TEATRO – O QUE SERÁ?

Atualizado: Jun 18

Considerações para um reencontro em quatro tempos


Por Rogério Lopes



Tempo 1 – IMAGINAR


Neste texto, ao invés de trazer certezas e formulações muito elaboradas, faço algumas considerações provisórias sobre a possibilidade de retomar as atividades didáticas com as alunas e os alunos da disciplina prática de Interpretação Teatral III do Teatro Universitário da UFMG. Ricardo, Nanci, Victor Nascimento, Victor Alexandre, Akino, Kalu, Lorena, Larissa, Letícia, Nayra, Osmar, Thâmara, Bianca, Barbara, Graciele, Felipe e Jéssica, penso em vocês enquanto escrevo, torcendo para que todos estejam bem e com saúde. Penso também nos outros tantos estudantes, ex-alunos e ex-alunas do TU, meus alunos e minhas alunas da pós-graduação da Escola de Belas Artes e demais companheiros e companheiras de uma profissão que se encontra, agora, praticamente inviabilizada.


Nessa quarentena, que tem nos mantido afastados há quase três meses, parece-me inevitável que nos perguntemos sobre o que será do teatro. E imagino que vocês, enquanto alunas e alunos, estarão pensando como nossas aulas retornarão. O que o professor X ou Y da disciplina W ou Z fará? Mas, diante de um contexto de tanta incerteza em que estamos vivendo, espero que não se assustem com a minha sinceridade em dizer que não tenho ideia. Talvez, eu até tenha algumas proposições. Mas, para mim, é muito importante saber de antemão que teatro vocês imaginam fazer em função dessa nova realidade em que vivemos. Essa questão parece-me fundamental, porque nos remete às noções de motivação, de vontade e de intencionalidade que são fundamentais para a constituição de uma ação teatral ou para alcançar um estado de jogo.


Imaginemos que, em condições ideais de acesso à internet, que imagino que nem todos vocês tenham, pudéssemos pensar numa possibilidade semipresencial de aulas. Hipoteticamente, eu poderia pedir para que cada um de vocês ensaiasse um monólogo em casa, para que eu pudesse, porventura, fazer uma supervisão nos encontros presenciais. Mas, qual a motivação que vocês teriam para fazê-los sem que tivéssemos qualquer horizonte de torná-los públicos? Talvez possamos fazê-los apenas como exercícios sem plateia e eu deveria abandonar minha resistência em aceitar que estamos fadados a monologar sozinhos, mesmo compreendendo a necessidade das medidas de afastamento físico. Poderíamos pensar, também, em outras alternativas, como filmá-los e exibi-los em lives na internet, como tem sido feito por criadores brasileiros e estrangeiros, alguns dos quais devo abordar na última parte deste texto. Insisto, contudo, que para além de me perguntar se ainda sim estaríamos fazendo teatro, ou se esse seria o tipo de teatro em que acredito, tenho vontade de saber, primeiro, o que vocês pensam sobre isso? Afinal de contas, são vocês que estarão em cena. O que andam pensando cada um de vocês sobre o teatro?


O que será que será Que andam suspirando pelas alcovas Que andam sussurando em versos e trovas Que andam combinando no breu das tocas Que anda nas cabeças, anda nas bocas


Enquanto não posso saciar minha curiosidade, expressa pelos versos da música de Chico Buarque, na semana em que a UFMG dá início a um série de discussões que visam planejar uma futura retomada de atividades, pensei em trazer diferentes questões e pontos de vistas com os quais tenho me deparado em minhas leituras sobre o teatro na pandemia. Minha intenção é estimulá-los a expressar quais as suas inquietações e descobertas que merecem nota neste momento, assim como sempre peço no início e no final de minhas disciplinas. Trarei também alguns exemplos de criadores do teatro que, com suas proposições cênicas, podem nos ajudar a encontrarmos juntos uma maneira de retomar nossas atividades didáticas e criativas. Vocês vão notar que mais do que preocupações com os procedimentos didáticos a serem adotados, estou mais interessado numa questão que me parece central para caracterizar aquilo que denominamos teatro, que seria a manutenção da relação presencial com o público.


