PARA QUE FAZEMOS DESIGN DA PERFORMANCE?

Atualizado: Jun 18

Por Tereza Bruzzi


Muito se tem comentado sobre as perspectivas prático-teóricas que envolvem o campo da visualidade do espetáculo. Esse assunto, que perpassa a cenografia, o figurino e a iluminação, ao longo dos anos, principalmente a partir da quadrienal de Praga, foi nomeado como Design da Performance. Esses campos que são múltiplos, cujas áreas são diversas, possibilitam (e necessitam de) um conhecimento transite pelos vastos percursos do teatro, da arquitetura, das artes visuais e da comunicação. Todavia, um outro questionamento se faz necessário: o porquê de o encontro acontecer, sobretudo, nas manifestações performáticas tem sido minha investigação como professora no curso técnico de teatro no Teatro Universitário da UFMG.


Em 2014, quando assumi as disciplinas relacionadas ao design da performance no TU, existia, por parte da Escola, uma demanda por um profissional que ministrasse os conteúdos de produção técnica teatral, os de produção executiva e que também fizesse essas mesmas funções para a criação e produção da formatura, além das atividades de extensão da escola. Ao mesmo tempo, foram incluídas as disciplinas “Percepção e Apropriação do Espaço” e “Visualidades do Espetáculo” na matriz curricular do curso, as quais têm sido constantemente renovadas, além de compor os focos do meu maior interesse como professora.


Na tentativa de desenvolver uma escuta mais apurada pelos estudantes, criei estratégias para que essas áreas fossem pertinentes às suas atividades profissionais futuras. Pretende-se que o aprendizado se dê considerando a exposição dos estudantes à experiência estética e espacial, cuja finalidade potencialize a criação como atores e atrizes, bem como ampliar a investigação no campo do design da performance, ou seja, que sejam capazes de criar os espaços da cena.


Para o primeiro ponto, poderia desenvolver aulas técnicas, objetivas e específicas, mas as condições físicas do espaço da Escola deixariam essas aulas comprometidas. Iniciei, então, uma investigação com os alunos na contramão dos trabalhos convencionais, que colocam o cenógrafo, o figurinista, o iluminador e o diretor de arte à disposição da montagem, da direção formal e tradicional que trata esses profissionais.


Assim, para abordar todas essas questões no formato dessas disciplinas, seguindo pedagogicamente os objetivos traçados e pesquisados, fazia-se necessário permitir a experimentação dos alunos na própria criação poética, espacial, estética e visual a partir do design da performance.

Em FERAL (2009), a performance é uma manifestação que ganha espaço para além das manifestações artísticas, assumindo o caráter performativo no campo cultural. Desse modo, a noção de performance também é compreendida nos esportes, nas festas populares, no jogo, nas cerimônias religiosas, nos ritos e no cinema. Aqui, especificamente, interessa perceber o ato performativo no espaço, nos ritos e na cidade.


Tradicionalmente, essas experiências têm sido encaradas de forma periférica nos cursos de formação de atores, mas se tornam, ao meu ver, particularmente significativas, haja vista que, cada vez mais, há uma nova maneira de se pensar a cena e, principalmente, o lugar, conforme discute o teórico Jean Jacques Roubine (1982) em seu livro "A linguagem da Encenação Teatral" no final do século XX. Se Roubine já demanda a espacialização e o lugar como um elemento determinante da cena em Lehmann (2007, p.18) um teórico referência no teatro contemporâneo (dito teatro pós-dramático), diz:


Teatro significa tempo de vida em comum que os atores e espectadores passam juntos, no ar que respiram daquele espaço em que a peça teatral e os espectadores se concentram frente a frente.

Se temos a espacialização e sua performatividade como grande nova diretriz no teatro contemporâneo, as disciplinas vinculadas ao espaço e ao design da performance foram deslocadas da forma vista até o início dos anos 2000, cujo objetivo era estar a serviço da interpretação, e foram colocadas de maneira a proporcionar encontros com os espaços e possibilitar pesquisas cênicas-performativas a partir deles.


