Sobre o projeto

Analu Diniz
Graduanda em Teatro (EBA) e aluna do Teatro Universitário da UFMG

Iniciado em novembro de 2020, o mapeamento de diretoras e assistentes que exerceram funções em montagens do T.U e do Cefar(t) surgiu da necessidade de reconhecer e rememorar o trabalho de profissionais das artes cênicas em duas das maiores escolas de formação de atores da capital. Para além do objetivo de documentar informações acerca das direções femininas nessas instituições, visa-se registrar as vivências das diretoras e assistentes de direção como trabalhadoras culturais, abrangendo suas trajetórias formativas e profissionais.

Vale destacar que, por meio deste mapeamento, análises quantitativas foram iniciadas, as quais instigaram questionamentos nos quais seguimos nos debruçando, a saber: as relações de desigualdades de gênero e lutas mulheres nos espaços das artes e cultura. Em seus quase 70 anos de história, a serem celebrados em 2022, o T.U. contabiliza cerca de 79 montagens, incluindo espetáculos de conclusão de curso e produções paralelas às formaturas, ocorridas com maior frequência entre as décadas de 50 e início dos anos 80. A escola reúne em seu repertório de espetáculos apenas 08 mulheres cisgênero na Direção Geral das montagens, com destaque para Haydée Bittencourt, que possui o maior número de direções na história da instituição – sendo ela, também, um dos motes para o desenvolvimento da pesquisa, visto que em 2020, se viva, completaria 100 anos. Já o Cefar(t), cujo curso de Teatro foi fundado oficialmente em 1986, conta apenas com 13 mulheres cisgênero na Direção Geral. Mesmo sendo um número maior em comparação ao Teatro Universitário, há de se pontuar o seguinte dado: desde a sua primeira montagem, em 1989, a escola realiza dois espetáculos de formatura anualmente (com exceção de 1998, quando houve apenas uma montagem), o que em 35 anos de história, nos leva ao total de 65 espetáculos. Ressaltamos que o termo Direção foi ampliado nas seguintes categorias, segundo as nomenclaturas das fichas técnicas dos espetáculos realizados por ambas as instituições: Direção Geral, Assistência de Direção Geral, Direção Compartilhada (coletiva ou codireção), Direções de Cena, de Ator e de Atuação, Direções Corporal e de Movimento, Direções Musical, Vocal e de Texto, e Direções de Arte e de Criação.

A Direção Teatral em seus primórdios foi concebida, majoritariamente, por figuras masculinas, cujo poder hierárquico era inerente (por vezes, de caráter autoritário). Como se deu, portanto, a transição para processos criativos que estabelecessem outros laços entre diretores e atores? Qual a diferença entre um(a) diretor(a) e um(a) encenador(a)? Quanto a inserção feminina nesta área: quais foram (ou ainda são) os desafios? Em quantas outras deve uma diretora se desdobrar para “provar” a qualidade de seu trabalho? Quando uma mulher assume este lugar, ela é vista como parte integrante do processo, com o mesmo reconhecimento, ou como “mandona”? Essas e outras perguntas seguem nos movendo pelo caminho da pesquisa, e nos possibilitaram discutir o mercado cultural sob uma perspectiva política, com números efetivos e que tendem a denunciar, por vezes, problemáticas de opressão e exploração de gênero em uma área cujas relações são tidas como horizontais.

A pesquisa segue em andamento, e visa reunir dados acerca de outras duas instituições públicas de formação tecnológica, pertencentes à Região Metropolitana de Belo Horizonte: o Centro Interescolar De Cultura Arte Linguagens E Tecnologias (Cicalt/Valores de Minas – Belo Horizonte) e o Centro de Capacitação em Artes Cênicas (CCP Artes Cênicas –Contagem).

O lançamento da página se dá no dia 11/09/2021, antecedendo o 101º aniversário de Haydée Bittencourt (in memorian). Estamos próximos de completar um ano de buscas, resgates e registros sobre trajetórias ímpares de artistas da cena belo-horizontina, naturais de Minas Gerais ou não, que tanto contribuíram para a formação de gerações de atrizes, atores, diretoras, diretores, pesquisadoras, pesquisadores, professoras, professores, enfim, profissionais que ratificam a identidade artística da cidade pelo Brasil e pelo mundo. Agradecemos, com muito carinho e admiração, ao Coletivo Mulheres Encenadoras que, juntamente à celebração dos 100 anos de Haydée, nos instigou a iniciar nossas pesquisas sobre figuras de grande importância para o teatro mineiro: mulheres diretoras que assinaram os seus nomes para além das montagens que realizaram, mas também, na história e na memória do fazer artístico nacional. A parceria com o coletivo ganhou forma por meio do convite para a mesa “100 anos de Haydée Bittencourt celebra mulheres nas direções das montagens do T.U. e do Cefar(t)”, que integra o projeto virtual “Mulheres Encenadoras em Rede”, com realização prevista para o dia 13 de setembro.