Mais do que nunca, me parece que precisaremos juntar esforços para imaginar. Para imaginar o que será daqui pra frente, já que o caminho a seguir não está evidenciado ainda. Se por um lado isso causa um desconforto, por outro, enquanto um professor e criador, parece-me também instigante a possibilidade de criarmos, imaginarmos e experimentarmos todas as possibilidades que nos aprouver. Desde que, como sempre observo em sala de aula, respeitemos a integridade física, moral e psicológica de todos os envolvidos, além de resguardarmos o patrimônio público. Mas, alerto que, mesmo mantendo o otimismo, fico me perguntando se diante da necessidade de respeitarmos as medidas de distanciamento físico, que apontam em direção oposta às necessidades da criação teatral, se será possível encontrarmos maneiras de garantir a expressão daquilo:


Que vive nas ideias desses amantes

Que cantam os poetas mais delirantes

Que juram os profetas embriagados

Que está na romaria dos mutilados

Que está na fantasia dos infelizes

Que está no dia-a-dia das meretrizes

No plano dos bandidos, dos desvalidos

Em todos os sentidos, será que será




Tempo 2 – SE AFIRMAR


Dos textos que li no decorrer desta quarentena que, infelizmente, parece estar longe de terminar, gostaria de começar por uma carta aberta do Conselho Teatral do Quebec no Canadá. Tive contato com ela, pois, como alguns de vocês sabem, antes da pandemia estava me preparando para realizar um pós-doutorado naquele país. Essa carta, que acabei traduzindo para o português e que também será em breve publicada no Blog Mistura, tem o sugestivo título: “Ceci n’est pas du théâtre”, ou “Isso não é teatro”. Confesso que fiquei, de certo modo, emocionado quando li, que, ao contrário de condenar o futuro do teatro a uma existência virtual, os membros daquele conselho optaram por reforçar o teatro como o local do encontro, de reunião de corpos e de almas, afirmando que “o teatro sobreviverá a esta crise. Ele se esforçará para enfrentar o medo do vazio. Ele será paciente, mas se necessário, ele imaginará maneiras inesperadas de nos unir para além de nossas telas”. Nem que seja distribuindo roupas de astronautas para o público sedento de proximidade, eles brincam.


Resolvi traduzir este texto, pois acho que vale a pena fazê-los conhecer o argumento que os autores apresentam sobre a necessidade de reconhecer que, ainda que a relação com a tecnologia possa ser bem vinda, não podemos ignorar que o teatro, assim como qualquer arte, tem características que lhes são peculiares. Reafirmando que “toda forma de fazer arte deve permanecer radicalmente livre”, os autores da carta reivindicam o direito de nos mantermos fiéis às artes da presença. “Não que elas sejam melhores que as artes digitais, mas porque sua natureza é outra e deve ser preservada”. É curioso que essa carta aberta venha justamente da cidade de Montreal, que reivindica o título de capital mundial da arte e da criatividade digital. Não é à toa que são de lá o Cirque du Soleil e o diretor teatral Roberto Lepage, conhecidos pelo forte diálogo com a tecnologia digital em seus espetáculos. Parece-me bem sintomático que venha de uma comunidade acostumada a lidar com a tecnologia digital no universo das artes, a recomendação de que precisamos levar em conta as especificidades de cada tipo de manifestação artística, ressaltando a necessidade de reafirmarmos as características próprias do teatro.


Nesta mesma direção, parece ir o argumento apresentado por Pedro Bennaton (2020), um dos integrantes do Erro Grupo de Santa Catarina, num artigo muito instigante que tem o sugestivo título: “O teatro como respirador social: reflexões sobre arte presencial na pandemia”. Seu texto, logo de cara, começa com a seguinte advertência: “importante dizer que esse texto é de autoria de alguém que pratica teatro de rua, performance e intervenção urbana desde 2001”. Essa advertência me parece fundamental para compreender o argumento que ele desenvolve no texto, com o qual me identifico totalmente, por também ser um criador que tem a rua e toda sua dimensão convivial como espaço de criação prioritário. Para o autor,


o teatro sobreviverá em outros espaços sociais, em outras esferas, ao invés de se submeter ao espaço arquitetônico e ao Capital. Se as pessoas (re)existirem, também (re)existirá o convívio social e, desta maneira, (re)existirá o teatro. Mas um teatro que não poderá ser quantificado por meio dos olhos, “invisíveis”, do mercado. Um teatro que não gerará números, que não medirá a sua eficácia e necessidade pela quantidade de pessoas presentes por sessão. Do número de atendimentos como se fossem curtidas e visualizações. Mas um teatro que criará experiências vitais, e não virtuais (BENNATON, 2020).