Para falar um pouco do teatro e do espaço, acredito ser importante consideramos André Carreira em seu texto Ambiente, Fluxo e Dramaturgias da Cidade: materiais do teatro de Invasão. Para o CARREIRA (2018), o teatro invade e se apropria da cidade através de análises típicas do espaço urbano, como uma ação política, além de tomar a cidade como um campo simbólico, no qual a ação dramática se instala, criando uma ruptura com os fluxos do cotidiano. Ora se em CARREIRA (2018) o teatro invade a cidade uma vez que o mesmo não faz parte naturalmente dela, nas disciplinas aqui em pauta assuntos como fluxo, espaço urbano, percepção arquitetônica e apropriação são também discutidos, porém na escala arquitetônica da Escola, redefinindo o ambiente, interferindo nos fluxos convencionais, modificando o modo de vermos o espaço da Escola.


Repensar o lugar onde estamos foi uma das finalidades dos projetos desenvolvido em 2018 pelos alunos do primeiro e segundo ano que resultou em dois grandes trabalhos intitulados “13 propostas para um solilóquio” (turma do 1º ano) e “linhas subjetivas” (turma do 2º ano). Esses trabalhos partiram de um ponto inicial comum: o ato de verbalizar o que nos passa pela consciência (solilóquio) - primeiro ano - e o feminino - segundo ano. Enquanto o primeiro ano estudou temas relacionados ao espaço, à cidade, ao patrimônio cultural e aos corpos dos atores, os alunos do segundo ano, além do aprofundamento nos temas mencionados, estudaram elementos compositivos cromáticos (cor-luz e cor pigmento), a roupa, o figurino, a cenografia e suas técnicas.


Fotografias: Ariane Lazário


Os alunos são livres para apropriar, desconstruir ou até negar o tema inicial proposto. Afinal, não existe apriori ou uma narrativa a ser dita. Abole-se a narrativa convencional, tradicional. Ela é colocada em outro plano, em outro relevo, deslocando o foco para aqueles corpos e suas experiências nos locais disponíveis.


Os alunos pensam (ou até mesmo se colocam) antes de tudo, na observação do espaço e suas potencialidades, criando uma dramaturgia do espaço. Conhecer os lugares, estar neles, entendê-los, poder sentir-se dono desses espaços. Sob esse argumento de rompimento dos espaços das suas funções iniciais, abrem-se os poros, como diria Carreira (2018), para outras percepções e relações cênicas.

Além disso, o acontecimento cênico ou performático exige dos proponentes uma atitude executiva, desde o domínio do conceito até sua capacidade de experimentação e execução. São processos sempre novos e de pesquisa cuja troca de experiências conta e ajuda na execução das ideias. Por isso, a meu ver, cabe ao professor expor os processos criativos e acompanhá-los, restaurando a importante troca entre essa relação mestre e aprendiz. Criação não se ensina, mas se aprende através de desafios que vamos - nesta parceria professora e aluno - vivenciar. As pesquisas nunca estarão integralmente finalizadas. Tudo se demonstra como um desafio constante: seguindo os desejos e anseios, os aprendizados acontecem. Desse modo, as mais diversas manifestações da nossas tradições culturais aparecem - pintar, bordar, costurar, filmar, fotografar, cortar madeira, tingir roupa e o que mais vier. Assim, constituímos um olhar estético, uma capacidade técnica e uma possível relação com o espaço.

Referências

  • CARREIRA, André. Ambiente, Fluxo e Dramaturgias da Cidade: materiais do teatro de Invasão. Revista O Percevejo, UniRio, Rio de Janeiro, 2018.

  • LEHMANN, Hans- Thies. Theatro Pós- Dramático. Trad, Pedro Sussekind. São Paulo: Cosac&Naif, 2007.

  • RATTO, Gianni. Antitratado de Cenografia: variações sobre o mesmo tema. São Paulo: Editora SENAC, 1999.

  • ROUBINE, Jean-Jacques, A linguagem da encenação teatral. Ed. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1982.





Tereza Bruzzi é arquiteta, cenógrafa, figurinista e professora do Teatro Universitário da UFMG.




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