A TEATRO DANÇA - POSSIBILIDADES E MERGULHOS CRIATIVOS

Por Daniela Mara


Meu pulso coração acelerava à medida que os espectadores preenchiam os bancos do Teatro de Ouro Preto. A porta fechou, a luz suavizou o silêncio do palco vazio. Lembro que os próximos minutos geraram um incômodo na plateia. Algumas pessoas conhecidas me perguntaram o que estava fazendo sentada ali. O diretor subiu no palco, aparentemente preocupado. Luz geral. Depois de um breve momento, o diretor parou no centro do palco; observou o público até encontrar o olhar singelo de outra pessoa. Esse encontro durou alguns segundos até o seu corpo ir ao chão.


Os movimentos que seguiram geraram uma atmosfera preocupante com todes no público. Em um súbito movimento, uma pessoa subiu no palco. Ela tocou o corpo, mas não obteve respostas. Essa pessoa repetiu a ação de observar o público. Encontrou outro par de olhos curiosos. Caiu ao chão. Outra pessoa rapidamente sobe ao palco, seus olhos me encontraram. Através de um movimento acentuado, seu corpo repete a movimentação anterior e encontra o chão. Subi no palco. Encontro outro olhar. Repeti a movimentação. A última dançarina repetiu a ação. Black out.


Aos poucos a luz indica o início de outra cena, através das imagens dos corpos despidos, mergulharemos nos processos criativos do espetáculo êxodos.

O espetáculo exôdus, com direção de Éden Peretta (coletivo anticorpos – investigação em dança), vivenciou com a linguagem da teatro-dança um processo criativo, mergulhou nas imagens internas das dançarinas, cartas de tarô e as reverberações do

livro Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marquez. A estreia do espetáculo aconteceu na cidade de Ouro Preto, em 2013.



Estreia do espetáculo exodus - Teatro de Ouro Preto (2013). Fotografia: Biel Machado


Durante dois anos, estávamos na sala de ensaio investigando os fundamentos da dança butô, as improvisações em dança e o contato-improvisação para desencadear a construção das cenas. Os impulsos do processo criativo dialogaram com as imagens dos exodus populacionais, os quais obrigam o deslocamento das pessoas para sua sobrevivência, como também atravessaram as reminiscências do livro Cem Anos de Solidão. Neste livro, Gabriel García Márquez conta a histórias da família Buendía, dos conflitos geracionais às mudanças do vilarejo com o progresso moderno. Muitas imagens do livro influenciaram o imaginário do coletivo, reverberando na carne as investigações da presença e expressividade em cena.

A literatura estimulou as imagens internas como a imagem célebre das borboletas que avisavam a chegada do amante, ou quando o autor encerra o ciclo geracional: “o primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas” (MARQUEZ, 2014 p.445).


A literatura e a dança foram aproximadas, nesse percurso, através das sensações de movimento à composição espacial, mergulhando os espectadores em suas singulares leituras do espetáculo, um fluxo de sentido possíveis.

A teatro-dança ou dança-teatro possui influência nas pesquisas do coreógrafo Rudolf Von Laban sobre o movimento, o qual “propõe uma ruptura do binário dança/teatro, corpo/mente, movimento/texto” (FERNANDES, Ciane, 2006, p.29). Segundo Ciane Fernandes (2006), ao desenvolver a dança-teatro alemã (tanztheater), Laban defendia a prática da dança em todos os corpos, através das investigações do movimento e nas improvisações da Tanz-Ton-Wort (Dança-Tom-Palavra), ou seja, uma dança além da técnica. Através das investigações do movimento, Rudolf Laban criou peças com o movimento cotidiano e com narrativas variadas, desde a clássica à comédia. O método de Laban influenciou/influencia muitos coreógrafes, pesquisadores, dançarines em todo o mundo. Atualmente, nas práticas contemporâneas em dança ou teatro, utilizamos os princípios técnicos de Laban nas improvisações corporais, baseado nos fatores de movimentos: peso, fluxo, tempo e espaço. Outra influência das pesquisas labanianas é o uso dos verbos para dar corpo às investigações do movimento; nesse caso, as dinâmicas do movimento como cair, pular, saltar, girar, caminhar (...) são dispositivos para as ações corporais através do uso das palavras.


No caso do processo de criação do espetáculo exodus, o uso e/ou desuso das palavras provocou nos corpos das intérpretes/dançarinas sensações múltiplas para pensarmos a corporificação das imagens internas, bem como sua expressividade. Éden Peretta (2016) irá nos provocar para pensar a materialidade do corpo e suas densidades, como dançar através do peso dos ossos, da carne e dos órgãos, dançar as camadas sutis do corpo visível e invisível. A palavra, nesse caso, é o dispositivo criativo para a experiência na teatro-dança, ao compor com as teatralidades e suas provocações/sensações imagéticas possíveis para um corpo em dança.


Referências bibliográficas

  • Espetáculo exodus, coletivo anticorpos. Disponível em: < https://anticorpos.wordpress.com/about/projetos/projeto-exodos/> (Acesso 02 de jan de 2021)

  • FERNANDES, Ciane. O corpo em movimento: sistema Laban/Bartenieff na formação e pesquisa em artes cênicas. São Paulo: Annablume, 2006.

  • MARQUEZ, Gabriel Garcia. Cem Anos de Solidão. Rio de Janeio: Record, 2014.

  • OHNO, Kazuo. Treino e(m) poema. São Paulo: n-1 edições, 2016.

  • PERETTA, Éden. O soldado nu: raízes da dança buto. São Paulo: Perspectiva, 2015.


Daniela Mara é atriz, pesquisadora, professora, performer e dançarina. Possui graduação em bacharel de artes cênicas, modalidade interpretação e direção teatral pela UFOP (2016 - 2018). Atualmente cursa licenciatura em artes cênicas na mesma instituição. Participa do coletivo anticorpos - investigação em dança e a coletiva Queerlombo, ambos com atuação em Ouro Preto/MG. Tem experiência na área da produção cultural, teatro, dança, performance e arte educação.



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