PA.REI.DO.LI.A E O MODO TEATRAL DE VER AS COISAS

Por Liz Schrickte


O que é teatro, o que é “teatrar”, para que serve essa coisa de encenar? Sei que ensaiar um discurso para defender nossa profissão diante das perguntas impertinentes que encontramos pelo caminho não é só minha exclusividade. Também sei que os argumentos variam de experiência a experiência, e que a pandemia forjou um novo cenário para novas acepções do que é ser um artista de teatro hoje. Na solidão de casa, distante do palco, das turnês e do público, reencontrei essa face do teatro afora do fazer espetacular, um caminho para um modo criativo de existência e de leitura de mundo.


É evidente uma tentativa de homogeneização da sociedade por parte do sistema capitalista que vivemos. Quanto mais parecidas as pessoas, mais previsíveis. Mais fácil de vender os produtos da moda, de prever e ditar desejos, de controlar ações e comportamentos. As redes sociais e a internet contribuem para a produção dessa massa homogênea de gosto e opinião, ou pelo menos formata inúmeras vertentes da mesma coisa. Sem romantizar a arte, ou crucificar a internet, divago sobre uma tentativa de busca das nossas autenticidades, dos pequenos detalhes do dia a dia, de um retorno a um real palpável e ao alcance de nossas mãos. Talvez uma desmecanização ou um lampejo de alegria nos dias cada vez mais nublados do mundo em que vivemos.


A casa vira cenário. Os momentos viram cena. Roupas velhas são agora figurino. O diário da pandemia vira dramaturgia. O que disso tudo pode virar história? Podcast? Temporada virtual? Cansei. Nunca gostei desse quarto. Agora tenho que trabalhar aqui. Como torná-lo mais atrativo? Não tenho dinheiro. Rearranjo os móveis, realizo consertos, recrio nichos. Tenho tinta, fitas, objetos aleatórios. Sou só eu ou guardo tudo que imagino ter um potencial cênico? Preciso de um espaço de ensaio. Onde? O que? Não sei, as velhas temáticas não fazem mais sentido. O que eu quero dizer? Quem eu sou? Por que tudo isso? Esquece. Eu quero me divertir. Farei histórias para mim mesma. Quem mexe com as mãos, ocupa a cabeça. De repente tudo parece estar flutuando. As coisas me olham e ganham vida. Meu mundo se rearranja.


O Teatro de Formas Animadas é a linguagem teatral que se aprofunda nos meandros da animação da matéria inerte. Dar ânima, dar alma, dar vida a algo que não tem.

Não pretendo aqui achar as definições e terminologias exatas, mas apenas introduzir esta tarefa do animador na busca pela vida das coisas. Simular emoções, impulsos, intenções, pensamentos. Transferir, traduzir, propagar as energias do próprio corpo para um corpo outro e fazer nascer uma nova presença. Para brincar de deus, há alguns macetes: achar o eixo, o olhar e o gesto das coisas; ter precisão e limpeza nos movimentos; conjurar respirações, triangulações e ritmos para construir a ilusão de vida. Na parceria com as coisas, o artista se adentra numa imensidão de novas possibilidades.


Um dos efeitos do trabalho com as diversas formas animadas é uma certa mudança de olhar sobre o mundo ao redor. As pessoas viram bonecos. Os objetos se antropomorfizam. Um simples rajar de vento que bate na cortina constrói narrativas na sala de casa. Cresce uma mania de buscar formas familiares ou que se assemelham ao humano em tudo que vemos, e isso acende o conceito de Pareidolia:



pa·rei·do·li·a Significado de Pareidolia¹

substantivo feminino Modo de interpretar um estímulo vago e incerto, atribuindo-lhe um sentido ou significado já existente, geralmente se refere à atribuição de formas às nuvens ou à tentativa de dar sentido a sons desconexos. Etimologia (origem da palavra pareidolia). Para + do grego éidolon, ou, “fantasma” + ia; pelo inglês pareidolia.


Pareidolia de Hermes Perdigão

Para além de enxergar formas conhecidas nas nuvens, a pareidolia facial se caracteriza como o ato de ver rostos em artefatos comuns do nosso cotidiano. Uma composição de formas dispostas mais ou menos como uma face pode dar cara e personalidade a um tanque, a um relógio, a uma tomada, a uma mala ou até a um grão de pipoca. A disposição proposital dessas formas é recurso recorrente na construção de objetos e bonecos animados, e evoca o estranho familiar de Freud que discorre sobre esse estranhamento encantatório quando reconhecemos uma forma familiar em algo que não tem vida. E, então, o mundo ao redor se desdobra em diversos outros mundos e narrativas.


E é neste embalo de ver vida nos objetos, histórias em coisas, transitando por um olhar “pareidólico” (e neologista) sobre a vida, que o FAZER teatral se transforma em um ESTAR teatral, um modo criativo de existência. Modo este que não é nenhuma novidade. Já se sabe que o professor de arte não só ensina como inspira os alunos pelo seu modo inventivo de ser e de pensar. Que as roupas quase figurinos que muitos artistas usam no seu dia a dia se tornam um modo alternativo de se vestir. Que os grupos e coletivos, para além de suas produções espetaculares, ensaiam novas formas políticas de se relacionar, de se organizar, de se desierarquizar. Mas, é no meio de um isolamento pandêmico, que nos confina a micro espaços e nos relega a frieza do distanciamento social, que esta forma criativa de estar no mundo pode continuar inspirando nossas criações e colorindo nossa vida.


E se isto tudo é sonhar demais, tudo bem. Acho que já entendi que há sempre uma dose de sonho e frustração no coração de todo artista. Deixemos Quintana² finalizar:


Se as coisas são inatingíveis... ora!

Não é motivo para não querê-las...

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!


¹ Dicionário Priberam. Disponível em: <https://dicionario.priberam.org/pareidolia.> Acesso em: 3 fev 2021.

² Poema Das Utopias, de Mário Quintana. Publicado no livro Espelho Mágico de 1951.

Liz Schrickte é atriz, designer e bonequeira e se interessa em explorar as relações entre o ator e o objeto e suas possibilidades imagéticas na criação cênica. Doutoranda em Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina, é Mestre em Teatro pela Universidade de Évora (Portugal) e atriz formada pelo Teatro Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais. Participa do grupo mineiro Pigmalião Escultura que Mexe desde 2009 como atriz, marionetista e professora.








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