ANCESTRALIDADE NEGRA: O “CORPO-MEMÓRIA” NO ESPETÁCULO REVOADAS

Por Cleiciane Mendes


Encontrei minhas origens

Em velhos arquivos

Livros

Encontrei

Em malditos objetos

Troncos e grilhetas

Encontrei minhas origens

No leste

No mar, em imundos tumbeiros

Encontrei

Em doces palavras

Cantos

Em furiosos tambores

Ritos

Encontrei minhas origens

Na cor de minha pele

Nos lanhos de minha alma

Em mim

Em minha gente escura

Em meus heróis altivos

Encontrei

Encontrei-as, enfim

Me encontrei

Encontrei minha origens - Oliveira Silveira [1]



Foto: Mayara Laila


Na criação do espetáculo Revoadas, pude contar com a contribuição de pessoas que entenderam meus questionamentos, minhas buscas e as minhas inquietações, como a diretora Rikelle Ribeiro; com as contribuições relacionadas à capoeira deJack Diniz, que nos auxiliou na preparação corporal, na atuação e como percussionista; com César Divino, Dian Lucas e Michele Bernardino na atuação, na música, na preparação vocal, percussão, figurino e cenografia. A dramaturgia foi escrita de forma coletiva pelos integrantes do espetáculo e com a contribuição da dramaturga Andrêa Rodrigues, inspirada nos livros As lendas de Dandara, de Jarrid Arraes[2] e Leite do Peito, da autora Geni Guimarães[3].

Na iluminação, pude contar com a sensibilidade e a delicadeza do iluminador Eliezer Sampaio. Para, além disso, a parceria de cena e de vida foi de extrema importância para contar as histórias de Dandara dos Palmares e das Dandaras atuais, que têm na guerreira do passado uma referência de resistência para os dias de hoje.

CORPO - MEMÓRIA

A ancestralidade para os povos negros é mais do que saber de onde vieram seus antepassados, é redescobrir as identidades que foram desfiguradas durante anos de história e que nos fizeram construir uma visão deturpada de quem nós somos.

Conectar-nos às nossas raízes históricas implica em entender o papel da cultura africana na construção identitária de quem éramos, somos e seremos futuramente. Há uma busca incessante por um diálogo entre as nossas memórias ancestrais e as nossas vivências atuais, levando em consideração a importância das tradições africanas.


As corporeidades negras surgem como elementos cheios de possibilidades ao utilizar o corpo como instrumento relacional com o mundo, que inicialmente busca por um “eu” singular, mas não um “eu” individual em busca de algo pessoal, sendo o “eu” equivalente ao “nós” na filosofia africana, que é nomeado de “Ubuntu”[4]. Portanto, ao dizer que procuro também com este trabalho me entender como mulher negra, estou dizendo que procuro compreender os povos negros, as nossas histórias, as nossas tradições, as nossas heranças e o quanto esse nós desperta o “eu” coletivo que somos; e, ao ter consciência disso, poder chegar a uma noção de “quem somos, o que não somos, o que não podemos ser e, a partir dessa perspectiva, perceber como estamos “sendo” e agindo no todo, para “continuar a agir na sociedade tendo em vista esse pertencimento” (SANTOS e BAUMGARTEL, 2015, p. 30).


A corporeidade que trago em questão é uma “corporeidade que passa por uma agregação de signos que podem simbolizar, e essa simbolização é a organização dos códigos que se constituem no corpo” (SALES, 2015, p. 98). Os corpos negros carregam consigo mais do que os estereótipos sociais impostos a nós. A história “real”, contada por um viés afro-brasileiro, está nas linhas corporais. Parar e observar esses corpos negros nos levam a uma viagem de volta ao passado.

Foto: Mayara Laila



Esse corpo negro, ainda que parado para falar ou fixado em fotografia, enuncia sentidos. Na memória corporal ou na difícil construção da cidadania, a linha do corpo negro continua desenhando o espaço. Fio da memória. Fio da identidade. Espelho que nos indaga. [...] Da cabeça aos pés, repleta de signos, a imagem no espelho fala ao corpo que desenha o espaço. A todo lugar e momento os dois se fazem perguntas que tão cedo irão se calar. (RATTS, 2006, p. 68-69)


Foto: Mayara Laila




Os corpos negros, no espetáculo, são colocados como sujeitos de cultura individual e coletiva, como criadores de símbolos, além de criar e recriar a cultura na qual estão inseridos. O corpo é o meio pelo qual conseguimos compreender, perceber, acessar as emoções e as principais manifestações de uma ancestralidade. Há uma busca por uma relação mútua entre corpos negros, espaço e identidades quando o intuito é tornar-se “pessoa” e não uma “coisa” em processo de pesquisa.

O cabelo crespo/cacheado, os lábios carnudos, a pele negra com suas diferentes tonalidades, entre outras características se potencializam na cena teatral e são símbolos de resistência de forma consciente ou inconsciente, perpassando por uma cartografia cultural extensa e cheia de possibilidades, que funciona como um elo de ligação entre nós e o continente africano.

