UM ENCONTRO COM RAUL BELÉM MACHADO

Por Laysla Araújo


Já lhe aviso: este encontro não aconteceu no tempo-espaço convencional. Não conheci Raul Belém Machado pessoalmente. Não trabalhamos juntos. Nunca assisti a uma aula sua. Descobri Raul por meio de pessoas que fazem o que ele fazia. Ele mesmo já havia falecido anos antes de eu me interessar pela cenografia. Além disso, este encontro não foi imediato. Ele vem sendo construído na medida em que vou me formando cenógrafa.


As primeiras vezes em que ouvi o seu nome foram durante a primeira disciplina optativa de cenografia que cursei, ainda na graduação de arquitetura e urbanismo. As pessoas o diziam como se referindo a alguém importante, que todo mundo conhece. Mais tarde, nas aulas da Formação Transversal com Cristiano Cezarino e Tereza Bruzzi no Teatro Universitário, escutei breves histórias sobre Raul Belém Machado e um lugar chamado Marzagão. Mas só quando me tornei bolsista do Barracão - núcleo de pesquisa do qual Cristiano e Tereza fazem parte - a figura do Raul começou a tomar forma para mim. Entrei no grupo para cooperar com o projeto Genealogia da Cenografia em Minas Gerais. Raul era um dos nomes mapeados na pesquisa - então, soube que ele tinha sido um importante profissional das artes cênicas, que estudou na Escola de Arquitetura da UFMG, que foi funcionário do Palácio das Artes e responsável pela formação de vários outros profissionais.


No entanto, naquele momento da pesquisa, focaríamos em outro grande artista: Décio Noviello. Ele ainda era vivo e cheio de vontade de contar sua história. Mergulhamos no seu universo. Reunimos as publicações sobre ele, que era artista plástico, cenógrafo, figurinista, carnavalesco, militar, professor... O “entrevistamos” na sala da sua casa, entrevendo outras de suas facetas: pai da Maria, companheiro inseparável da cachorrinha Shiva, vendedor de miniaturas a troca de botões... Completamente fascinadas, passamos tardes e mais tardes em seu ateliê, revirando seus arquivos, enquanto ele nos contava os causos por trás de cada foto, desenho e recorte de jornal.


Em Décio, descobri um admirador e amigo do Raul, companheiro de trabalho em diversos espetáculos, oficinas e festas populares. Com o Décio, soube que Raul gostava de trabalhar com madeira, que era bastante técnico e exigente, um verdadeiro construtor.

Com o tempo, outros assuntos surgiram pra mim e o Raul ficou guardado na minha gavetinha de curiosidades.


Enquanto finalizava a graduação, fui estudar iluminação cênica na Escola de Tecnologias da Cena do Cefart. Foi muito interessante esse movimento de passar a frequentar diariamente um outro espaço de Belo Horizonte, onde também se pensa e praticam as artes da cena. Conheci mais pessoas do ramo, tendo contato com outras perspectivas. Também ali, falava-se frequentemente sobre Raul Belém Machado. O Palácio das Artes, onde o Cefart funciona, foi uma de suas casas - onde ele trabalhou por muitos anos, como professor e diretor artístico. Ao longo do curso, sempre aparecia alguém (algum professor, colega ou profissional convidado para um seminário) contando que fez tal oficina em Marzagão ou que montou tal espetáculo com o Raul. Neste ponto, eu já tinha a sensação de que essa figura estava me perseguindo [risos], e comecei a pensar em estudar sobre ele.


Raul Belém Machado - Foto: Site da Prefeitura de Belo Horizonte

Um novo encontro, desta vez com parte de sua obra, alimentou ainda mais a minha curiosidade. Tereza me convidou para acompanhar o Barracão numa visita a Marzagão - escolheríamos peças do acervo para compor os cenários da montagem de formatura de uma das turmas de atores do Cefart. Me senti num museu, dos mais intrigantes, misto de glória e decadência. Caminhando pelo galpão, envolta por aquelas peças enormes das óperas montadas no Palácio, só conseguia pensar no quão vivo e cheio de possibilidades aquele espaço deve ter sido um dia.




Paralelo ao processo da formatura do Cefart, voltei a escutar sobre o Raul no 1o Fórum Formação em Tecnologias da Cena, que aconteceu em novembro de 2020. O evento, promovido pela Escola de Tecnologias da Cena, reuniu profissionais e educadores de diferentes lugares do Brasil. Em quatro encontros virtuais, discutiu-se sobre formatos de ensino e percursos formativos, tanto os existentes quanto os almejados. Raul Belém, como outros mestres, foi homenageado logo na abertura do fórum, e citado como personagem recorrente nas trajetórias de alguns participantes.