Confesso que uma das primeiras alternativas que me ocorre quando penso em retomar as atividades didáticas no TU é trazer para sala de aula os procedimentos criativos para espaços públicos que venho pesquisando faz anos. Ou, de maneira mais radical, fazer da rua e dos demais espaços abertos da cidade a nossa sala de aula. É evidente, contudo, que qualquer possibilidade como essa só poderia ser minimamente aventada quando as medidas de distanciamento físico forem reduzidas.


A vantagem desses tipos de práticas é que, além delas se darem no espaço aberto, não geram aglomeração de público, pois implicam em micro situações cênicas que acontecem no cotidiano das cidades, muitas vezes executadas individualmente pelos atores, dispersos num determinado espaço, que pode ser uma rua, uma praça e etc. Deve-se ter um treinamento para conseguir atuar, respeitando e dialogando com as características de cada local. Tanto impostas pela arquitetura da cidade, como pelas suas normas de trânsito ou peculiaridades do convívio social de cada localidade. Como os atores agem em meio aos transeuntes, vão apenas ter que se adaptar, como os demais, às normas sanitárias vigentes em cada momento. Por isso, parece-me potente a proposta do Pedro Bennaton (2020) de perceber o teatro e as demais formas cênicas realizadas na rua como uma espécie de respirador social, uma vez que podem continuar nos desafiando e fazendo-nos questionar a maneira como convivemos em nossas cidades.


No caso do trabalho que desenvolvo, hoje concentrado no Teatro&Cidade – Núcleo de Pesquisa Cênica do TU, há uma peculiaridade que não poderia deixar de destacar, que é o mascaramento como principal dispositivo de criação. O uso que fazemos da máscara no grupo está menos voltado para as técnicas clássicas de atuação com máscara no teatro e mais para verificar o que acontece no cotidiano quando o rosto se torna incógnito. O que muda na relação das pessoas ao estarem diante de um mascarado, de um elemento ficcional inserido na realidade.


Os Floristas direção e foto Rogério Lopes – Teatro&Cidade- Núcleo de Pesquisa Cênica


O curioso é que, quando a pandemia foi declarada, eu estava justamente pesquisando diversos projetos de leis em todo o mundo que tinham como objetivo a proibição do uso de máscaras em espaços públicos, em função de diferentes manifestações políticas e sociais. Paradoxalmente, por causa da pandemia, as máscaras acabaram se tornando obrigatórias, mudando toda uma percepção desse objeto tão caro ao teatro e que não cessa de nos trazer questões. Outro dia, me dei conta, por um comentário da professora Tereza Bruzzi, que as pessoas não sabem minimamente como estamos nos sentindo, se sorrimos ou não, em função do uso da máscara de proteção. A compreensão dessa nova expressividade mascarada da população me parece bastante instigante para pensarmos cenicamente.


A esse propósito, gostaria de sugerir o texto da professora Sabrina Sadlmayer (2020) do departamento de Letras da UFMG. Ela não só apresenta reflexões potentes para pensar o mascaramento no contexto atual, como nos apresenta uma coletânea robusta de fotos de mascarados realizadas neste período da pandemia, com exemplares do mundo todo. A autora argumenta que a intenção de todas essas máscaras iria para além do jogo e da brincadeira. Elas “estampam uma vida nua e interrogam a reclusão social. Há desejo de passear pela crise rindo, e não chorando, como cantava Cartola. As máscaras parecem não ter cep’s. Saíram dos hospitais e das clínicas e perambulam” (SADLMAYER, 2020).


