TEATRO E INFÂNCIA(S)

Atualizado: Jun 18

Por Keu Freire


Antes de propor algumas reflexões, agradeço ao “Mistura” pelo convite, pois precisamos de espaços de discussões como este, que estimulam e alimentam o pensamento crítico sobre os nossos modos de ver e fazer teatro. Neste texto, apresento um brevíssimo panorama do teatro para as crianças no Brasil e aponto uma possível concepção de infância, que questiona o modo simplista e mercadológico de se fazer teatro infantil.


Memória de um quintal [Insensata Cia de Teatro] - Fotografia: Elmo Gomes


Muitos especialistas apontam que a primeira dramaturgia brasileira criada para um teatro feito por adultos para crianças foi O Casaco Encantado (1948), de Lúcia Benedetti. Na cidade de São Paulo, em sua primeira montagem, o espetáculo passou a ser um marco, tanto pelo seu sucesso, quanto pelo ocorrido após sua apresentação. Segundo GOMES e AQUINO (2018, p.7):


A partir de O Casaco Encantado, em 1948, seriam estabelecidas distinções estratégicas, reivindicadas sobretudo pela classe artística, entre as práticas teatrais infantil e escolar. Entre elas: a valorização do teatro infantil como espetáculo de arte, e não mais como mero instrumento de transmissão didático-pedagógica.


Ainda em 1948, em São Paulo, aconteceu a estreia de Peter Pan, com o Grupo TESP, grupo que viria a se especializar em espetáculos para crianças e adolescentes, tendo sido fundado naquela estreia e que encerrou suas atividades em 1964.


No Rio de Janeiro, em 1953, surgiu talvez um dos mais importantes nomes do Teatro Infantil do país: a escritora e dramaturga Maria Clara Machado, diretora do Tablado, que tem suas peças encenadas até os dias atuais. Maria Clara Machado representou o Brasil no Terceiro Congresso Internacional para a Criança e Juventude em 1995 e, em sua declaração sobre sua experiência no evento, confirma-se que essa ligação insistente entre o teatro infantil e o foco no didatismo não era restrita apenas ao Brasil:


O que me pareceu foi que na Europa o teatro infantil é domínio exclusivo da pedagogia e da educação. A maioria quase total dos congressistas era de professores de escolas primárias. Havia raras exceções entre os marionetistas, único ramo do teatro para crianças onde a preocupação artística vem em primeiro plano. (MACHADO apud CAMPOS, 1998, p. 52)


Podemos, a partir dessa declaração, perceber que, no ano de 1965, já existiam profissionais empenhados em quebrar paradigmas que ainda persistem nas criações contemporâneas: a necessidade de justificar o Teatro Infantil como um recurso didático e moralista, o que deixa a criação artística em segundo plano.


A partir da década de 1970, surgem muitos grupos, encontros, instituições e diversos movimentos que promovem, investigam e incentivam o teatro para crianças. Cito alguns, como: O Prêmio Molière, que contemplava apenas espetáculos adultos e a partir de 1974 passa também a contemplar o Teatro para Crianças. Surge, em São Paulo, a Associação Paulista de Teatro para a Infância e Juventude, a APTIJ. No Rio de Janeiro, em 1985, surge o Centro Brasileiro de Teatro para a Infância e Juventude.


Mesmo com os avanços observados, vale ressaltar que, em contexto nacional, ainda é perceptível uma escassez de publicações acadêmicas, de grupos e artistas com pesquisas continuadas sobre o Teatro para as Crianças, o que o mantém preso aos excessos de "intenções didáticas" e/ou à "obsessão pela lição de moral" (NETO, 2003).


Outro ponto importante a se repensar sobre as criações teatrais dedicadas às crianças é o fato de que muitas produções recorrem "a ícones da mídia ou a clássicos amplamente difundidos pela Disney, como forma de garantir o sucesso da bilheteria" (FREIRE, 2020). Desse modo, nessas criações artísticas, o que se destaca são as massivas produções do Teatro Burguês que, segundo Pavis, é um teatro que se pauta em (...) uma estrutura econômica de rentabilidade máxima e destinado, por seus temas e valores, a um público "(pequeno)burguês", que veio consumir com uma grande despesa uma ideologia e uma estética que lhes são, de cara, familiares (1999, p.376).