Marcos Alexandre(2017, p. 40) enfatiza que:

Esse corpo negro pulsante é mediado pelo corpo do ator negro em cena que dispara um elemento motriz que produz e, ao mesmo tempo, integra uma matriz ancestral, aquela que traz em si um elo com o continente africano; é uma matriz/ corpus de reminiscências de memórias coletivas que são evocadas quando o corpo do negro se vê em performance em sua acepção enquanto rito, trabalho performativo ou ação espetacular. (ALEXANDRE, 2017, p. 40)

Inaicyra Falcão Santos (2009), por sua vez, traz uma proposta para a arte da dança, mas que pode ser aplicada ao fazer teatral. A autora afasta a tradicional abordagem focada na cópia de formas do rito, e volta-se ao corpo do intérprete, por meio das memórias ancestrais, com ações corporais carregadas de significados, trazendo-as para o presente e ressignificando-as por meio da arte e do movimento criativo. O indivíduo com seu corpo pulsante (ALEXANDRE, 2017) já carrega consigo uma carga ancestral que vem com ele ao nascer, uma história, uma vivência familiar com um potente repertório que dá a ele meios de levar a cultura africana e afro-brasileira ao campo das artes.


O corpo é igualmente memória. Da dor que as imagens da escravidão não nos deixam esquecer, mas também dos fragmentos da alegria, do olhar cuidadoso para a pele escura, do toque suave no cabelo enrolado ou crespo, no movimento corporal que muitos antepassados fizeram no trabalho, na arte, na vida. Um golpe de cabeça, um jeito de corpo para escapar dos estereótipos, dos preconceitos e do racismo explícito. Um jeito de corpo para entrar nos lugares onde negros não entram ou ainda são minoria desigual. (RATTS, 2007, p. 68)



Foto: Mayara Laila




Esses corpos negros, que foram coisificados por uma sociedade racista como objetos, máquinas de trabalho, como algo descartável e estereotipado, foram buscando, no decorrer dos anos, se desfazer desses adjetivos e apropriar-se de suas verdadeiras características ancestrais. Corpos que projetam saberes e que nos permitem olhar no espelho da raça, reconstruindo a nossa identidade, pensando em nossas trajetórias e nas rotas dos povos ao qual estamos vinculados.



Fotos: Mayara Laila


Notas


[1] Fonte do poema: Livro Poemas, antologia publicada em 2009.

[2]Jarid Arraes é uma escritora, cordelista e poeta brasileira, autora dos livros As Lendas de Dandara, Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis e Um buraco com meu nome. [3]Geni Mariano Guimarães é uma poeta e escritora brasileira. Iniciou a carreira literária publicando poemas em jornais da cidade de Barra Bonita, no interior paulista. [4]"uma pessoa é uma pessoa através (por meio) de outras pessoas".

REFERÊNCIAS


  • ALEXANDRE, Marcos Antônio. O Teatro Negro em Perspectiva: Dramaturgia e cena negra no Brasil e em Cuba. Rio de Janeiro: Malê, 2017.

  • BAUMGÄRTEL, StephanArnulf; SANTOS, Adriana Patrícia. Dos guetos que habito: negritudes em procedimentos poéticos cênicos. Revista Urdimento, v.1, n.24, p. 28-41, 2015.

  • SANTOS, Inaicyra Falcão. Dança e pluralidade cultural: corpo e ancestralidade. Revista múltiplas leituras,Santa Catarina, v.2, n.1, p. 31-38, 2009.

  • SALES, Jonas de Lima. Corporeidades negras em cena: um processo cênico pedagógico em diálogos com a tradição e a contemporaneidade. Orientadora: Luciana Hartmann. 2015, 256f. Tese (Doutorado em Arte) – Instituto de Artes, Universidade de Brasília, Brasília. 2015.

  • RATTS, Alex. Eu sou atlântica. Sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Instituto Kuanza, 2007.

Cleiciane Mendes nasceu em 1993. Atriz formada pelo Teatro Universitário da UFMG (2018), possui Bacharelado em Teatro pela Universidade Federal de Minas Gerais (2018). Tem seu primeiro contato com o Teatro em 2006, na cidade de Belo Horizonte, onde estudou no curso livre do NET (núcleo de estudos teatrais). Em 2012 frequentou o Núcleo Valores de Minas como aluna do curso de Dança, com vivências nas áreas de música, circo, teatro e artes visuais. Na graduação em Teatro trabalhou como coordenadora do projeto OSCE – parceria do Teatro com a faculdade de medicina e de Fisioterapia. Também trabalhou como estagiária no acervo documental e do figurino do Teatro Universitário de 2018 a 2019. Integrante do Coletivo akofena que tem como primeiro espetáculo do grupo, a peça teatral denominada “Revoadas” com direção de Rikelle Ribeiro. 










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