Pedro Bennaton (2020) também faz referência a uma espécie de baile de máscaras, no qual as ruas e os espaços comuns se transformaram. Neste caso, para reforçar seu argumento de que os códigos teatrais continuam muito presentes e necessários ao nosso cotidiano e que poderão, inclusive, contribuir para que, num futuro próximo, façamos mais teatro do que antes. Além de uma perspectiva otimista com a qual partilho, o autor recorda que há procedimentos criativos, alguns muito antigos e que são próprios do universo teatral, para os quais poderíamos recorrer, como por exemplo o Teatro Lambe-lambe, “no qual uma única pessoa assiste através de uma caixa um manipulador de formas animadas, tão ou mais asséptico que uma tela LCD, porém indiscutivelmente mais vivo” (BENNATON, 2020).


A minha intenção até aqui foi a de reconhecermos a necessidade de valorização das peculiaridades do fazer teatral antes de cedermos, para além do que é preciso, em direção à interação com as interfaces digitais que, por vezes, seguem princípios mercadológicos, que, a longo prazo, poderão ser prejudiciais ao campo de trabalho na nossa área. Contudo, não posso deixar de levar em consideração a viabilidade de algumas das experimentações que têm surgido no sentido de articular o teatro com as realidades virtuais e a tecnologia digital durante a pandemia, como pretendo abordar a seguir. Afinal, ninguém realmente sabe,


O que não tem certeza, nem nunca terá O que não tem conserto, nem nunca terá O que não tem tamanho O que será que será



Tempo 3 – SE RECONHECER

Antes de tudo, talvez fosse bom lembrar que o diálogo com a tecnologia digital está em nosso meio teatral faz muito tempo. Para citar só um exemplo emblemático no caso brasileiro, temos o Zé Celso e o Teatro Oficina, que está com vários espetáculos disponíveis on-line neste momento[1]. Há anos, o grupo integrou videomakers dentro dos espetáculos, com os registros sendo exibidos durante as apresentações num telão, em tempo real, no próprio teatro e, também on-line. Cito este exemplo para dizer que o que me interesso em discutir não é exatamente o aspecto inovador destas experiências teatrais que tem surgido de forma emergencial em resposta à pandemia. A questão mais importante parece ser o quanto nos reconhecemos em cada uma delas. O quanto essas experiências nos alimentam como criadores. Muito antes de tomá-las como exemplos de modelos a serem seguido, parece-me fundamental pensar o quanto cada uma delas nos toca. E, por isso, repito, me interessa saber que tipo de teatro vocês, alunas e alunos, estão interessados em fazer.


Fala de Zé Celso na abertura do espetáculo Roda Viva em 5 de abril de 2019

Câmeras e edição Igor Marotti


Retorno novamente à Montreal para trazer um exemplo de como estão sendo realizadas experiências de produção teatral, durante a pandemia, que se baseiam numa tradição local de rádio-teatro, que fez muito sucesso na década de 40. O diretor Serge Denoncourt, quando se deparou com a necessidade de interromper a estreia da peça Senhorita Julia de Strindberg, em função da quarentena, resolveu não a transmitir em vídeo pela internet, mas sim fazer uma adaptação para rádio-teatro. O que me parece importante destacar dessa experiência é que, para fazer a gravação desta peça para o rádio, aos registros de atuação dos atores foram acrescidos uma série de aparatos de efeitos sonoros próprios de produção de rádio, estabelecendo um diálogo entre o universo do rádio e do teatro. Permitiram, também, um distanciamento de segurança dos atores, uma vez que eles atuaram no mesmo espaço, mas respeitando o distanciamento uns dos outros.


PHOTO : RADIO-CANADA / IVANOH DEMERS[2]

No site da Radio-Canadá, é possível encontrar outras seis peças em podcast[3], formato que tem se popularizado no Brasil em diversos veículos de impressa, não exatamente para teatro. Mas essa seria uma possibilidade para nós? O que pensam as alunas e os alunos do projeto de extensão “Teatro no Ar” que, sob a coordenação da professora Helena Mauro, mantêm um programa sobre teatro na Rádio UFMG? Seria uma alternativa experimentarmos o rádio-teatro, ou numa versão bem brasileira, retomarmos as radionovelas?


