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CARMEN PATERNOSTRO

Direção:

"O Elogio da Loucura" (Cefar(t)) (1990)

 

"Eu lembro que o convite partiu do Walmir José, na época ele era o diretor do CEFART. E na época eu também tive a chance de escolher dois professores para acompanhar o trabalho, que foram: Lúcia Ferreira e Wilson Oliveira. Eu conheci a turma lá, in loco, quando fui fazer o trabalho. Eu percebi, porque eu tinha um grupo dedicado mais a dança, que eram alunos da turma de dança e do teatro (não sei se continua assim, em como a escola está agora). Então, eu tinha pessoas com muita experiência em dança e outros que eram muito bem formados com a linguagem teatral. Assim, querendo privilegiar essas duas coisas, fiz “O Elogio da Loucura” para aqueles que estavam muito fascinados por texto. Adaptei “ O Elogio da Loucura”, que é de Erasmo de Roterdão, e fiz a proposta. Para este trabalho, eu fiz uma pesquisa de gesto para saber quais eram os gestos usados na oratória antiga, desde o tempo de Cicero, a oratória usada para convencer as pessoas. E ainda hoje, nós vemos advogados, políticos, etc., usando estes gestos. O texto (O Elogio da Loucura) também tem, digamos, uma inflexão da perplexidade. Tenho muito fascínio por Guimarães Rosa, e na época, estava estudando Cara de Bronze (obra de Guimarães Rosa). Daí eu propus Cara de Bronze, com um trabalho muito voltado para o corpo, com figurino de Raul Belém Machado. Nós (os dançarinos) tínhamos capas imensas e elas no corpo, pareciam o homem a cavalo com esse movimento “Pra lá, pra cá. As prosas e as pausas.” Essa pesquisa, desse homem cavalo, que poderia ter essa proximidade com o bicho homem, a gente realizou numa fazenda de uma das alunas que nos ajudou, a Juliana Ribeiro, que tinha um sítio do jeito daquelas fazendas antigas. Com isso, a turma pode passar uma noite ao pé do fogão (a lenha), ouvindo histórias, contando histórias, lendo o texto. Foi uma vivência. Essa é uma característica do meu processo de trabalho. Proporcionar aos atores uma vivência muito forte. Isso facilita o trabalho para o intérprete e para quem dirige. Para a quebra do naturalismo, o ator fazia o papel dos vaqueiros, mas ele também fazia (o papel) os bichos também. Tinha uns movimentos muito enigmáticos de transferência de peso de um lado pro outro. Eles tinham observado também que, para descansar, o animal levanta o pé. Então, na encenação também tinha isso: “Ia prum lado, ia pro outro, levantava o pé” e ficou muito enigmático com as capas, um trabalho de Teatro Coreográfico muito bacana. E é por isso que eu considero que foi muito efetiva essa ida (para a fazenda). Acredito muito no diálogo do diretor com o intérprete. Eu sempre fui muito próxima e ainda participava das experiências. Por ser dançarina, por vir da área de coreografia, por entender que a palavra vem do corpo, que voz, gesto, isso tudo vem junto. Esse é o meu teatro. Muitas vezes eu experimento junto com os atores, para sentir mais loucura ainda, para a gente sentir mais excitação. Eu observo, sei exatamente quais as coisas que eu não gosto, que acho que não devem estar em cena, mas antes disso eu deixo os atores fazerem muita porcaria, muita brincadeira, muitos atravessamentos, até a gente enxugar e dizer: “É isso!”. Em 1982, Belo Horizonte era uma cidade muito pacata, muito quieta, o teatro seguia uma dramaturgia menos ousada e eu queria o oposto. Eu tinha vindo da Alemanha e da Índia, na Alemanha eu conheci a Pina Bausch, então eu tinha um desejo de replicar a Dança-Teatro de Pina Bausch. Cheguei em Belo Horizonte assim, uma jovem diretora, cheia de gás, querendo colocar a Dança-Teatro. E quando fui trabalhar no CEFART, eu já estava em uma outra fase, que era o Teatro Coreografado, onde já se admitia mais todo o trabalho de dicção, de escolher e enfrentar textos do teatro. Na Alemanha eu aprendi que todo bom diretor tem um dramaturgista ao lado. O dramaturgista é aquele que oferece para o elenco, para o diretor, para o figurinista, para todo mundo da equipe, os materiais que podem ajudar na elaboração daquele trabalho. Como a gente não tinha um, eu mesma me virava fazendo o trabalho do dramaturgista. Eu me lembro que teve a oficina do boi, a oficina do cavalo, oficina da capa, oficina dos gestos, várias oficinas para podermos montar esses trabalhos. Eu me defino como uma diretora que gosta de estar muito junto do intérprete, acredito que é ele que vai me ajudar. Não existe uma barreira, pelo contrário, existe esses atravessamentos. E para mim, a direção é um momento de muita paixão, muita loucura, muita entrega. Eu não consigo ver uma direção somente guiada pela lógica, não gosto, nunca gostei."

Carmen Paternostro é Doutora em Artes Cênicas com pesquisa sobre A Dança Expressionista Alemanha-Bahia. Professora da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia(UFBA), Graduação e professora permanente do Curso de Pós Graduação em Dança Mestrado e Especialização. Coordenadora Acadêmica da Escola de Dança e co- diretora do Grupo de Dança Contemporânea gestão 2013/1014, com o espetáculo "CABAÇA - uma homenagem a Walter Smetak". Fez a dramaturgia ao lado de Tuca Pinheiro para a criação do espetáculo “Agô! Arerê! Por favor não aperte o mamão!” com o Balé do Teatro Castro Alves. Atualmente, é Diretora da Escola de Dança da UFBA e participa do Grupo Pesquisa Corponectivos em Dança com a linha Filosofia da Dança. Criou e coordenou o projeto de Extensão Seminário Conexão Dança Alemanha-Bahia, trazendo vários profissionais da Alemanha e do Brasil em agôsto de 2013. Possui três livros publicados na área de revisão histórica,  política e filosofia da dança. Para doutoramento  fez estagio e pesquisas em vários arquivos de Dança na Alemanha visitando as cidades de Berlim, Munique, Colônia, Bremen e Dresden. No Brasil já residiu e trabalhou em São Paulo colaborando na implantação das Oficinas Culturais Três Rios, hoje Oficinas Oswald de Andrade, e em Belo Horizonte fundou o Grupo Pagu Teatro e Dança, fez vários trabalhos para a Cia. de Dança e Centro de Formação Artística da Fundação Palácio das Artes. Recentemente dirigiu os espetáculos “Narcissus” (2017) com Danilo Cairo e Ruy Manthur e “Ziriguidum: Ideias Abertas para tocar e Dançar” com o Grupo de Dança Contemporânea da UFBA.

Foto: Célia Aguiar

Última atualização: 25/10/2021