Aqui, o que me encantou foi entender a conexão entre o Raul e professores que atuam hoje em várias escolas por Minas e até fora. Enxerguei, de certa forma, a passagem do tempo e do conhecimento - a coisa da genealogia.

Decidi que queria ouvir mais sobre essas relações entre mestre e aprendiz, e formulei um tema de pesquisa “Raul Belém Machado e o ensino da cenografia em Minas Gerais”, pensando em talvez encarar um mestrado.


Sobre o mestrado, ainda não estava muito certa, mas nesse meio tempo saíram os editais da Secretaria Estadual de Cultura para repasses da Lei Aldir Blanc e vi nisso uma oportunidade de iniciar esta pesquisa. A minha proposta foi aprovada e com este aporte pude me dedicar a leituras sobre o Raul e organizar um seminário com profissionais que o tiveram como mestre e colega de trabalho. Fizemos dois encontros virtuais com transmissão ao vivo pelo canal do Teatro Universitário - UFMG no YouTube, nos dias 15 e 17 de março de 2021, que continuam gravados e disponíveis na plataforma.


No primeiro dia do Seminário Raul Belém Machado e o ensino da cenografia em Minas Gerais, tivemos um bom panorama sobre a biografia do Raul e sua relação com o espaço cênico. Isso tudo a partir da perspectiva de Mariluce Duque, Miriam Menezes, José Geraldo Martins e Letícia Belém Machado. A Letícia é sobrinha do Raul e foi quem nos contou sobre seu contexto familiar e toda a sua trajetória, com quem pudemos compreender um pouco mais dos elementos que formaram Raul Belém Machado um multiartista da cena mineira. Com Mariluce, que é arquiteta e abriu um escritório em sociedade com o Raul, conhecemos seus preceitos para construção da caixa cênica e suas contribuições para a arquitetura teatral brasileira. Miriam e José Geraldo, cenógrafa e cenotécnico, relataram sobre as dinâmicas de criação e montagem cenográficas no Palácio das Artes e no Centro Técnico de Produção da Fundação Clóvis Salgado, em Marzagão - Sabará.


O segundo momento do seminário teve como tema Raul e o corpo cênico, contou com a presença de Fernanda Lopes Lima, Taires Scatolin e Maria Antônia Ferreira, com a mediação de Tereza Bruzzi. Todas se conheciam e já tinham trabalhado juntas em diversas ocasiões por intermédio do Raul. Então, desenvolveram uma conversa de muito afeto sobre suas experiências com o figurino e a presença do Raul em suas vidas. A Fernanda foi aluna e orientanda da Tereza e do Raul no curso de Design de Moda, na FUMEC, e atuou como figurinista e coordenadora no CTP. Taires e Maria Antônia são costureiras contramestras em produções teatrais, que construíram suas carreiras ao lado do Raul também no CTP.


Antes do seminário, eu já tinha lido Raul Belém Machado: o arquiteto da cena, visto matérias e entrevistas sobre ele. Portanto, sabia em linhas gerais quem ele tinha sido e sobre sua importância para o teatro e a cenografia de Minas. Mas, com os encontros, ao ver essa história contada por quem era de dentro, sem edição, eu finalmente conheci o ser humano Raul. Professor, amigo, profissional apaixonado por tudo o que fazia, e que com toda a sua generosidade tinha o propósito claro de formar pessoas e espaços dedicados à arte.


Falar sobre Raul é contar a história da Tereza, da Miriam e de todas essas pessoas que eu encontro por causa da cenografia em BH. Investigar Raul Belém me possibilita revisitar a minha própria história. Eu também vim do interior para estudar arquitetura e urbanismo na UFMG. Dentro do curso, descobri a cenografia. Frequentei bastante a Escola de Belas Artes e o TU, com as disciplinas da Formação Transversal. Fui estudar no Cefart. Eu, que achava que o Raul me assombrava, descobri que era eu quem, de uma maneira despretensiosa, seguia os seus passos.



Laysla Araújo é cenógrafa e artesã. Cursou arquitetura e urbanismo na UFMG, onde também foi bolsista do Barracão e realizou seus primeiros projetos cenográficos. Entre estes, estão os espetáculos de formatura do TU de 2017, 18 e 19. Em período pandêmico, ela se divide entre os estudos sobre desenho e espaço da performance e a prática do macramê.

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