O próximo exemplo que gostaria de citar é daqui de Belo Horizonte: a transmissão ao vivo realizada por redes sociais do espetáculo “Sapato bicolor”, com atuação de Fabiano Persi e direção de Polyana Horta[4]. Com poucos recursos de luz e de som, ele recriou o espaço do espetáculo para um ambiente doméstico. Dessa maneira, o ator retomou um pouco da própria origem do espetáculo que fora produzido inicialmente como uma cena curta para o projeto La Movida, que normalmente acontecia em residências adaptadas para serem bar e micro salas de teatro.



De Portugal, trago outro exemplo de uma adaptação também de última hora, realizada em função da suspensão da estreia devido às medidas de quarentena. Neste caso, o grupo Teatro de Garagem optou por apresentar a peça em pequenos episódios, por um canal da web, que se encontra também disponível on-line. Os atores registram, cada um de suas casas, suas respectivas atuações, reinventando as personagens a partir das especificidades da nova condição. No site, eles tratam a peça como,


um objeto teatral registrado por vídeo-conferência. Está presente a tensão/pulsação entre os filmados, o que filma e o Mundo lá fora, proibido, perigoso. Os ambientes de quarentena em que cada ator exercita a sua reinvenção da personagem e o ambiente de escolha, de registo e edição vídeo[5].


Essa experiência me fez lembrar que já faz um tempo que a equipe do blog Mistura, que é outro projeto de extensão do TU, criado e coordenado pelo técnico administrativo em educação Jefferson Góes, vem realizando registros de cenas produzidas pelas alunas e pelos alunos da escola e postando no canal do Youtube do Teatro Universitário. Um dos responsáveis pelas filmagens é Gabriel Beltrão, que é videomaker, ex-aluno do TU e aluno da graduação em teatro da UFMG. Segundo ele, o interesse inicial era de realizar um registro dos trabalhos e contribuir com o portfólio das alunas e dos alunos. Mas, ele explica que buscou estabelecer um diálogo com elementos da linguagem cinematográfica para que estes registros ficassem visualmente mais atrativos. Ele procurou identificar, por exemplo, como cada dramaturgia da cena influenciava na maneira de realizar as filmagens. Portanto, não foi realizado apenas um registro puro e simples, mas houve também uma tentativa de traduzir a cena teatral para outra linguagem. Ele cita, por exemplo, que utilizou mais de uma câmera para tornar a cena mais dinâmica, já que nem sempre era possível captar a mesma energia que o ator transmitia quando estava em cena diante do público.


Novamente, me pergunto se não seria o caso de aproveitarmos iniciativas como estas, já produzidas pela escola, para tentarmos encontrar uma saída para as limitações com as quais a pandemia está nos obrigando a conviver. Apesar de, como apontei no início deste texto, o teatro filmado não ser a minha primeira opção, ou aquela que mais me agrada, mas poderia ser uma possibilidade de repensarmos nossas práticas dentro do TU, mesmo que provisoriamente.


A crítica e curadora teatral Daniele Avila Small (2020) apresentou recentemente na revista Questão de Crítica uma problematização interessante sobre nossa maneira de lidar com o teatro filmado. A autora começa por destacar a importância que o registro em vídeo teve em todo o seu processo de formação e continua tendo até o presente momento, enumerando as obras com as quais pode ter contato em função dos registros audiovisuais. Ela chama a atenção para vários repertórios de grupos importantes, que disponibilizaram recentemente seus conteúdos gratuitamente na internet. De fato, um aspecto importante. Eu mesmo acabei de assistir ao registro na íntegra de uma montagem dirigida por Brecht de Mãe Coragem, disponibilizado no site do Berliner Ensemble. Mas, para além disso, o foco da autora estava em apontar que talvez não faça muito sentido ficarmos discutindo o que é ou não teatro, para ela:


Diante das questões da arte, são inócuas as perguntas que demandam “sim ou não” como resposta. Talvez tenhamos que responder “sim e não”, afinal, não podemos retirar do âmbito do teatro algo que foi concebido como teatro e que só faz sentido se for percebido e pensado como teatro. Um registro de uma peça é algo que pertence, inevitavelmente, à cultura do teatro, sua história, sua documentação, sua esfera de conhecimento. (...) O teatro filmado não é uma ameaça, não está aí para substituir o teatro ao vivo (SMALL, 2020).


