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RITA CLEMENTE

Direção Geral:

“Lisístrata: A Greve do Sexo” (Cefar(t)) (1997)

“O Rinoceronte” (Cefar(t)) (2007)

19:45! (Cefar(t)) (2015)

…Incomoda, Incomoda, Incomoda… (Cefar(t)) (2021)

 

“Quando eu comecei a estudar Teatro no Palácio das Artes, eu não fazia a menor ideia de que eu poderia fazer um curso de arte, principalmente para ser atriz. Isso não estava nos meus planos, aliás, eu nem tinha plano nenhum. O que eu sabia é que eu deveria fazer uma faculdade, deveria arrumar um trabalho para fazer uma faculdade, e eu imaginava na época que eu faria Letras num dado momento da minha vida (até fiz um semestre). Eu resolvi fazer o teste, fiz a inscrição muito assustada, muito sem saber o que fazer, eu me lembro até um pouco tem uma sensação, uma certa memória dos corredores do teste, da sensação de ser avaliado em uma coisa que você na verdade não sabia ainda nem apreciar, não tinha formação alguma. Na verdade, eu tinha algumas experiências em oficinas e com pequenos grupos em Nova Lima. Eu tinha então 19 anos, e para o meu espanto eu passei, porque eu me lembro que a minha cena era muito ruim. Eu peguei um pequeno texto de  Artur de Azevedo, uma coisa antiga, fiz aquilo da maneira mais exagerada ou tacanha, essa é a impressão que eu tenho, é a memória que eu tenho disso.

Portanto eu decidi, quando eu decido fazer uma coisa eu faço até o osso, não tem jeito, eu preciso saber porque que de alguma maneira as energias todas me levam para esse lugar e fiz o curso, em alguns momentos com muita dificuldade mesmo financeira para estar lá e outros momentos com a generosidade de diretores da escola, Entraram duas turmas nessa época (acho que se chamavam turma A e B) e no terceiro ano, essas turmas se juntam, e a gente fez, primeiro, o espetáculo Flor da Obsessão, com a direção e adaptação de Eid Ribeiro, e a segunda peça, também uma adaptação de textos de Brecht, com Luiz Paixão. Para mim, todas as duas experiências foram muitíssimo importantes. Assim, é claro que a gente tem conflitos, né? O tempo todo eu acho que ator vai ficando chato, no terceiro ano a gente já está mais chato, pouquinho mais chato e também, pensando para onde ir depois disso.

Tive muita sorte de poder continuar trabalhando no Palácio das Artes, só que trabalhando como professora. Comecei a dar aulas no curso para crianças e pré-adolescentes, isso também me ensinou muito. Um ano depois disso, já me chamaram para dar aula no curso técnico e, veja bem, eu tinha 24 ou 25 anos. Isso significa que muitos dos meus alunos na época eram da minha idade e isso não era um problema para mim, para falar a verdade, porque eu era realmente muitíssimo responsável e atenta ao fato de que aquelas pessoas estavam ali como eu estive querendo o melhor, querendo, não sei se é exatamente aprender, mas ter uma experiência que realmente fizesse sentido para elas e foi isso que eu tentei o tempo todo. 

Eu saí do Palácio como professora, mas voltei várias vezes para dirigir. A minha primeira direção lá foi Lisístrata, e eu ainda estava trabalhando lá. Depois eu volto e dirijo O Rinoceronte, depois eu volto e dirijo 19:45!. Fiz também muita assistência de direção enquanto professora. Nos últimos anos no Cefar(t) eu fiquei, praticamente, só nas produções, nas criações de montagens finais, acompanhando praticamente todos os espetáculos de alguma maneira. Foi bem legal. Foi uma experiência muito rica que me ajudou a pagar as contas, a achar que eu poderia trabalhar com isso e que tudo muda, é cíclico. E lá vou eu ao Palácio das Artes esse ano para dirigir uma turma de atores formandos, com muito carinho por eles, com uma sensação de me identificar de alguma maneira. Mas acima de tudo, o respeito por esse trabalho com a arte – não só com a arte teatral, mas fundamentalmente com a linguagem teatral – é o que me leva com mais segurança para trabalhos em escola. Saber que eu percebi, senti, saber que eu tenho uma experiência para passar e eu consigo sistematizar um pouco essa experiência e experimentar coisas que possam valer a pena e o que eu chamo de consistente de real.

Uma academia ou as escolas de Teatro são fundamentais. Eu entendo isso, para mim é muito importante a gente parar de criar deuses e heróis e mitos. Quem fala mal da academia está fugindo de alguma coisa, tem que melhorar demais, tem que dialogar demais. Acho que temos, nós brasileiros, um caminho de aprofundamento do que seria a técnica do ator brasileiro, e eu acredito muito que os estudos e as considerações que vão chegando a partir de obras que abrigam as nossos descendentes, nossos ascendentes, os nossos ancestrais, as nossas outras vidas passadas. E a nossa história enquanto nação, eu fico achando que esse movimento (e não estou falando de ativismos, não) pautado no radicalismo muda pouca coisa, mas muda alguém que abre espaços para vozes canceladas, vozes caladas pelo tempo, pelo preconceito de certas pessoas. Isso ajuda a gente a se reconhecer e a rever valores, isso é fundamental, principalmente se a gente não tem aquela atitude de colocar a nossa voz no lugar do outro. Nós temos muito que desenvolver, nós temos muito que rever o que chegou para a gente e o que a gente tem também para oferecer enquanto valor, valor de interpretação, valor de montagem, de criação, estética e ética sem precisar dizer não para Europa dizer não para América, não precisa. É uma espécie de antropofagia, mas e se antes de sermos antropofágicos, a gente conseguisse encarar melhor? Talvez seja bom, para a gente fazer uma digestão profunda, a gente ainda precisa comer o que somos. Comer o passado, para essa antropofagia funcionar de uma maneira autêntica.”

 

Rita de Cássia Clemente, destacada atriz, diretora e dramaturga mineira, tem vasta experiência em teatro e incursões em televisão e cinema, sendo reconhecida por sua pesquisa acerca das possibilidades de diálogo entre teatro e música. Na televisão, estreou como atriz no seriado “A Cura” (2010) e fez parte do elenco das novelas “A Vida da Gente” (2011-2012), “Amor à Vida” (2013), e “Liberdade, Liberdade” (2016), todas pela TV Globo. No cinema, atuou nos longas-metragens “Pequenas Histórias” e “Batismo de Sangue”, do diretor Helvécio Ratton. Rita é mestre em Artes e graduada em Música pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), formando-se, também, pelo curso de profissionalização de atores da Fundação Clóvis Salgado (Cefar(t)/FCS).

Foto: Acervo Pessoal

Última atualização: 07/07/2021