Nessa perspectiva, a lógica mercadológica, o excesso do didatismo e do moralismo, dentre outros paradigmas, colocam o teatro dedicado às crianças à margem no que diz respeito à pesquisa e ao experimento. Daí, a importância de se incentivar e fomentar a produção acadêmica e as pesquisas que respeitem as potências das crianças na fruição e na reflexão artística.

Se quem pensa e faz teatro para crianças não respeita as diversidades existentes nas infâncias, logo teremos como resultados obras simplistas que também não respeitam as individualidades e que censuram o contato das crianças com determinadas poéticas e/ou assuntos. Nessa linha de raciocínio, Suzanne Lebeau[1], em entrevista para o site Pecinha é a vovozinha[2], afirma que:


Se lhes oferecermos só uma terrível visão comercial e simplista da vida, não conseguirão nunca ter a distância necessária para criticar o mundo – e ‘engolirão’ o modo consumista como sendo algo normal e aceitável, já que só isso lhes foi proporcionado (LEBEAU, acessado em 30/04/20)


Indo na contramão dos paradigmas apontados e a fim de verticalizar uma pesquisa dedicada ao teatro para e com as crianças, junto a Insensata Cia de Teatro[3], experimentei e sigo experimentando processos heterogêneos de criações teatrais que apostam no compartilhamento das diversas infâncias existentes.


Nesta pesquisa, tive a alegria de idealizar, sonhar e, em parceria com meus companheiros de profissão, fazer desse sonho uma realidade: desenvolvemos o FeNAPI-BH[4] (2019), um festival inteiramente dedicado às artes para as infâncias, que contou com uma programação diversa e repleta de trabalhos cênicos, seminários e oficinas que apontaram caminhos ainda pouco percorridos no Teatro para as Infâncias. Além do FeNAPI - BH, ainda dentro desta pesquisa, construímos os espetáculos "Pru - ti - ti - memórias de estimação" e "Memórias de um quintal".


FENAPI-BH 2019 - Festival Nacional de Artes para as Infâncias de Belo Horizonte


Através da pluralização do termo proposto (Infâncias) no FeNAPI-BH e pela pesquisa teórico-prática na Insensata Cia de Teatro, sugerimos que as infâncias são muitas, valorizando cada criança em sua individualidade e considerando, ainda, a permanência da infância no adulto, presente em diferentes idades cronológicas.

Assim, o termo pluralizado resulta numa aposta pelo espaço compartilhado entre as mais heterogêneas infâncias existentes, determinadas por um sem número de variáveis, como os aspectos temporais, geográficos, sociológicos, de gênero, raça, cor, dentre outros.

[1] Suzanne Lebeau é atriz e autora de diversas obras dedicadas crianças e jovens. Fundadora da companhia Le Carrousel. [2] http://www.pecinhaeavovozinha.com.br/suzanne-lebeau-papo-da-vez/ [3] Insensata Cia de Teatro - https://www.facebook.com/insesataciadeteatro/ [4] Festival Nacional de Arte para as Infâncias de Belo Horizonte - https://www.facebook.com/fenapibh/

Referências

  • CAMPOS, Cláudia de Arruda. Maria Clara Machado. São Paulo: Edusp, 1998.

  • FREIRE, Brenda Campos de Oliveira. Teatro para as Infâncias: uma concepção plural e contemporânea. Ouro Preto: UFOP, 2020.

  • GOMES, S. S.; AQUINO, J. G. Uma Breve Genealogia do Teatro e Educação no Brasil: o teatro para crianças. Rev. Bras. Estud. Presença, Porto Alegre, v. 9, n. 1, e82416, 2019. Disponível em: http://seer.ufrgs.br/presenca

  • NETO, Dib Carneiro. Pecinha é a vovozinha! São Paulo: DBA Artes, 2003.

  • “Quem sai chocado do teatro são os pais, nunca as crianças”. Disponível em: http://www.pecinhaeavovozinha.com.br/suzanne-lebeau-papo-da-vez/. Acesso em 07 de julho de 2018.


Keu Freire se formou como ator no Teatro Universitário da UFMG em 2011, além de ser licenciado em Teatro pela mesma universidade. Desde 2009 atua como ator, diretor, professor e produtor da Insensata Cia. Membro da comissão do Prêmio Copasa - Sinparc de Artes Cênicas entre 2014 e 2018. Idealizou e coordenou a Mostra InMinas de Teatro e o FeNAPI-BH - Festival Nacional de Arte para as Infâncias de Belo Horizonte.

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