Ela segue provocando ao afirmar que possui uma percepção mais viva de espetáculos que só viu por vídeo do que peças que assistiu presencialmente. Isso porque, segundo ela, “as mediações não sequestram a autenticidade da recepção”.


Apesar de fazer ótimos apontamentos sobre importância dos registros teatrais, a autora centra seu argumento na maneira com que as pessoas recebem as obras. Enquanto eu, como professor e ator de teatro, estou mais preocupado em preservar a dimensão convivial proporcionada pelo fenômeno teatral, a relação com a plateia, o frio na barriga que surge antes de cada apresentação. Pelo menos foi por isso que me interessei pelo teatro. Além, é claro, do seu caráter efêmero, que faz com que uma apresentação nunca seja como a outra, pois o público também nunca será o mesmo. Essa experiência o vídeo não nos oferece enquanto atores. O que falta no virtual é o que mais me interessa como fazedor de teatro, a troca com o outro, olho no olho. Não é à toa que prefiro o teatro de rua e as intervenções teatrais, uma vez que possibilitam essa experiência de troca ser ainda mais intensa.


Tempo 4 - RESISTIR


Vou ficando por aqui, dizendo das saudades de cada um de vocês. Das saudades daquele espaço, dos corredores e das salas do Teatro Universitário da UFMG, de uma escola pública que tem cada vez mais se tornado plural e diversa. Fico na expectativa de que, em breve, possamos, em condições seguras, voltar a fazer o que tanto gostamos: o teatro. Que tenhamos liberdade e saúde para que possamos reinventar ou simplesmente continuar a fazer teatro com todo prazer e com toda dor que o fazer artístico implica, mas sempre com o máximo de cuidado e carinho com o próximo.


Ah! E se na escrita desse texto me ocorreu Chico Buarque, que tanto cantou a favor da liberdade, é porque acho importante lembrar que não é somente com as limitações impostas pela convivência com o coronavírus que temos de lidar. É preciso pensar que o que será do teatro e de todos nós também depende de conseguirmos espantar antigos fantasmas de um passado recente de nossa história, que teimam em nos assombrar. Reforçando a necessidade de nos cuidarmos e garantirmos nosso direito de continuar nos expressando por meio dessa ferramenta tão poderosa que é o teatro. Afinal, um convívio social saudável depende da liberdade e das garantias dos direitos enquanto cidadãos. Como dizem os integrantes do movimento ATAC pela cultura: “Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, cantemos”! Cantemos dentre muitos, os versos desta canção do Chico escrita em plena ditadura e que, ainda hoje, nos intriga e permite tantas interpretações. Seguindo continuamente a nos convidar a questionar:


O que será que será

Que todos os avisos não vão evitar

Porque todos os risos vão desafiar

Porque todos os sinos irão repicar

Porque todos os hinos irão consagrar

E todos os meninos vão desembestar

E todos os destinos irão se encontrar

[1] Canal do grupo Teatro Oficina Uzyna Uzona

https://www.youtube.com/playlist?list=PLTN97D_XfEQFZzHmaC03ya9qOB0cNSBUu [2] Reportagem sobre a peça (em francês):

https://ici.radio-canada.ca/nouvelle/1674514/radiotheatre-strindberg-comedien-dubreuil?depuisRecherche=true

[3] Podcasts com peças de teatro (em Francês):

https://ici.radio-canada.ca/premiere/balados/7448/theatre-sur-demande-spectacle-piece-comedien/episodes

[4] Registro da transmissão do espetáculo Sapato Bicolor do ator Fabiano Persi https://www.youtube.com/watch?v=KWRCplDbehc [5] Episódios do espetáculo Mundo Novo do grupo Teatro de Garagem: https://www.rtp.pt/play/palco/p7011/e463567/mundo-novo Canal do grupo Teatro de Garagem no Vimeo https://vimeo.com/teatrodagaragem/videos

Referências






Rogério Lopes é diretor, ator e professor do Teatro Universitário e do Programa de Pós-graduação em Artes da Escola de Belas Artes da UFMG.

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