONSUBSTANCIAR ATÉ A ÁREA FRONTAL

DO CÉREBRO

E A PERSONALIDADE EQUACIONAR NA AÇÃO INVOLUNTÁRIA

SEM PRESSA

FU, XI, SI PA

FU,XI, SI , PAPA

EU ESTOU BEM, TUDO ESTÁ BEM, CADA CELULINHA DO MEU CORPO ESTÁ BEM ( MENTIRA , NÃO ANDO NADA BEM)

( RESPIRA )

O CORPO

DEMONSTRA

O VÁCUO EM CENA

É PRECISO SE FECHAR

O MAIS BELO

É SE FECHAR

COMPLETAMENTE

FETAL

UM FETO

MEDITAR -AR- FALTA DE AR

RESPIRA, INSPIRA

E ANTES DE TUDO

AO SE ABRIR

LEVANTAR

SUBIR

É PRECISO SER GRANDE

SER DELIRANTE

SER DEMAGOGO

SER SUFICIENTEMENTE

GRANDE

PARA COBRIR O CHÃO

DO ESPETÁCULO.

BASTAR SER

BASTA EXISTIR

O QUE NOS BASTA?


No final do ano de 2016, eu fui aprovado pelo Teatro Universitário da UFMG. Eu, o primeiro da minha família a entrar em uma universidade (e fazendo Teatro), estava saindo de um processo de estreia de um novo espetáculo chamado “O felizardo”, da minha companhia, mas eu precisava me reconhecer, aprender, andar com minhas próprias pernas, sair um pouco dessa cidade, desta caixa e investigar outras formas de fazer teatro.


Uma turma nova, vários olhares perdidos, mas com o mesmo desejo de fazer arte. Acredito que sempre fiz teatro pela impulsividade, pela troca com o público no teatro de rua e pelo afeto que encontramos em cada processo que se inicia. Sempre me arrisquei enquanto artista. Na Federal, entendi o significado da palavra PRETO, SER-PRETO; entendi o significado da palavra ‘machista’. Como não levar tudo isso para minha arte?

No ano de 2018, arrisquei ampliar meus horizontes, caminhando para minha primeira direção com uma grande amiga, Nayara Leite. Foi a partir de um processo gostoso e doloroso que conheci o meu lado machista e foi onde comecei a me questionar de onde vinha esse meu lado, vindo de uma cidade extremamente machista, branca e coronelista. Isso eu tinha a plena convicção que interferia diretamente nos meus trabalhos.


O processo se chamava Totonha, um texto de Marcelino Freire. Por um lado positivo, o resultado foi incrível, a troca foi sensível. Aprendi tanto com Nayara, sobre ser e existir. Percebi que não precisava seguir o modelo de direção que estava acostumado (BRANCO POR SINAL), mas foi a partir desse processo que comecei a me questionar em que sentido minha arte poderia se encaminhar.

Totonha - Fotografia: Ariane Lazário


Em contraponto, estava criando outra cena, chamada Viúvas, que retratava os vários tipos de abandonos e que atravessou minha forma de entender a arte. Durante esses processos, comecei a perceber que a própria bolha chamada Universidade nos mostra nossos melhores e nossos piores lados. Aprendi de uma forma dolorosa: um gay-preto, que vem de uma cidade extremamente branca. Percebi que tudo isso acabava afetando na forma de produzir, de criar arte. Como levar isso para meu grupo, onde a maioria são homens brancos?

Viúvas - Fotografia: Ariane Lazário


Mas foi realmente em contato com o ator e amigo Saulo Calixto que entendi a essência do afeto na arte. Tivemos a oportunidade de criarmos e morarmos juntos no ano de 2019, além de sermos parceiros no exercício cênico com o texto A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa, na matéria de contação de histórias da professora Helena Mauro. Dois atores pretos, filhos de mães solteiras, gays, sem nenhum dinheiro no bolso, arriscando pelo que acreditava em uma capital, contanto uma história de abandono paterno. Aquela experiência nos demonstrou como aquele texto foi, em verdade, nos dado de presente, para falar sobre o que nos urgia.


Naquele momento, percebi o quanto a arte aproxima. Em troca com o monitor Gabriel Beltrão na minha segunda direção, com a cena Abre Aspas, do projeto Produção e Memória, percebi a importância da troca. Novamente, estava dirigindo três mulheres (Ariane Lazario, Gabriela Freitas e Fabiola Nascimento) e como não cometer o mesmo erro? Simples! Eu ouvi. Criamos juntos, dividimos aquele momento tão único para nós! O processo foi delicioso, eu queria entender o que elas estavam falando, para quem queriam falar. O resultado com as meninas e com Gabriel foi extremamente enriquecedor para a minha trajetória enquanto artista. O processo traduziu-se em extrema doação de particularidades nossas, para nós mesmos.

Abre Aspas - Fotografia: Alex Mariano


No processo Rubro, onde o corpo falava mais do que a própria voz, comecei a entender o meu cabelo, a minha pele, o meu suor e foi tão prazeroso dividir aquela sala preta com uma turma majoritariamente preta, e entender o que estava fazendo.

Rubro - Fotografias: Vitor Macedo


Agradeço aos professores e mestres, agradeço o quanto eu pude sugar de vocês, o quanto pude trocar e dividir. Um ator vindo de uma cidade do interior, onde se faz arte para o interior. Agradeço ainda mais a turma que dividi e onde aprendi o real significado da palavra afeto na arte, principalmente minhas manas pretas (Alessandra Alexandrino, Felipe Oliveira, Jessica Pierina, Marina Barros, Nayara leite, Saulo Calixto e Thais Eduarda ).

Obrigado por ser arte em meio ao meu caos.



Alisson Oliveira: Ator, produtor, poeta, um dos fundadores da Ovorini carpintaria cênica de sete lagoas, formado pelo teatro universitário da UFMG



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